[Crítica] “Libelu” – Abaixo à Ditadura - Brasil

 

“É preciso conhecer os limites da força. É preciso saber quando combinar força com estratégia.”

Lev Davidovich Bronstein

“A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos.”

K. H. Marx




 

O documentário “Libelu” tenta lançar algumas luzes sobre a tendência estudantil - ou corrente política - chamada Liberdade e Luta. Como eles eram diferentes, exóticos ou, como queriam alguns, heteróclitos em seu comportamento social e em suas práticas políticas, os outros grupos ou tendências passaram a apelidá-los jocosamente de Libelu. Porém, eles eram ousados até nisso: então assumiram, com orgulho e entusiasmo, esse nome que pretendia desqualificá-los, tornando-o algo positivo, uma espécie de emblema de sua proposta de comunidade combativa.

O filme tem uma estrutura simples: entrevistas e depoimentos de antigos membros da franquia; fotos e filmes da época em que reinaram no movimento estudantil; registros televisivos; e, principalmente, coloca a nu as táticas que esses audazes rapazes e moças empregavam na luta contra a ditadura. Aliás, teriam sido eles a chamar primeiro a palavra de ordem “Abaixo a Ditadura” mesmo contra a opinião dos outros grupos de militância, que preferiam apenas agitar a bandeira das “Liberdades Democráticas”.

A Liberdade e Luta teve o seu melhor momento entre 1975 e 1979. Se projetou com a eleição para o DCE da USP e com as lutas e as artes que fizeram a partir daí. Paulo Leminski fez um poema, em homenagem à Libelu, que é lido no filme por alguns ex-militantes e pelo ex-ministro Antonio Palocci, um ex-Libelu de Ribeirão Preto, que teria descarrilado em algum ponto de sua trajetória política.

Nomes como José Arbex Júnior, professor e jornalista, Paulo Moreira Leite, ex-diretor da Época, Eugênio Bucci: articulista do Estadão e professor da USP, Cleusa Turra, jornalista, Markus Sokol, membro da executiva nacional do PT e muitos outros falam sobre aquela era de ouro da criatividade na política. Até o jornalista Reinaldo Azevedo dá as suas pitadas, mesmo tendo sido apenas um participante periférico, uma espécie de fã.

Muitos deles ainda são simpáticos ao camarada Trotski, alguns se passaram para direita, outros têm uma visão crítica de suas posições naquela momento histórico. Havia para eles uma santidade na militância, mas uns foram corrompidos e se perderam no seu trajeto de desejo. Nada diferente de tantos outros movimentos e suas utopias.

Podemos ver ainda desfilar na tela a crítica à luta armada, a repressão à reunião dos DCEs, a realização meio que clandestina do III ENE (Encontro Nacional de Estudantes), a batalha para a reconstrução da UNE, os estudantes batendo palmas apenas com o estalar dos dedos, o grito de guerra “Branca, Branca, Branca, Leon, Leon, Leon” extraído do filme o “Incrível Exército Brancaleone” e usado como homenagem ao mentor espiritual do grupo (Leon Trotski). Para a tendência nada, a princípio, era proibido: gostavam de arte e usavam um gato azul como uma espécie de logo da tendência e para se diferenciarem dos outros, pois “nem todos os gatos são pardos”.

Apesar de tudo, o filme ficou um pouco superficial: expõe o registro de um grupo político que mudou algo no comportamento da militância e contribuiu para a volta da democracia, mas deixou de aprofundar temas em que a política está até hoje com as mãos amarradas, mergulhada em impasses aparentemente insolúveis. A cena final do documentário tem um ar um tanto ambíguo ou contraditório, pois não dá ao espectador nenhuma pista do porque ela está ali.

 

Libelu” – Brasil

Direção e roteiro: Diógenes Muniz

Produção: Letícia Friedrich e Lourenço Sant’anna

Assistente de direção e pesquisa: Bianka Vieira

Edição: André Felipe Silva

Direção de fotografia: Felix Lima

Assistente de Produção e de Fotografia: Ana Rovati

Marco Guayba

Ator, diretor e preparador de elenco

 

 

 

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