[Crítica] “A Voz Suprema do Blues” (Ma Rainey’s Black Bottom)

 


 “Now, you heard the rest / Ah, boys, I’m gonna show you the best / Ma Rainey’s gonna show you her black bottom (…) / I want to see that dance you call the black bottom / I wanna learn that dance / Don’t you see the dance you call your                   big black bottom / That’ll put you in a trance”

Ma Rainey

 

Geórgia, 1927. É noite. Dois rapazes aparecem correndo em meio a uma floresta escura, eles têm pressa, querem chegar logo no show de Ma Rainey (a inacreditável Viola Davis). No palco, a carismática diva canta, acompanhada por sua banda, transpirando feromônios por todos os poros, esbanjando sensualidade, com seu corpo robusto e sua voz magnética. O público participa ativamente, e se diverte a rodo. O jovem Levee (Chadwick Boseman em seu último trabalho como ator), um trumpetista rebelde e criativo, tenta ocupar o mesmo espaço que a band leader. Assim começa “Ma Rainey’s Black Bottom. Em seu habitat artístico a Mãe do Blues se transforma, com sua voz sublime, em uma incontrolável força da natureza.

A fotografia do filme destaca uma paleta de cores em que tudo é meio chegado ao ocre. Forma de mergulhar o espectador nos nostálgicos primeiros anos do século passado. Mas também é um modo de construir um espaço em que o ambiente se torne uma espécie de extensão da negritude que criou toda aquela música. E que viveu, e de certa maneira ainda vive (só que em uma escala diferente), o drama da segregação racial. O filme lhes pertence assim como a herança dourada daquela musicalidade.

A personagem histórica Ma Rainey tinha como nome de batismo Gertrude Pridgett. Teria nascido a 26 de abril de 1886 em Columbus, Geórgia, e falecido 53 anos depois em Rome no mesmo Estado. Ela foi uma das primeiras cantoras a gravar álbuns de blues. Era ousada, atrevida, desbravadora e dona de uma fascinante libido, que ela generosamente espalhava pelos palcos onde se apresentava. Desafiou os costumes e a caretice da época. Chegou a gravar com Thomas Dorsey e Louis Armstrong. Encerrou sua carreira em 1935.

A Voz Suprema do Blues” (uma adaptação da peça “Ma Rainey’s Black Bottom”, de August Wilson) resgata a figura esquecida de Ma Rainey. Como obra cinematográfica, transcorre tendo dois núcleos bem definidos: por um lado, o do furacão Ma, no qual ela se mostra sempre soberana; e, por outro, o de Levee e os músicos da banda, onde explodem conflitos diversos, como a paixão pela arte e os duelos verbais, muitos deles decorrentes das questões raciais e de como cada um deles enfrenta as dores oriundas do preconceito. 

É um filme de atores, todos têm o seu momento de brilhar e realizar a contento o seu trabalho artístico-profissional. Os músicos da banda, a “namorada” de Ma, os empresários do estúdio, o jovem Silvester. Todos atuam bem afinados e firmemente orientados pelo olhar atento do diretor George C. Wolfe. A lógica do drama se impõe ao dar prevalência aos diálogos, à uma mise-en-scène que privilegia o confronto verbal entre os personagens e pelo fato de a ação ficar quase toda restrita a um único, embora variado, espaço cênico.

A ação ocorre quase toda em um estúdio de gravação. A tensão permanece no ar o tempo todo. Os músicos brincam e brigam entre si. The zoeira never ends. Os sentimentos profundos e selvagens embrulhados em papel celofane também não. Forças incontroláveis podem emergir ante a inocência desse enfrentamento. O clangor da batalha de subjetividades pode abrir feridas imprevisíveis.

Chadwick Boseman imprime ao seu personagem um ímpeto impressionante e uma fúria incomum, pontualmente expressa por humilhados e ofendidos. O legado desse excelente ator é um magistral trabalho de interpretação, cotado ao Oscar e quiçá outros prêmios. Levee investe contra uma porta fechada na sala de ensaios - como se ela representasse as limitações impostas à sua vida e à sua pele de afro-descendente. Paralelamente a isso não percebe os riscos que corre ao expor a nudez de sua alma de forma tão desabrida. O homem que quer se libertar das trevas e da opressão desse mundo tão desigual corre o risco de sofrer dores muito profundas e de cegar-se tamanha é a violência da revelação.

A bela Viola Davis, por sua vez, está irreconhecível em uma caracterização muito bem construída, em que torna-se difícil divisar seus traços pessoais mais suaves e elegantes. Ponto pra atriz que, ao que parece, também poderá ser indicada ao prêmio da Academia por sua extraordinária metamorfose nessa personagem intrigante e avassaladora. Ma é bissexual. Porta dentes de ouro. Gosta de jóias. E é capaz de levar ao infarto os empresários da música que só querem se dar bem em cima dos artistas negros.

Essa vanguardista senhora, que se impõe aos outros de forma rude, que canta “porque é uma forma de entender a vida”, sabe muito bem se colocar no mundo de forma assertiva: “a Ma escuta o coração, a Ma escuta a voz dentro dela, a Ma decide o que tocar”. Como cantora mergulhada em seu fazer artístico, ela percebe em seu íntimo que “esse mundo seria vazio sem o blues”.

 

A Voz Suprema do Blues” (Ma Rainiey”s Black Bottom) – EUA – 2020 - 1h 34min

Produção: Denzel Washington, Todd Black e Dany Wolf

Direção: George C. Wolfe

Roteiro: Ruben Santiago-Hudson (baseado na peça de August Wilson)

Fotografia: Tobias Schliessler

Música: Branford Marsalis

Com: Chadwick Boseman – Viola Davis – Taylor Paige – Glynn Turman – Colman Domingo – Dusan Brown – Jeremy Shamos – Michael Potts – Jonny Coyne – William Kania – Joshua Harto – Phil Nardozzi – Quin VanAntwerp – Mayte Natalio Tony Amen – Shane McNair – Scott Matheny - Malik Abdul Khaaliq – Gregory Bromfield

Dedicado a Chadwick Boseman em homenagem a seu talento e coração

Marco Guayba

Ator, diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras

 

 

 

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