[Crítica] “A Máquina do Desejo – Os 60 Anos do Teatro Oficina”

 


“Quando o artista descobre novas realidades, porém, ele não o consegue apenas para si mesmo; ele realiza um trabalho que interessa a todos os que querem conhecer o mundo em que vivem, que desejam saber de onde vêm e para onde vão.”

Ernst Fischer

“Na obra de arte, o Belo fala a linguagem libertadora, invoca as imagens libertadoras da sujeição da morte e da destruição, invoca a vontade de viver. Este é o elemento emancipatório na afirmação estética.

Herbert Marcuse

 

O Teatro Oficina nasceu da inquietude de José Celso Martinez Correa e seus parceiros das cenas da vida e do palco. Desde o início sua vocação era para a transgressão, o confronto com uma sociedade paralisada por valores considerados ultrapassados e estéreis, a ruptura com as estéticas conservadoras na arte teatral brasileira, buscando sempre um teatro livre de dogmas e clichês pré-estabelecidos.

O filme faz um vasto apanhado de um rico acervo de imagens e gravações dos vários momentos do Teatro Oficina nas seis décadas de sua existência. Durante esse período, influenciou ou dialogou com vários artistas e movimentos culturais no Brasil. Desse modo, podemos ver presenças como Caetano Veloso e o Tropicalismo, Lina Bo Bardi, Glauber Rocha, Oswald de Andrade e a Antropofagia, Augusto Boal e o Teatro de Arena e muitos outros. Um teatro que buscou sempre a provocação e a quebra possível da relação palco platéia, buscando incorporar o espectador ao espetáculo, tirando-o do lugar passivo do teatro convencional para um envolvimento cada vez mais amplo com os espetáculos.

Zé Celso buscou continuamente a transformação dos concertos teatrais que montava em um grande ritual coletivo, uma alegre (mesmo quando trágica) celebração da criação artística e de uma vida mais plena de vivências e experimentações estéticas. Um mergulho no fogo excelso de Dioniso buscando vencer os limites da liberdade e do prazer. O êxtase, o rompimento dos padrões impostos pela sociedade, o entusiasmo, a força de uma energia que rompe com a escravização do ser aos protocolos do outro. Tarefas impossíveis em sua radicalidade absoluta.

Inquieto, criativo, ousado, inventivo, abusado, enlouquecido, maravilhoso, esfuziante, dionisíaco, pensador da cultura, devorador da cultura, desafiador da cultura, guerreiro da paz, lutador das artes cênicas, o mais mundano dos guerreiros da luz. Entre outras coisas, mas de uma maneira não doutoral nem sentenciosa, supomos que Zé Celso comunga com a idéia de que o teatro estuda ou reflete as múltiplas relações entre homens e mulheres no bojo da sociedade, da história; não se fecha na contemplação de cada sujeito indivídualmente; não é um mero entretenimento para um fim de noite agradável.

Teatro é tensão, confronto, contradição, luta de vontades e de ideias, turbilhão, combate pela existência da arte e do que há de mais humano em cada pessoa, é política de corpos, de movimento de subjetividades em uma prática coletiva, de despreendimento, de ruptura com o status quo repressivo e resistente a todas as mudanças.

Teatro é paixão. Paixão política em franca incandescência. Política aberta, pura, resplandecente, uma maneira mundana santificada, volátil, mergulhada no vórtice da existência. Uma magia épica transformadora. Uma política do desejo, máquina do desejo, ebulição vertiginosa do desejo onde a dimensão onírica festeja os afetos e os gozos, embora concretamente se arremete contra as pedras de tudo que se mostre como entulho civilizatório, que obstrui a passagem da poesia, da imaginação e dos afetos.

 

“A Máquina do DesejoOs 60 Anos do Teatro Oficina” – Brasil – Documentário - 120 min

Direção: Lucas Weglinski e Joaquim Castro

Marco Guayba

Ator, diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras

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