[Crítica] Respiro (2002)

 


"Mas qual foi o poder que revelou, de repente, nos olhos tristes e sonhadores desta menina, tanta luz?"

Fiódor Dostoiévski

 

Respiro” é uma obra que mostra as formas de vida e de sobrevivência em uma ilha italiana, habitada por uma comunidade de pescadores. O filme é dividido em dois grandes eixos: a vida das crianças que se alterna entre coisas como a caça a passarinhos e confrontos de pequenos bandos; e, a alma de Grazia, uma mulher que não se encaixa nos padrões patriarcais de sua comunidade. Iscas de minhoca e lambretas dão o tom destas criaturas imersas nas paisagens sempre recheadas de pedras e mais pedras na Ilha de Lampedusa.

Grazia é casada com um pescador e é mãe de três filhos. Quando está triste, está muito triste. Quando está alegre, está demasiado alegre. Suas reações são por vezes impulsivas e extremadas. Vez por outra, confronta o poder patriarcal querendo participar de atividades que não são consideradas para mulheres. O resultado é que a comunidade quer que ela vá para Milão onde existe uma clínica que saberá cuidar do caso dela. Afinal, “ela é uma ameaça pública, uma lunática”.

Grazia não vê outra alternativa senão tentar escapar dali. Ela se esconde em uma caverna nas pedras, com a ajuda de Pasquale, o filho mais velho e seu melhor parceiro. Seu desaparecimento dará margem a uma cena final com um desenho poético de grande beleza, uma espécie de balé coletivo de pernas e corpos, filmado por debaixo d’água. Valeria Golino incorpora essa difícil personagem com frescor e fluidez, sem maneirismos ou caricaturas, dando vida e interesse a essa criatura que busca respirar mais livremente para sentir a vida mais intensamente – um veemente protesto desejante.

O filme segue a estética do neorrealismo italiano, movimento cinematográfico que teve seu auge logo após a Segunda Guerra Mundial, com o fim da ditadura de Mussolini. O neorrealismo trabalhava com locações reais (ao invés de gravações em estúdios) e buscava a realização de filmes que mostrassem a vida cotidiana das classe populares, coisa bem diferente da proposta de Hollywood com a qual tentava se diferenciar. Filmava frequentemente histórias mais abertas sem estarem presas a dogmas narrativos que as enquadrassem. Outro detalhe era o uso reiterado de atores não profissionais para contar suas histórias.

Todos esses aspectos estão presentes neste “Respiro”. Valeria Golino é a única profissional de cinema a atuar nessa película. O resto do elenco foi selecionado entre os moradores da ilha. Isso foi feito visando mostrar, de forma mais natural, as condições de vida das pessoas humildes, no caso, os pescadores e suas crianças mais ou menos desgarradas, que inventam maneiras próprias de se divertir e manifestar suas emoções mais básicas. Sem esquecer gente limpando peixe e piras de caixotes, que são acesas para enfeitar alguma necessidade ritual. Um filme cru. Tudo junto e misturado. Só a protagonista tenta afirmar sua subjetividade para além dos estereótipos compartilhados.

O filme foi o vencedor do Grande Prêmio da Semana da Crítica do Festival de Cannes de 2002. Teve quatro indicações para o David di Donatello, o Oscar italiano. Com este filme, Valeria Golino obteve o papel mais laureado de sua carreira cinematográfica: melhor atriz para o Sindicato dos Críticos de Cinema da Itália e para o Festival de Mons, na Bélgica. Seu trabalho de atriz foi um dos indicados ao David di Donatello.

 

 Respiro” – Itália – 2002 – 95 min

Direção: Emanuele  Crialese

Cenografia: Beatrice Scarpato

Figurino: Eva Coen

Produção: Domenico Procacci

Fotografia: Fabio Zamarion

Montagem: Didier Ranz

Som direto: Pierre-Yves Lavoué

Montagem de som: Hervé Guyader

Mixagem: Emmanuel Croset

Com: Valeria Golino (Grazia) – Vincenzo Amato (Pietro) – Francesco Casisa (Pasquale)  – Veronica D’Agostino (Marinella) – Filippo Pucillo (Filippo) – Avy Marciano (Velista francês) – Muzzi Loffredo (Avó) – Elio Germano (Pier Luigi) – Vincenzo Barreca (Cefalo)


Marco Guayba

Ator, diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras

 

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