[Crítica] “Cidade Invisível”

 



“Tutu Marambá / Não venha mais cá / Que o pai do menino / Te manda matar”

Cantiga popular

“Saci Pererê de uma perna só / Conheço você das histórias da vovó / De gorro vermelho que é uma graça / Cachimbo na boca fazendo fumaça”

Cantiga popular

 

O folclore brasileiro tem sido muito pouco aproveitado como material para roteiros cinematográficos. Essa recente produção da Netflix brasileira, “Cidade Invisível”, é uma tentativa de mergulhar nas águas quase virgens dessa fonte. Seres míticos como o Saci e seu incrível rodamoinho, a Cuca com seus encantamentos mágicos, Iara, a fascinante criatura das águas, o indiscernível Tutu Marambá, o sedutor Boto e, principalmente, o Curupira, o protetor da floresta, povoam o filme dando um ar sobrenatural e familiar à trama.

A Cuca é uma bruxa muito antiga interpretada por uma Alessandra Negrini ainda bem nova. Ela aparece como Inês, dona de uma casa noturna, que está na trilha da investigação do detetive Eric da Delegacia de Polícia Ambiental, que recentemente sofreu uma tragédia familiar. Eric (Marco Pigossi) encontra um animal pra lá de estranho morto numa praia do Rio de Janeiro. Um assassinato o leva por caminhos insólitos e a descoberta de entidades míticas que não costumam ser vistas pelos seres humanos.  Aos poucos vai travando contato com esses personagens lendários presentes no imaginário popular. A tensão sobe de nível a cada episódio em que um elemento novo do enigma é revelado. O desfecho final é feito com esmero nos efeitos especiais, uma interpretação extraordinária do ator Fabio Lago como Curupira, e uma revelação surpreendente. Tudo isso aponta para uma realização plástica rara no cinema tupiniquim.

Cidade Invisível” é uma produção voltada para o público jovem, mas que pode ser tranquilamente vista pelo espectador mais vivido. A Terra está em perigo. Há muito tempo a Terra está em perigo pela ganância dos homens, por empresários predadores que pensam apenas em si, por uma economia que visa o lucro antes da vida humana. O filme é um misto de denúncia ambiental e aproximação do povo com os mitos nativos presentes nas fabulações fantásticas. O fato dele oscilar entre o filme adulto e, digamos, a linguagem de um cinema voltado para o público infanto-juvenil traz, em alguns momentos, uma certa fragilização do enredo - mas que não é suficiente para ofuscar tudo o que ele tem de potente. 

É uma série que merece nossos aplausos por sua ousadia e capricho na caracterização das criaturas do nosso folclore. Consegue envolver o espectador o suficiente para desejar assistir a uma segunda temporada mais impactante com um mergulho maior nesses personagens contados e cantados na infância de muitas de nossas crianças. Exatamente por terem ficado soterrados em nossa cultura, deverão retornar muito mais fortes em sua defesa da mata. E como vingadores, que de fato são, de uma humanidade dilapidada por interesses mesquinhos. Pois que o que eles representam é muito maior do que qualquer vida individual.

 

Cidade Invisível” – Brasil – drama/fantasia – 2021

História: Carlos Saldanha

Direção: Luís Carone, Carlos Saldanha e Júlia Pacheco Jordão

Roteiro: Mirna Nogueira

Trilha original: Darren Solomon e Chris Jordão

Fotografia: Glauco Firpo e Kauê Zilli

Direção de arte: Fábio Goldfarb

Figurinos: David Parizot

Caracterização: Luiz Gaia

Montagem: Fernando Stutz e Marcelo Junqueira

Com: Marco Pigossi – Alessandra Negrini – Fábio Lago – Jéssica Córes – Jimmy London – Wesley Guimarães – Aurea Maranhão – Julia Konrad – Thaia Perez – Manu Dieguez – José Dumont – Tainá Medina – Rafael Sieg – Samuel de Assis – Victor Sparapane

Produção Original Netflix

 

Marco Guayba

Ator, diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras

 

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