[Crítica] “Pieces of a Woman”

 

 


“A semente da criação do autor deve ser plantada na alma do ator, passar pela fase   da decomposição, lançar suas raízes: delas surgirá uma nova criação.”

Constantin Stanislavski 

 

“O problema central do ator, ou seja, como é possível para ele "sentir de verdade" e, ao mesmo tempo, ter completo domínio do que precisa fazer no palco.”

Lee Strasberg

 

 

O filme “Pieces of a Woman” está organizado em torno de três eixos. Primeiro: o drama terrível das três personagens centrais, um parto feito em casa seguido da morte do bebê. Segundo: a força do trabalho dos atores. Terceiro: o envolvimento pessoal do diretor e da roteirista com o enredo.

O roteiro é a ficcionalização de uma vivência extremamente dolorosa da roteirista húngara, Kata Wéber, e de seu marido, o diretor do filme, Kornél Mandruczó. Foi um empreendimento comum do casal, que passou por uma experiência semelhante, mas não do mesmo tom, e precisava falar sobre esse tema, pois ele permanecia cutucando suas dores e pressionando significados ainda não explicitados.

A atriz Vanessa Kirby sustenta uma performance impecável, seja na primeira meia hora do filme, quando acontece um parto sofrido mostrado por meio de um longo plano-sequência, seja no restante da obra, em que  a personagem Martha vive uma série de sentimentos incoerentes e inexplicados, ao mesmo tempo que não quer encarar aquela aflitiva situação. Destaque também para a veterana Ellen Burstyn, que interpreta, com sangue nos olhos, a avó que pressiona sua filha a agir e exigir reparação pela mágoa que lhe foi infligida. E, por fim, o belo trabalho de Molly Parker, que incorpora reações minimalistas, mas intensas à uma parteira que não sabe como se defender de um crime que ela não cometeu.

Sem esse trabalho notadamente técnico - que no caso quer dizer nitidamente emocional - o filme perderia grande parte de seu impacto e de seu encanto. Teríamos cenas vazias, perdidas numa imobilidade de sentimentos. Mas a mão de ouro do diretor soube manter as coisas na tensão precisa que o drama necessitava para ser escrito na tela. É verdade que em certos momentos, quase resvala para o melodramático, o que seria uma pena. Sua própria experiência com o assunto permitiu que ele soubesse bem o que deveria ou não fazer.

O plot de base do filme, a morte da criança após o parto, remete a questões muito graves para os seres humanos, particularmente para aqueles que sofreram perdas tão dolorosas. O pesquisador Bruno Bettelheim ao falar sobra a “angústia de separação” diz que “não há maior ameaça na vida do que a de que seremos abandonados, deixados completamente sós.” Esse abandono pode vir, por exemplo, da parte dos pais. Mas a verdade é que a perda de um filho pode ser sentida de forma até mais intensa e desesperadora: foram nove meses de espera e expectativas, acumularam-se vários desejos sobre como seria a vida com a presença desse novo ser, e foi cultivado dia após dia um amor tão incomensurável quanto inexplicável.

Perdas tão significativas demandam aquilo que é conhecido como um “trabalho do luto” bastante elaborado. Isso demanda tempo, pois enquanto se procede a operação de desligar a libido das promessas e lembranças vinculadas àquele ser visto como tão encantador, o sujeito precisa ir se acomodando a uma nova percepção da vida e a uma organização de seu espaço subjetivo que incorpore (ou simbolize), de alguma maneira, tal experiência trágica.

A personagem Martha atravessa esse Rubicão da (quase) maternidade e consegue construir respostas éticas para o mal que a atingiu. Vanessa Kirby espelha esse processo de seu papel dramático com tanto rigor artístico, que já há quem a aponte como séria candidata ao próximo Oscar.

O diretor Kornél Mundruczó soube mostrar na tela um parto sem nenhum glamour, mas com muita objetividade, dando suficiente espaço para reações muito comuns nesse momento, e acentuando a descoordenação mental e receios da mãe quando se trata de um parto complicado. Encenar esse momento deve ter sido muito árduo para quem passou por algo semelhante. Mas também deve ter sido extremamente libertador.

 

Pieces of a Woman” – 2020 – drama – 2h 8min

Diretor: Kornél Mundruczó

Roteiro: Kata Wéber

Música: Howard Shore

Fotografia: Benjamin Loeb

Produtor executivo: Martin Scorsese

Com: Vanessa Kirby – Shia LaBeouf – Molly Parker – Sarah Snook - Iliza Shlesinger - Benny Safdie – Jimmie Fails – Ellen Burstyn

Uma produção original Netflix

 

Marco Guayba

Ator, diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras

 

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