[Crítica] “Zimba”– 26º TUDO VERDADE 2021

 



"O Teatro-Estúdio deve aspirar à renovação das artes dramáticas por meio de novas formas e novos recursos de encenação"

Vsévolod Meyerhold

  "O artista toma o que de melhor existe nele e leva-o para o palco."

Constantin Stanislavsky   

 

O polonês Zbigniew Marian Ziembinski chegou ao Brasil (no Rio de Janeiro) em seis de julho de 1941. Desde então o nosso teatro nunca mais foi o mesmo. Trouxe sua maravilhosa alma de artista, sua apaixonada potência de ator e sua fascinante e original forma de dirigir. Ensinou-nos sobre interpretação, iluminação, mise-en-scène e tudo o mais que diz respeito à carpintaria teatral. Faleceu em outubro de 1978 deixando um impressionante legado artístico.

Cedo descobriu que queria ser ator. Fez sua formação em Cracóvia e em Varsóvia. Aos 19 anos estreou como ator profissional, e com 21 anos fez sua primeira direção teatral. Ele viria a exercer essas duas funções, brilhantemente, diga-se de passagem, por toda a sua vida. No palco, gostava de criar e de dar vida a todo tipo de personagens. Atuava com o mesmo brilho tanto na comédia quanto no drama. Além de teatro, trabalhou com a mesma competência no cinema, no rádio e na televisão. Sempre inquieto e inventivo.

A Segunda Guerra Mundial o trouxe para o Brasil. Tentava escapar dos horrores da guerra e da insana perseguição de Hitler e seu exército devastador. Deixou na Polônia sua mulher, Maria Prozynska, e seu filho Krzysztof. Veio para o Brasil, um país que lhe era desconhecido em quase tudo. No dia 28 de dezembro de 1943 estreia (com o grupo Os Comediantes) a peça “Vestido de Noiva”, de Nelson Rodrigues, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. A direção de Ziembinski marca o início de um novo tempo nas artes cênicas nacionais: é moderna e inovadora. Ele conhecia o teatro de Stanislavsky e as invenções formais de Meyerhold e Vakhtangov. Entendia a investigação teatral como um processo constante de descobertas estéticas mescladas com temas candentes da realidade.

O filme de Joel Pizzini busca recontar essa história de mestre Zimba, e mostrar o quanto ele era comprometido imensamente com a arte que escolheu para a sua vida.  A partir de uma pesquisa bastante exaustiva, faz uma colagem de imagens (em várias idades) que mostram esse fantástico personagem da vida real dirigindo, atuando, conversando com o espectador. É um verdadeiro banho de cenas em que o talento de ator e a habilidade de diretor são vistas com o prazer de quem aprecia a paixão e a capacidade de um artista em uma entrega absoluta ao seu métier.

A parceria que ele fez com Nelson Rodrigues foi fundamental para o seu percurso no nosso teatro. Nelson fornecia o texto, Ziembinski se ocupava da encenação. Ambos aprenderam e cresceram a partir dessa colaboração de um com o outro. Para o polonês Nelson tinha o teatro dentro de si, suas peças eram recheadas de pura teatralidade. 

Há três narradoras no filme, três grandes personalidades do teatro, três grandes atrizes: Nathália Timberg, Camilla Amado e Nicette Bruno. Elas falam de suas experiências com a arte e a pessoa de Ziembinski. Falava-se na “pausa polonesa” porque o trabalho de Ziembinski levava à pausa, ao momento em que a supensão da fala ou da ação preparava para o que viria a seguir. Sua participação no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) proporcionou, talvez, a melhor interpretação de Cacilda Becker. A dedicação ao teatro levava-o a dizer, com um entusiasmo que só ele era capaz, que se deve gritar em cima do palco: “A aventura humana tem sentido.”

 

Zimba” – Brasil – 78 min

Direção: Joel Pizzini

Roteiro: Joel Pizzini, Henry Grazinelli ?e Reinaldo Amaro Mesquita ?

Com: Zbigniew Ziembinski

Narradoras: Camilla Amado, Nathália Timberg e Nicette Bruno

Participações especiais: Jardel Filho – Walmor Chagas – Paulo José – Paulo Autran – Luiza Barreto Leite – Krzysztof Ziembinski – Domingos de Oliveira

Montagem: Idê Lacreta

Fotografia: Luís Abramo

Trilha sonora original: Lívio Tragtenberg

Som e mixagem: Ricardo Reis Chuí e Miriam Biderman

Pesquisa: Antônio Venâncio

Consultoria biográfica: Aleksandra Pluta

Artes visuais/cenário: Glauber Vianna

Produção: Vera Haddad e Urszula Groska (em memória)

Marco Guayba

Ator, diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras

 

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