Cabine de Imprensa – “Sheena667” (Sheena667) – 97 min

 






“A língua lambe as pétalas vermelhas / da rosa pluriaberta ; a língua lavra certo oculto botão,  e vai tecendo / lépidas variações de leves ritmos”

Carlos Drummond de Andrade

 

Um casal de classe média na Rússia friorenta e nevada possui uma oficina de automóveis. Seu grande sonho é adquirir um reboque novo e moderno. Vivem num lugar ermo e solitário, à beira daquela que é chamada de Estrada da Morte. Negociam com os carros que sofreram acidentes naquele lugar de tristes acontecimentos. Olga e Vadim formam o tal casal, moram e trabalham na periferia da cidade, ambos têm pouco mais de 30 anos. São pessoas simples e sérias, compartilham alegrias e tristezas na cidade de Vyshny Volochyok. As estradas estão quebradas, neve e neblina compõem a paisagem, a perturbação daquela vida sem surpresas acontece quando surge um estranho inesperado. Ou melhor, uma estranha belíssima e sensual, uma intrusa que sabe manipular desejos e sentimentos: Sheena667.

Vadim, meio que por acaso, descobre o site pornô e nele a musa que dá um novo colorido à sua vida um tanto cinzenta e protocolar. Shenna667 aos poucos vai tornando-o um escravo de seus próprios sonhos e fantasias, que ela sabe muito bem como estimular. A sedução da transgressão, a tentação pelos prazeres desconhecidos e incomuns, e a malícia e ternura com que a moça trama sua teia atingem o rapaz no oco de suas frustrações. Ele aceita o preço que tem que pagar por suas escolhas bizarras e amorosas.

Nada acontece de fato. Trata-se sempre de sexo virtual no qual a imaginação pode se ver livre e voar por ares nunca dantes navegados. Não houve sequer um beijo real, mas ele fica doidinho pelos artifícios da moça e por suas promessas de dádivas pra lá de maravilhosas. A moça, uma encantadora yankee, mora nos Estados Unidos da América. Vadim mora na Rússia indomada e toda formatada em seus estratagemas de sobrevivência e dominação. Olga sofre, não compreende aquele destempero. Ao fim de tudo, Vadim terá que fazer uma escolha nada fácil. As memórias dos bons momentos com Olya pesam em seus pensamentos. Afinal, eles sempre se curtiram juntos e fizeram um sexo do bom, embora um tanto comum e repetitivo.

No início do filme há um excesso de buscas na internet para encontrar o reboque almejado, o que torna cansativo o desenrolar das cenas. Mas há diversos momentos muito bonitos onde a fotografia desponta: uma luz tênue de uma luminária no canto direito da tela quando Olga e Vadim estão desfrutando de seus prazeres eróticos; Vadim colocando madeira para queimar numa fornalha; quase sempre uma luz indireta dá beleza a uma cena simples; a câmera deslizando pela estrada mostrando uma série grande de árvores nuas, sem folhas, com os galhos gritando a sua solidão. São exemplos de momentos de delicada beleza, talvez querendo restituir um sentimento mais profundo que a mera libido em sua imponência efêmera e espetacular.

Sheena667 retrata a tragédia, ou o ridículo de uma vida comum, quando um desejo estrangeiro, alienígena, subversivo, entra na vida do casal, e, mais especificamente, na vida de um dos cônjuges, no caso presente, da do homem. Filme em elipses, nada, ou quase nada, é dito abertamente, ficando a cargo do espectador deduzir o que se trata em cada diálogo construído dessa forma.  

 

Sheena667” (Sheena667) – Rússia – 2019 – drama – 97 min

Direção: Grigoriy Dobrygin

Elenco: Yuliya Peresild – Vladimir Swirskiy – Jordan Frye – Yury Kuznetsov – Nadezhda Markina – Pavel Vorozhtsov

 

 Marco Guayba

Ator, diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras

 

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