[Crítica] Teatro – “Éramos em Bando” – filme do Grupo Galpão






 


"Para que alguma coisa relevante ocorra, é preciso criar um espaço vazio.                       O espaço vazio permite que surja um fenômeno novo, porque tudo que diz respeito ao conteúdo (...) só pode existir se a experiência for nova e original. Mas nenhuma experiência nova e original é possível se não houver um espaço puro,                    virgem, pronto para recebê-la.”

Peter Brook

                "A multiplicidade só pode ocorrer dentro de um todo, como parte da arquitetura de obras coerentes."

Bertolt Brecht

 

O Grupo Galpão é uma das mais conceituadas Companhias presentes na cena teatral brasileira. Fundado em 1982, em Belo Horizonte, por Teuda Bara, Eduardo Moreira, Wanda Fernandes, Antonio Edson e Fernando Linares, tem em seu perfil a inquietude típica do artista em busca da melhor forma de expressar o seu trabalho. Suas raízes sempre estiveram ligadas ao teatro popular e de rua, sem jamais abrir mão da pesquisa e do mergulho em diversas linguagens como o circo, a música popular ou as festas do povo, mesmo quando ocupavam espaços mais tradicionais como, por exemplo, o palco italiano.

O Grupo montou coisas como farsas, “commedia dell’arte”, dramas de Nelson Rodrigues, de Shakespeare ou de Tchekhov, utilizando diretores próprios e convidados, assim como lançando mão do recurso da direção coletiva. A renovação, embora apresentando gêneros tradicionais, se mostrou uma busca incessante a cada espetáculo.

Em 1992 estes modernos saltimbancos encenaram, sob a direção de Gabriel Villela, a peça “Romeu e Julieta”, de William Shakespeare. Foi um encontro mágico do aclamado diretor com a entusiasmada troupe. Essa montagem projetou nacionalmente o Grupo Galpão, que inclusive pode também apresentá-la na terra natal do Bardo. Depois vieram Molière, Ítalo Calvino, Tchekhov e tantos outros autores da maior importância. Sempre construindo espetáculos de uma beleza cênica impressionante e mantendo um espírito de brasilidade e de sincera paixão pela arte teatral, seja no palco, seja na praça pública.

Mas em tempos de pandemia as condições de trabalho tornaram-se outras. Com os teatros fechados e a necessidade de distanciamento social, o Galpão teve que adiar a estreia de seu vigésimo quinto espetáculo. Os membros do grupo lançaram-se, então, a uma inédita aventura no formato digital interpretando cenicamente diversos poemas.

O filme “Éramos em Bando” é uma resposta artística, segundo um dos atores, “a esse processo interrompido pelo vírus”. Um outro diz que “a gente acaba trazendo o coletivo para um espaço extremamente individualizado”. O esforço conjunto do teatro é substituído pelas janelas de uma live em que cada ator ou atriz está em seu apartamento, escritório ou o que for. Dessa situação surgem momentos de stress, de dificuldade no uso dos equipamentos, de tentativas e erros, umas hilárias, outras um tanto sérias e por aí vai.

Surgem também experimentos com partes do corpo em frente às web câmeras, algo inusitado pra quem, no geral, está acostumado a interpretar com o corpo todo; exercícios de aquecimento; buscas quanto ao modo do uso da fala nessas circunstâncias. No início tudo é desconjunto, incompleto, pleno de equívocos e, digamos, pequenos desastres. Porém, mais para o fim do filme, vemos belas cenas de um audiovisual criativo, que trabalha a poesia com fecundidade e esplendor.

Trata-se de um experimento cênico. Não necessariamente teatral nem muito menos necessariamente cinematográfico. Um vídeo para os tempos de pandemia. Um registro criativo daquilo que terá sido teatro em seu processo original de construção. As peripécias de uma forma artística coletiva que teve que registrar individualidades e ainda assim formatar isso num trabalho em grupo. Todos num sem-jeito para lidar com a tecnologia e com uma linguagem na qual não estão perfeitamente afinados. Mas o saldo final é de uma beleza invulgar e, de uma certa maneira, refinada.

Poemas como “De Vulgar Eloquentia”, de Paulo Henriques Britto, “Três Pensatos”, de Marcelo Montenegro ou “Apesar de Tudo o Impossível”, de Alberto Pucheu ganharam uma insólita cena nesse “Éramos em Bando”, que, afinal de contas, contém em seu bojo, queremos entender assim, a angélica afirmação de que continuamos em bando, fazendo a banda passar, tocando o barco nesse mar.

 

Éramos em Bando” – Grupo Galpão – 2020

(23 tomadas, de 15 de abril a 5 de maio de 2020)

Direção: Marcelo Castro, Pablo Lobato e Vinícius de Souza

Montagem: Pablo Lobato

Trilha sonora: Davi Fonseca

Com: Teuda Bara – Lydia Del Pichia - Marcelo Castro – Júlio Maciel – Eduardo Moreira – Inês Peixoto – Davi Fonseca – Antonio Edson – Paulo André – Gilma Oliveira  - Vinícius de Souza

Produção: Grupo Galpão

Marco Guayba

Ator, diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras

 

 

 

My Instagram

Copyright © Desconexão Leitura. Designed by OddThemes