[Crítica] A Despedida

 








“Agora sei quando será a última de todas as manhãs – quando a Luz não mais espantará a Noite e o amor – quando o sono eterno se igualará a um sonho uno, interminável. “

Novalis

 

Farewell. Mulher reúne as pessoas que lhe são mais próximas para um tranquilo encontro de toda família. Será uma despedida, pois decidiu que não tem mais condições de enfrentar a doença que a consome inarredavelmente. Mas nada é tão simples assim, o conflito humano está onde menos se espera. Muita água vai correr por debaixo dessa ponte, com direito a plot twist fajuto, ou melhor, alarme falso, e tudo o mais.

Ataxia e Pathos. Lily tem um braço já paralisado, anda com dificuldade e tem a previsão médica de que gradativamente vai perder todas as suas funções motoras: não vai poder andar, segurar coisas, engolir ou respirar senão por aparelhos. Precisará que outras pessoas cuidem dela em praticamente todos os aspectos de sua vida. Isso é terrível pra quem sempre se considerou uma mulher moderna, autônoma e independente.

Drama e Pentobarbital. Estão presentes seu parceiro de toda uma vida, Paul, suas duas filhas, Jennifer (a careta) e Anna (a bipolar), os respectivos maridos, o neto que quer ser ator, Jonnathan, e sua melhor e imprescindível amiga (Liz) desde os tempos de Woodstock, festival em que elas não estiveram, mas vivenciaram por tabela. Tudo se passa no mesmo espaço: a casa que a própria Lily construiu. Um lugar amplo, ventilado, clean e sempre muito limpo. Em dois dias todos esses personagens expressam e transbordam sentimentos e frustrações. E, ao final de tudo, há o comovente ritual da viagem.

 Um Álibi Nada Casual. Lily quer fazer o que ela precisa fazer enquanto ainda está consciente, enquanto ainda pode decidir sobre a sua própria vida.  Ela diz que está pronta. Mas nem todos estão pacíficos com relação a essa lógica. Como querer tratar como racional o que é profundamente emocional? É um pouco de loucura. E também não é. Pessoas que optam por tomar decisões tão extremas “costumam ser inteligentes, articuladas, analíticas e profundamente controladoras.”

A Última Ceia Não É para os Torpes. A fotografia é limpa. Tem um colorido suave e quase diáfano. Os enquadramentos e a montagem obedecem a uma simplicidade de quem não quer incomodar os intérpretes e a cena. Os atores estão bem afinados, como se fizessem parte do mesmo doce espalhafato por muito tempo. Susan Sarandon impõe a sua dramaturgia com sutileza e com uma energia que em nenhum momento descamba para o peso acabrunhante do sofrimento como espetáculo. É um filme leve e afetivamente doloroso, suave e intimamente denso, embora desprovido de asperezas. Com certeza não é um Bergman. Muito menos um Nelson Rodrigues.

A Súbita Liberdade Diante da Morte. O desejo é contraditório. Essa é a sua estrutura. Um desejo recalca outros desejos. A região do oculto está sempre lá, sem entregar totalmente todos os seus enigmas e segredos. E por mais que se saiba, nunca se sabe realmente o que se é. Ou a integralidade do que é o seu próprio destino.

Epílogo. Um carro indo embora. O pai sai à rua. Caminha. Uma música soa.

 

A Despedida” (Blackbird) – EUA – 2019 – 97 min

Direção: Roger Michell

Roteiro: Christian Torpe (baseado em seu próprio livro “Silent Heart”)

Fotografia: Mike Eley, BSC

Edição: Kristina Hetherington

Música: Peter Gregson

Com: Susan Sarandon – Kate Winslet – Mia Wasikowska – Sam Neill – Lindsay Duncan – Rainn Wilson – Bex Taylor-Klaus – Anson Boon

Marco Guayba

Ator, diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras

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