Cabine de Imprensa – “Doutora Liza” (Doctor Liza) – 120 min

 



“A alegria de fazer o bem é a única felicidade verdadeira.”

(Liev Tolstoi)

“O justo se informa da causa dos pobres, mas o ímpio nem sequer toma conhecimento.”

(Provérbios, 28:27)

 

Elizaveta Petrovna Glinka é uma figura muito querida na Rússia, ela é uma ativista humanitária das mais persistentes. Dedicou sua vida aos mais necessitados, aos desvalidos, às crianças vítimas de guerras ou de incêndios, aos moradores de rua e a todos que precisam de ajuda médica e não têm como obtê-la. Formou-se em medicina ainda no época da U.R.S.S., viveu um tempo nos Estados Unidos da América e especializou-se em medicina paliativa (para doentes terminais). No final dos anos 90, trabalhou no Hospital de Oncologia de Kiev, onde organizou uma unidade de cuidados paliativos. A “Doutora Liza”, como era conhecida, em 2007 criou na Rússia o fundo de caridade “Ajuda Justa” destinado a atender os mais pobres e os sem-teto.

A história narrada no filme se passa em 2012. Sua luta incansável por pessoas desprotegidas é mostrada tendo como pano de fundo uma sociedade muito fechada, cheia de regras rígidas, que acabam por deixar num plano mais que secundário as necessidades humanas mais básicas. O terror, a opressão, a perseguição estão em todo lugar, transpiram em cada ambiente, regras excessivamente burocratizadas tornam a vida dos profissionais de saúde bastante difícil. Em um Estado feroz, o sistema tem que funcionar a qualquer preço. A vida humana torna-se só um detalhe, o que faz do outro desassistido um vulnerável incapaz em situação de risco. Vigiar e punir, como diria o filósofo Michel Foucault, é uma imposição social que beira o ridículo e a tragédia. A fúria do demônio da vontade de dominação impõe seus preconceitos. Liza é discriminada por fazer bem o ofício a que se dedicou, ou seja, por cuidar de gente, protegida ou não pelo manto sinistro do Estado. Coisas de uma sociedade que está à beira do cinismo.

Um conto de fadas santificado. A Índia teve em seu território a Madre Teresa de Calcutá, que um certo dia ouviu o chamado interior e decidiu abandonar o noviciado e se dedicar aos necessitados. O Brasil contou com a presença dadivosa de Irmã Dulce, que dedicou sua vida a alimentar as pessoas com o pão do espírito e a proteção da carne. A Rússia nos revela, com esse filme, essa “Doutora Liza” como uma campeã da solidariedade aos deserdados sociais. Um filme-testemunho da maior importância.

 

Serioja, o major Kolesov,  conselheiro senior de crimes graves do Serviço Federal de Controle de Drogas, é designado para investigar as ações dessa médica impertinente. Acaba por descobrir mais sobre si próprio e sobre a vida do que ele mesmo esperava. A família de Liza é composta por Gleb, um marido amoroso, dois filhos do casal e um adotado. Todos se sentem um pouco abandonados por ela, mas também verdadeiramente gratificados por tê-la como esposa e mãe.

A atriz Chulpan Khamatova - que já tinha nos brindado com boas atuações em filmes como “Adeus Lenin”, “Doctor Zhivago” ou “O País dos Surdos” – compõe uma Dra. Liza com a garra e a sutileza que a personagem merece. Sua caracterização evoca com clareza a pessoa real dessa militante pelos quês e porquês dos necessitados. Loura, cabelos curtos e um olhar que oscila entre uma determinação absurda e uma profunda abnegação pela causa que escolheu defender.

 

Legenda sobre o destino de Liza que aparece no final do filme:

Elizaveta Petrovna Glinka – morre em 25 de dezembro de 2016. Acompanhava uma carga de medicamentos à Síria. Às 2h55 o avião desapareceu dos radares na área do Mar Negro.

 

Doutora Liza” (Doctor Liza) – Rússia – 2020 – 120 min

Direção: Oksana Karas

Elenco: Andrey Burkovskiy – Chulpan Khamatova – Konstantin Khabenskiy – Andrzej Chyra – Filipp Avseev – Aleksei Agranovich – Timofei Tribubuntsev – Evgeniy Pisarev – Sergei Sosnovskiy – Iulia Aug – Elena Koreneva – Tatyana Dogileva

Marco Guayba

Ator, diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras

 

My Instagram

Copyright © Desconexão Leitura. Designed by OddThemes