[Crítica] Teatro – “Medeia por Consuelo de Castro” - 2021




  “A princesa da Cólquida, que Jasão tirou de sua pátria e abandonou em terra  estranha, é sobretudo a mulher que opõe à ofensa e ao sofrimento o caráter desmedido de sua paixão.”

Albin Lesky

“O que a distingue dos outros é a sua excepcionalmente visceral noção de teatralidade, um diálogo notavelmente colorido, que ela [Consuelo de Castro] cria com uma espantosa espontaneidade, e uma inquietação que a faz partir sempre em busca de novos caminhos”

Yan Michalski

 

A premiada dramaturga Consuelo de Castro gostava de experimentar estilos diversos de dramaturgia. Produzia, em suas peças de teatro, um diálogo forte e inquisitivo, e mergulhava na psicologia das personagens com uma profundidade devastadora. Em 1997 escreveu a moderníssima “Medeia: Memórias do Mar Aberto”, uma releitura da obra clássica de Eurípides, trágico grego do século V a.C. O ponto de vista de sua peça é o da mulher. A partir daí, ela parte para alterar alguns elementos da peça clássica. Introduz Absirto, o irmão de Medeia, uma personagem que só existia na aventura dos Argonautas. Conjetura metalinguísticamente a ação de Téspis (o primeiro ator) como aliado da feiticeira. Altera o formato da cena da morte dos filhos, reescrevendo seu papel no sofrimento da protagonista. E, por fim, introduz muitos elementos da política contemporânea, com seus conflitos entre o horror da ditadura e os valores da democracia.

Como parte dos festejos para comemorar seus 10 anos de atividades, a Cia. BR 116 programou a montagem da peça dessa instigante autora, morta em 2016, rebatizando-a como “Medeia por Consuelo de Castro”. Devido à pandemia fizeram o que eles chamam de um teatrofilme, combinando as linguagens do cinema e do teatro e, de uma certa maneira, das artes plásticas. Os artistas da Cia foram para o sacrifício e dobraram suas funções para que esse projeto pudesse ser realizado.. O diretor conta que aliar essas diversas linguagens potencializou o espetáculo.  

O teatrofilme mantém o clima do que seria a encenação de uma tragédia. Posturas hieráticas e dicção avassaladora. Monólogos grandiosos e de um impacto tremendo. Medeia: deusa-mulher, aguerrida, bela e sensual, dominando as artes do amor que fazia com que os homens a desejassem, mãe desesperadamente sofrida, tudo nela é intenso. Sofre traição política e amorosa. Não suporta e não aceita a pérfida desfeita de Jasão, o homem por quem ela abandonou tudo: pátria, família, religião, costumes, status de princesa e sua identidade mais profunda. Medeia sofre por saber que sua devastação interior como ser de nada serviu. Ela está o tempo todo à beira de um precipício que não permite a serenidade e a bem-aventurança.

Bete Coelho mergulha nessa personagem como uma verdadeira guerreira das artes cênicas, mantendo um autodomínio incrivelmente potente mesmo tendo que fazer as falas mais violentamente iradas ou tomadas por uma amargura profunda. Ela passeia pelo abismo da interpretação com um tranquilo equilíbrio característico dos grandes artistas. Aliás, todos os atores da Cia BR 116 se comportam com o rigor esperado para uma montagem desse porte. A direção soube extrair do coletivo os melhores frutos e a unidade de atuação que mantém o espetáculo coeso e  cravando impiedosamente no coração do espectador uma experiência estética verdadeiramente admirável.

 

 “Medeia por Consuelo de Castro” – Brasil – 2021 – Drama/Tragédia – 62 min

Para Ismael Fernandes

Texto: Consuelo de Castro

Direção: Gabriel Fernandes e Bete Coelho

Com: Bete Coelho (Medeia) – Michele Matalon (Ama) – Luiza Curvo (Glauce) – Flavio Rochaa (Jasão) – Roberto Audio (Creonte) – Matheus Campos (Absirto)

Fotografia: Gabriel Fernandes

Consultor de fotografia: Inti Briones

Direção de arte, cenografia e figurino: Cassio Brasil

Assistente de direção: Theo Moraes

Operadora de luz: Sarah Salgado

Câmera: Cacá Bernardes e Gabriel Fernandes

Edição: Gabriel Fernandes

Finalização: Bruna Lessa

Direção musical: Felipe Antunes

Músicos: Fabio Sá – Felipe Antunes – Otavio Carvalho – Sergio Machado – Allan Abbadia – Guilherme Held – Marcelo Bonin – Victória dos Santos – Wanessa Dourado

Música original: Felipe Antunes e Fabio Sá

Voz na canção final: Tulipa Ruiz

Marco Guayba

Ator, diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras

 

 

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