Cabine de Imprensa – Masha (Masha) – 84 min

 


           

   “Paraíso / Eu estou no paraíso / E meu coração bate tanto que eu mal posso falar / E eu pareço encontrar a felicidade que procurei / Quando nós estamos juntos lá fora dançando de rostos colados”

(Cheek to Cheek, canção de Irving Berlin)

 Quand il me prend dans ses bras / Qu’il me parle tout bas / Je vois la vie em rose / Il me dit des mots d’amour  / Des mots de tous les jours / Et ça me fait quelque chose (…) C’est lui pour moi / moi pour lui / Dans la vie / Il me l’a dit, l’a juré / Pour la vie

(La Vie em Rose, canção de Edith Piaf)

 

Maria Konstantinovna, Masha (a ótima Anya Chipovskaya), volta para sua cidade natal para acertar as contas. Agora ela é uma cantora de prestígio, mas em sua antiga morada participava de um grupo social muito complicado.  A vida é difícil para uma moça de treze anos na nova Rússia, ainda mais se sua família é um tanto mafiosa, envolvida com toda sorte de truculências. Roubam, cometem pequenos crimes, matam. Para eles isso tudo faz parte do dia a dia dos negócios. Essas pessoas amam Masha e a protegem sempre com muito carinho: “Ela vai ser melhor que nós, mais livre...”. Essa cantilena é dita mais de uma vez, embora seus parentes, a não ser sua mãe, nada façam para que esse destino aconteça. Seu tio, o Padrinho (o excelente Maksim Sukhanov), ou seja, o chefão do clube de boxe (a gang), a paparica de muitas maneiras. A doce menina, vez por outra pega o revolver dele ou de algum dos rapazes e brinca com a arma como se fosse coisa inocente.

A pequena Masha (a incrível Polina Gukhman) acaba testemunhando algumas das atrocidades que o bando comete. E as que os inimigos cometem contra ele. Sente as perdas de seus amigos queridos, mas aquele é o mundo que ela conhece. Matar é assustador? Valera, o tio, reponde-lhe que é possível sobreviver a qualquer morte, que quem é vivo sempre está certo. Assim são os tempos atuais, é matar ou morrer. Espécie de Filosofia na sarjeta.

O filme mostra o lado humano daquelas pessoas, apesar de suas vidas bandidas. Um capanga escreve poemas, outro chora no cinema. No entanto, todos acham que resolvem tudo na porrada. A violência criminosa implica também a negação de certos valores. O deserto de sentimentos está logo ali à espreita. O perigo tem seus mistérios: revela sensibilidades, desejos e a paixão, Masha e Serguei. Poesia, música, amor. Temas paralelos, ou subtemas atuantes. O final reserva fortes emoções. Paradoxais. E trágicas. Uma espécie de Electra musical.

As canções são uma constante ao longo do filme. Em inglês, principalmente, em francês e em russo. Quase sempre é Masha, jovem ou adulta, quem canta. As músicas pontuam cenas fortes, acentuando o conteúdo delas por afinidade ou por contraposição. A menina, quando consegue sair dali, constrói uma carreira musical. Mas só ficamos sabendo disso no final.

O Vermelho é uma cor quente, tem muitos significados: paixão, raiva, fúria, desejos intensos e incontroláveis, forte excitação, força e vitalidade, poder de realizar qualquer ato. Dizem que é a cor mais intensa da psicologia. O Vermelho é outra constante do filme: está na cor do vestido de Masha no palco, no sangue derramado por camaradas e gangs rivais, na chegada da primeira menstruação (embora aí apenas aludido), em ambientes e vestes de vários personagens. As cenas noturnas, de um modo geral, tem uma paleta de cores que vai do vermelho à vários tons próximos. Marrom, ocre, sienna... Uma iluminação sempre muito bem cuidada, resultando numa fotografia muito bonita. Não por nada o Vermelho acompanha muitos momentos da jovem Masha. Até o filme que ela assiste, junto com um dos matadores do tio, tem como personagem central Scarlett O’Hora.  

Outra constante é Masha caminhando pelos corredores da existência, sempre vista de costas, se surpreendendo com os perigos de sempre, tateando aquele mundo incompreensível e brutal. Está presente, duplamente, na sequência final (que é uma volta ao início do filme). Na cena ela entra, canta Cheek to Cheek, realiza uma coreografia agitada, pula, pira, dança exultante numa performance bipolar no palco e na vida. Há um belíssimo movimento de câmera, que a acompanha pelas costas, circula-a e a mostra de frente. De frente para o público, de frente para o crime. Sentimentos ambivalentes de quem vivenciou todos aqueles absurdos. Ela canta “Heaven... I’m in Heaven...”

 

Masha” (Masha) – Rússia – Drama – 2020 – 84 min

Direção: Anastasiya Palchikova

Fotografia: Gleb Filatov

Figurinista: Anna Christova

Maquiagem: Kristina Bitiutskaya

Produtor musical: Denis Dubovik

Diretor de elenco: Vladimir Gelov

Diretor de arte: Valeriy Todorovskiy

Chefe decorador: Asya Davydova

Assistente de direção: Ksenia Kukina

Montagem: Ivan Baryshev (com a participação de Mukharam Kabulova)

Som: Aleksandr Volodin e Konstantin Zalesskiy

Elenco: Maksim Sukhanov – Anya Chipovskaya – Polina Gukhman – Aleksandr Mizev – Olga Gulevich – Maksim Saprykin – Sergey Dvoynikov – Olya Fedotova – Aleksandr Zvezdin – Anna Borissowna

 

Marco Guayba

Ator, diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras

 

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