[Crítica] Meu Pai (The Father)

 






“Por que reagimos em face dessas ‘irrealidades’ como se elas fossem a realidade intensificada?”

“A tensão e a contradição dialética são inerentes à arte.”

Ernst Fischer

 

Um drama outonal. Anthony Hopkins mais uma vez - senhor do pleno domínio de sua arte - imprime uma espetacular interpretação a uma personagem que vive uma realidade extremada. Dessa vez trata-se de Anthony (André na versão francesa para o teatro), um homem idoso que atravessa um processo de demência que faz com que sua memória teça torneios inesperados. Ele tem uma lembrança de uma cena, esquece-a e volta a lembrá-la agora agregada a uma nova situação ou pessoa. Tudo à sua volta torna-se impermanente, intangível ou inconsistente. Ele é muito inteligente e percebe as incongruências de sua vida, ou do que pensa ser a sua vida, com um grande sofrimento e um espanto inquietante.

Um pai intangível. Anne, a filha de Anthony, cuida dele até o momento em que ela tem que seguir seu próprio destino, suas próprias escolhas. A interação dos dois gera muitos momentos de lágrimas e emoções diversas. Ela por vezes é compreensiva, mas outras vezes não - assim como todas as outras pessoas. É difícil ter que lidar com uma mente desconcertante que se apresenta em franco processo de desagregação. Anne arranja enfermeiras, que são enxotadas por seu velho pai com embates litigantes baseados em fortes estratégias discursivas.  Ela ainda tem que suportar servir de alvo de um libelo imaginário com pesados golpes de algum tipo de construção persecutória.

Tudo junto e misturado. A transitoriedade da vida não implica necessariamente na perda de sua beleza. As desditas cognitivas numa idade avançada não desqualificam o ser humano como ser humano, embora seja verdade que muitas pessoas não percebam esse fato dessa maneira. O medo diante da não racionalidade aparente dessas criaturas pode gerar preconceitos e temores. É uma figura frágil a que vemos na tela: um pai fraco, impotente, debilitado. Ao mesmo tempo, ele é ardiloso, impositivo, pleno de construções mentais astutas. Talvez seja uma imagem impotente mostrada com muita potência. Ardil da arte cinematográfica, ou quem sabe de um romance familiar revisitado. Nomear, na versão inglesa, a personagem como Anthony, mesmo nome do ator que a interpreta, cria um vínculo entre a personagem e o artista de tal maneira que só tende a, sutilmente, engrandecer aquela imagem daquele pai em desconstrução, produzindo um aparente paradoxo: pai frágil e pai potente ao mesmo tempo. A possibilidade de fruição daquela figura de pai mostrada de tal maneira eleva a estima dedicada a ele, aumenta o valor da homenagem.

Enquanto o sol ainda brilha lá fora. A voz narrativa do filme é dada não, como é freqüente, pela filha ou pelas outras personagens que aparecem e desaparecem, mas por esse “Pére” perdido em seus exageros disjuntos dos fatos ali mostrados. Isso aproxima o espectador da personagem, cria um halo que envolve a ambos, torna a vivência das desaventuras desse ser mais sentidas e mergulhadas num sentimento de compartilhamento um tanto esgarçado, mas consistente o suficiente para que se possa experimentar as vicissitudes da decomposição mental com razoável simpatia.

Eu estou perdendo todas as minhas folhas”. A montagem tem um papel importante nas idas e vindas no tempo, na superposição das figuras que contracenam com Anthony e nos estados de espírito voluptuosos ou quase anárquicos. O espectador acaba não sabendo o que de fato está acontecendo e o que é imaginação ou descontrole mnemônico. A direção de arte faz a magia de transformar o “mesmo espaço” em diferentes lugares, conforme Anthony vai sendo transportado para onde possa ser bem acompanhado por Anne. Os enquadramentos focam com rigor os vários planos que exibem a face vitoriosa do protagonista ou quando ela se mostra abismada por perceber que algo não vai bem, embora ele não saiba situar o quê. Em solo movediço, tantas metamorfoses sutis de uma presença avassaladora. Dialética da demência e da racionalidade. Empatia e dissonância entre pai e filha. Que ser humano permanece ali?

Monsieur Zeller. O diretor é um autor de romances e peças de teatro, entre as quais está “Le Père”, que além de ganhar o Prêmio Molière em 2014, foi laureada e teve indicações em Paris, Londres e Nova York. A peça foi traduzida para o inglês por Christopher Hamptom, que também escreveu o roteiro do filme “The Father” em conjunto com o autor. Florian Zeller, que é para o The Times “o dramaturgo mais emocionante do nosso tempo”, foi agraciado com o Prix Interallié em 2004, pela obra “La Fascination Du Pire”. Não por nada seu filme concorre a seis categorias do Oscar: 1. Melhor filme; 2. Melhor ator; 3. Melhor atriz coadjuvante; 4. Melhor montagem; 5. Melhor design de produção; 6. Melhor roteiro adaptado.

 

Meu Pai” (The Father) – 2020 – 1h 37min

Direção: Florian Zeller

Roteiro:  Christopher Hampton e Florian Zeller (baseado na peça “The Father”, de Florian Zeller)

Fotografia: Bem Smithhard, BSC

Música: Ludovico Einaudi

Editor: Yorgos Lamprinos

Com: Anthony Hopkins – Olívia Colman – Mark Gatiss – Imogen Poots – Rufus Sewell – Olivia WilliamOs

Observação: O filme estreia no dia 9 de abril, nas plataformas digitais, Now, Itunes (Apple TV) e Google Play disponível para compra, e a partir do dia 28 de abril, ficará também disponível também para aluguel, nessas plataformas já citadas e também na Sky Play e na Vivo Play. A estreia de MEU PAI em salas de cinema não está descartada, e ocorrerão conforme as mesmas abrirem em cada cidade. 

Marco Guayba

Ator, diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras

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