[Crítica] “Nona: Se Me Molham, Eu os Queimo”(Nona: Si e Mojam Yo los Quemo)


 


“Performar é ser exibido ao extremo, sublinhando uma ação

para os que a assistem.”

Richard Schechner

 

 Se me Molham, Eu os Queimo” é cinema experimental. Não tem propriamente uma história, mas um tema e uma personagem objeto de culto. A suposição de enredo fala que Nona, aos 66 anos, resolve, não se sabe porque,  que a vingança não é um prato que se possa comer frio. Comete um atentado contra o carro de seu ex-amante usando as chamas de antigos ressentimentos. Para não amargar um tempo atrás das grades, ela foge para uma cidade na costa do Chile. Lá surgem estranhos e inexplicados incêndios, que consomem casas de vários moradores.

O cinema experimental não se preocupa em seguir os cânones historicamente estabelecidos para essa arte. Inventa sua própria linguagem. No caso do filme em questão, a diretora procura alinhar memórias afetivas, eventos reais, testemunhos humanos com a mais pura ficção. Não há efeitos especiais. Nem defeitos especiais. Uma conceituação desse porte não faria sentido nessa linha de trabalho artístico.

O filme é dirigido por Camila José Donoso, neta de Josefina Ramirez, a Nona do título. No passado, essa singela senhorinha foi uma ativa combatente contra a ditadura de Augusto Pinochet. Uma de suas armas para o enfrentamento daquele governo sanguinário era o coquetel molotov. Camila, que também é a roteirista, parte desse dado histórico e cria uma ficção em que a avó também seria a responsável por um grande incêndio, que realmente ocorreu no Chile. Mas é tudo obra da imaginação poética. Uma espécie de romance familiar que ampliaria metonimicamente a herança guerrilheira da Vó, tornando-a mais espetacular que a realidade limitada e comezinha.

O filme é todo ele de Nona Josefina Ramirez, a avó-molotov. Ela é o objeto a ser investigado, como o faria um sociólogo, apreciado, como numa exposição artística, contemplado e admirado, como uma criança faz com seus parentes mais velhos envoltos em mistérios e seduções. Ela fala para a câmera, expondo um dia a dia possível de uma mulher nesse século ainda pleno de comportamentos antiquados. Tudo é verdadeiro, se o espectador quiser ver a arte como forma de conhecimento. E tudo é falso, se acaso a pessoa se fixar nos bastidores da produção daquelas imagens.

Essa mistura de realidade com ficção, preocupada com a fruição estética da obra, creio que está na base da preocupação autoral da cineasta. Ao mesmo tempo que é confessional, também é pura simulação. Incêndios de um drama documental. Cinzas de um documentário orna-mental. A Nona interage com a câmera como se estivesse sendo entrevistada. Creio que uma obra desse tipo ficaria melhor enquadrada num média-metragem ou mesmo num curta. Mas talvez perdessemos algo que numa primeira visada passou despercebido.

 

Como em toda obra desse gênero, no fundo, há sempre certas questões que são implicitamente formuladas: o que o cinema ainda pode ser? Que tipo de coisa se pode fazer com ele? Se queremos inventar, qual caminho seguir?

 

 

Se Me Molham, Eu os Queimo” – Chile/Brasil/França/Coréia do Sul – 2018 – 86 min

 

Direção: Camila José Donoso

 

Roteiro: Camila José Donoso

 

Com: Josefina Ramirez – Gigi Reyes – Paula Dinamarca – Eduardo Moscovis – Nancy Gómez

 

Marco Guayba

Ator, diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras

 

 

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