[Crítica] ”Druk – Mais uma Rodada”

 

“A superioridade do homem sobre o animal está pois em ser suscetível de desesperar (...) há uma infinita vantagem em poder desesperar, e, contudo, o desespero não só é a pior das misérias, como nossa perdição.”

Soren Kierkegaard

 


 

Quatro amigos, todos eles professores do ensino médio, resolvem, durante o aniversário de um deles, fazer um experimento científico com as teorias pra lá de escalafobéticas do filósofo e psiquiatra norueguês Finn Skarderud. Este etílico pensador considerava que os seres humanos têm uma deficiência de 0,05% na taxa de álcool no sangue. Ele diz, então, que é sensato beber para restabelecer o equilíbrio e levar os homens às suas realizações.

Os quatro parceiros lançam-se entusiasticamente à sua aventura científica. Não se esquecem de registrar os passos dados e os efeitos produzidos, afinal, trata-se de somar conhecimentos. De início, tudo vai muito bem: suas aulas, antes vazias e sem motivação, tornam-se vibrantes e participativas. Os alunos passam a se envolver mais positivamente com suas matérias.

O aniversário é de Nicolaj, mas o centro de tudo é Martin, o professor de História (vivido pelo fantástico Mads Mikkelsen). Martin é um caso sério. Trocando em miúdos, podemos dizer que ele é um professor cansado de lecionar, um professor cansado de ser marido, um professor cansado da vidinha que leva. Um derrotado não se sabe porquê. Vive ausente de suas aulas e de sua família. Seu vazio existencial está estampado em sua face como se fora uma máscara trágica. Ele é o personagem central dessa trama sobre os impasses do indivíduo na moderna sociedade industrial. Ou, filosoficamente falando, sobre a condição humana desde sempre determinada pelo desespero.

Todos os quatro anseiam (conscientemente ou não) em sair dessa vida mesquinha, plena de um vazio de satisfações, tão presente no estágio atual da sociedade capitalista, com seu poderoso desenvolvimento tecnológico antes inimaginável. Uma sociedade que não aposta no desenvolvimento das potências interiores e no crescimento do indivíduo, e sim na sua equiparação a todos os outros seres humanos, cidadãos do infortúnio, mas consumidores ideais.

O curioso nessa história é que há um cão chamado Laban. Deve estar lá, provavelmente, para fazer um contraponto irônico ao “cientificismo” dos alegres cavaleiros da champanhe, da cerveja, da vodka e de todos os demais destilados. Laban é o pet de Tommy, o professor de ginástica e esportes, que vê despertar nele mesmo um autêntico líder de atletas.

Pois bem, Rudolf Laban era um artista do palco especialista na preparação corporal de atores e bailarinos, que postulava um retorno aos movimentos naturais. Considerava que o movimento devia ser utilizado de maneira espontânea e sempre como resultado de um impulso consciente, cultivado a partir de um treinamento rigoroso, para atingir suas metas de plasticidade e expressão. Certa vez, teria afirmado que "a dança pode ser considerada como a poesia das ações corporais no espaço.". Martin quando jovem fora um criativo dançarino de balé jazz. E há mesmo uma brilhante cena em que o personagem leva seu corpo pelo espaço, vibrando de alegria e dor, como se já não tivesse densidade nenhuma. 

No início do filme aparece na tela uma citação que fala da juventude e do amor. Ela é assinada por Soren Kierkegaard, filósofo e teólogo dinamarquês, que viveu no século XIX, considerado por muitos o “pai do existencialismo”. Mas esse papo sobre juventude e amor é até certo ponto uma pista falsa, um elemento enganoso, pois o aspecto do pensamento desse autor que deve ter servido de suporte para a trama é a sua reflexão sobre a angústia e a liberdade.

Não por acaso, um aluno inseguro, com medo de não se formar, sorteia o ponto O Conceito de Angústia em Kierkegaard. Ele tenta fugir, mas o professor o impede e lhe fornece uma motivação especial com uma boa dose de álcool na forma de vodka ou outra bebida qualquer. Lembremos que os quatro amigos empenham-se em suas inusitadas experiências porque também percebem que suas vidas estavam como que massacradas, envolvidas numa inércia sem nome.

Pois bem, Kierkegaard destaca a importância da escolha e do comprometimento pessoal. Porém, a angústia é algo que simplesmente aparece como a atmosfera da possibilidade, da abertura para poder ser ou fazer. Para o ser humano não é possível querer definir o medo por antecipação. Ele deve aprender a angustiar-se exatamente com aquilo  que o angustia no momento mesmo da possibilidade, ou seja, no momento em que sua ação revela a própria angústia. A liberdade é essencial aí, pois ela é que turbina as possibilidades na vida de cada um.

O diretor Thomas Vinterberg recebeu o Prêmio do Juri, no Festival de Cannes, por seu badalado filme “Festa de Família”, de 1998. Outra obra sua também teve grande repercussão, “A Caça”, que foi indicada ao Oscar em 2014. Seus filmes tendem a ser ácidos e sombrios, embora pontuados por uma certa dose de humor, com críticas ferozes à hipocrisia e aos preconceitos presentes na sociedade humana. Ele é um dos participantes do movimento Dogma-95, concebido por Lars Von Trier e o próprio Vinterberg. Inspirado em Truffaut e na Nouvelle Vague francesa, esse movimento pretendia resgatar o cinema como arte, abrindo mão de recursos caros e de efeitos especiais, centrando seus filmes na história e no trabalho dos atores, que, aliás, é muito bem realizado neste filme de agora.

Até certo ponto “Druk” parecia mais com um filme comercial, americano ou europeu, com uma história fácil de ser compreendida, com suas bebedeiras homéricas e seus dramas mitigados ao fim de tudo. Mas, na verdade, seu desfecho trágico realizado com grande beleza plástica e poética relança o espectador ao que supomos ser seu tema filosófico central, provocando assim mais uma vez uma reflexão sobre a existência como tal.

 

Druk  - Mais uma Rodada - Dinamarca/Suécia/Holanda – 2020 – 117 min

Direção: Thomas Vinterberg

Roteiro: Thomas Vinterberg e Tobias Lindholm

Produção: Sisse Graum Jergensen e Kasper Dissing

Direção de Fotografia: Sturla Brandth Grovlen

Montagem: Janus Billeskov Jansen

Com:  Mads Mikkelsen – Thomas Bo Larsen – Magnus Millang – Lars Ranthe – Maria Bonnevie – Helene Reingaard Neumann – Susse Wold – Magnus Sjorup – Silas Cornelius Van

Marco Guayba

Ator, diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras

 

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