[Netflix] “Sakho & Mangane”

 



“Sou negro / meus avós foram queimados / pelo sol da África / minh’alma recebeu o batismo dos tambores / atabaques, gongôs e agogôs”

Solano Trindade

                                   

Souleymane Sakho e Basile Mangane são dois policiais com estilos e métodos bastante diferentes. Sakho é certinho, um tanto careta, exerce de forma rigorosa a autoridade e está acostumado a trabalhar sozinho. Já Mangane é impulsivo, age sem pensar, faz o que lhe der na telha, gosta da vida, de mulheres e de se vestir como quiser. Mas as diferenças não param por aí, o primeiro segue o manual da polícia, o segundo procede segundo sua vontade de momento. Essa oposição gera momentos de tensão e quiçá de muito humor.

Mama Ba é a nova chefe deles, recentemente nomeada, e corta um dobrado para se impor num universo tradicionalmente patriarcal. Ela é que junta esses dois, numa dupla nada harmônica, para investigar um crime cometido numa ilha sagrada para os “lebous”, povo que exerce a pesca local e tem fortes ligações com a ancestralidade de sua etnia. Foram eles os primeiros habitantes da península de Cabo Verde. A trama se passa em Dakar no Senegal e apresenta as fortes cores da cultura local.

A filmagem é extremamente ágil, tem uma montagem dinâmica e frenética, a trilha sonora mantém o espectador ligado na religiosidade e no mistério sobrenatural das crenças desses senegaleses comprometidos com seus rituais sagrados. Os enquadramentos são precisos tanto pra mostrar a ação quanto para realçar a emoção ou deixar fluir um riso espontâneo com as trapalhadas de Mangane, que, por sinal, também é responsável por momentos de drama bastante incisivos. Os atores dão conta de suas performances com talento e muita eficiência. Se as personagens não se entendem, os atores, por seu lado, estão muito afinados um com o outro.

A Netflix tem investido pesado numa cinematografia africana de qualidade, mas que se encontra ainda calcada nos métodos de filmagem do assim chamado cinema comercial europeu ou nos padrões de Hollywood. Porém, as tramas tem sabor local e acabam por divulgar muitos elementos de uma africanidade ainda desconhecida pelo resto do mundo. Elencos formados por atores negros têm mais essa oportunidade de mostrar a qualidade de seus trabalhos na arte da interpretação, assim como os roteiristas, os diretores e demais membros de uma equipe técnica e/ou de criação. Mas não podemos esquecer que a força desse cinema já mostrou a sua cara com inúmeras produções da Nigéria e de outros países como, por exemplo, a África do Sul. A Netflix está dando um impulso a mais, e que impulso, para socializar estes filmes para o mundo. Sem dúvida, há algo de novo no cinema e não vem necessariamente das salas de exibição, mas das plataformas de streaming.

 

Sakho & Mangane – Série Netflix – Senegal - 2019

Direção: por Jean Luc Herbulot, Hubert Ndao e Toumani Sangare

Fotografia: Gregory Turbellier

Cinegrafista: Nourou Sarr

Efeitos especiais: Steve Morel

Música original: Ibaaku e Kane Diallo

Montagem: Gregoire de Courtivron

Com: Issaka Sawadogo (Sakho) – Yann Gael (Mangane) – Christiane Dumont (Mama Ba) – Christophe Guibet (Toubab) – Fatou-Elize Ba (Antoinette) – Ricky Tribord (Pape) – Khalima Gadji (Awa) – Ndiaga Mbow (Mouss) – Josephine Zambo (Bukki)

Locação: Dakar, Senegal

 

 

Marco Guayba

Ator, diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras

 

 

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