[Crítica] “Zona de Combate” (Outside the Wire)

 



“É apenas racional de uma maneira estúpida.“

Herman Hesse

 

 

Um piloto de drone, Harp (Damson Idris), sem vivência real de combate, precipita-se e faz um ataque sem a autorização de seus superiores. O resultado é a morte de dois soldados, de acordo com o exército. Ou a salvação da vida de 38 homens, segundo a versão do atabalhoado piloto. Tentando escapar de uma corte marcial ele é mandado para a frente de luta para saber o valor da vida humana. Fica sob o comando de Leo (Anthony Mackie), um verdadeiro capitão andróide, que simula em tudo a aparência de um ser humano. A região dos conflitos bélicos é controlada pelo separatista Viktor Korval (Pilou Asbaek), um fantasma, quase nunca visto. A missão da improvisada dupla é impedir que o terrorista tome posse de um arsenal nuclear capaz de matar milhões de pessoas.

“Zona de Combate” se passa num futuro próximo - 2036 - em que o desenvolvimento da tecnologia tornou possível a criação de soldados robóticos, os Gump. A primeira hora do filme é para estruturar o enredo. A segunda hora é ação, porrada pura. Na primeira hora temos muito papo cabeça abobrinha. As personagens discutem sobre a ética da guerra, ou seja, a ética dos soldados. Ou algo mais ou menos assim. Ah, falam muito sobre a utilização de inteligência artificial em uma guerra, a validade de empregar biotecnologia, e se as máquinas podem dar um caldo nas leis da robótica e escapar do controle de seus criadores. Reflexões espertas entre o humano tapado e um robô-filósofo.

As Três Leis da Robótica são uma criação ficcional de Isaac Asimov em seu livro “Eu, Robô”, de 1950. Elas passaram a fazer parte de toda, ou quase toda, obra ficcional sobre Inteligência Artificial. Elas são enunciadas da seguinte maneira: Primeira Lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal; Segunda Lei: Um robô deve obedecer às ordens dadas por seres humanos exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei; Terceira Lei: Um robô deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou a Segunda Lei.

Como um andróide sofisticado, como Leo, poderá conseguir lidar com essas leis num mundo cheio de conflitos geopolíticos, interesses nem sempre honestos de nações militarizadas e práticas claramente perversas de certas milícias e exércitos altamente violentos? São impasses e paradoxos para os quais as máquinas não estão preparadas para equacionar. Esses vazios lógicos são responsáveis pelo grande plot twist do filme.

A tarefa de Harp, apesar de muito árdua, situa-se num caminho bem mais fácil de seguir. O bravo soldado testemunha de perto o desespero dos caídos, acaba lidando com situações em que a vida de civis está em jogo, e se vê tendo que tomar a difícil decisão sobre o que é certo e o que é errado baseado em sua consciência e em seus instintos.

Quando a pancadaria começa pra valer e o filme transforma-se em Zona de Quem Bate, pode-se ver bons efeitos visuais, ação intensa, sequências fortes, tudo com uma paleta de cores que a todo momento evoca um ambiente militar-tecnológico. O Capitão Andróide mostra a que veio e dá um show de eficiência em técnicas de luta derrotando adversários às dúzias. Ele briga pra carai. Fosse um filme da Marvel, Leo seria transformado no mais novo super-herói da franquia. Ou, quem sabe, seria um vilão?

Por que a guerra? Um piloto de drone que mata sem presenciar os horrores do que faz é um verdadeiro soldado? Homem e máquina devem ter emoções para fazer bem o seu trabalho?  São questões enunciadas ao longo da trama, mas que, diga-se de passagem, submergem ao heroísmo guerreiro comum a filmes do gênero.

O fato é que essa guerra tecnológica entre EUA e Rússia pela posse de uma parte da Ucrânia tendo como protagonista um Oficial andróide se tornou um dos filmes mais vistos do serviço de streaming.

 

Zona de Combate” (Outside the Wire) – 2021

Direção: Mikael Hafström

Roteiro: Rowam Athale

Figurino: Caroline Harris

Com: Anthony Mackie – Damson Idris – Emily Beecham – Pilou Asbaeck  

Uma produção original Netflix

                                                                                                           Marco Guayba

Ator, diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras

 

 

 

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