[Crítica] “Gorbachev.Céu” (Gorbachev.Heaven) – 26º TUDO VERDADE 2021

 


Aconteceu-me hoje uma aventura insólita."

Nicolai Gogol

"Vinha a ser como se todos, de repente, me tivessem esquecido, como se eu fosse para todos, no fundo, um indiferente."  

Fiódor Dostoievski

 

O último líder da U.R.S.S. – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas dá o seu depoimento para a posteridade. Em sua terra, ele foi Secretário Geral do Partido Comunista de 1985 a 1991, quando promoveu a Glasnost (abertura) e a Perestroika (reestruturação). Revela que as coisas não saíram como ele pretendia. Sua vontade era ter trazido a liberdade e a democracia como parte de um socialismo vivo e humanizado. Porém, o resultado de suas ações políticas foi (acelerar) a passagem para o capitalismo e para uma nova forma de autoritarismo a la Putin.

Mikhail Sergeevitch Gorbachev, aos 88 anos, vive numa bela e ampla casa cedida pelo Estado. Melancólico e solitário, emite - com muitas reticências - opiniões sobre a política e a vida na atual Rússia, declama versos que ficaram guardados em sua memória afetiva e canta músicas que lembram a sua infância e juventude. Fala de seu amor por Raisa Gorbacheva, sua falecida esposa de quem sente muita falta e da proximidade do fim de sua existência.

O entrevistador, Vitaly Mansky, é bastante incisivo e provocador: força a mão várias vezes para que o antigo líder soviético revele seu verdadeiro papel nas transformações de sua pátria, que repercutiram decisivamente na política mundial, encerrando a Guerra Fria e décadas de tensão e medo de um possível, e trágico, confronto militar nuclear entre yankees e eslavos. Gorbachev afirma que tentou de tudo para a permanência da U.R.S.S. sob novos moldes, mas que foi atropelado pelos acontecimentos e por políticos oportunistas como Boris Yeltsin, a quem chama de “idiota” e “maluco”.

Mikhail Gorbachev ainda teria tentado voltar mais uma vez à política: fundou um partido social democrata para concorrer às eleições à presidência da Rússia em 1996, escapando da visão de sociedade do comunismo bolchevique. Entretanto, naufragou ao obter apenas 0,5% dos votos. Tinha perdido a popularidade angariada na época da Perestroika, pois passou a ser apontado como um líder fraco e responsável indireto pelo colapso da sociedade russa, pela inflação e por muitos problemas econômicos.

O filme foi belamente fotografado em preto e branco. A câmera vez por outra mostra poeticamente um gatinho passeando pelos cômodos sempre muito limpos e bem arrumados, mas vazios como se expressassem o fim de uma vida que outrora passara por ali. Gorbachev aparece como o condutor do espetáculo de sua despedida de um mundo que ele não mais reconhece. Os documentaristas procuraram estabelecer uma relação de amizade, mas também de confronto, buscando despertar alguma “verdade” escondida nas lembranças mais recônditas dessa figura imponente e contraditória que marcou o fim de uma época.

 

Gorbachev.Céu” (Gorbachev.Heaven) – Rússia –

Direção: Vitaly Mansky

Cinematografia: Alexandra Ivanova

Edição: Yevgny Rybalko

Som: Anrijs Krenbergs, LMPSG

Música: Karlis Auzans

Marco Guayba

Ator, diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras

 

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