[Crítica] “O Texto” (Text) – 2019 – 132min

 Uma tremenda paúra.

 

“Cala, e não haverá desgraça. / Oculta-te e fica de lado: / Não te agites pra cá, pra lá, / Não te enerves, bico calado. “

Lev Kropivnítzki





 

Ilya Goryunov é um estudante de Filologia que se meteu em uma tremenda enrascada: fugiu de sua obstinada mãe (que o tinha colocado de castigo por não ter passado na prova de Filologia Romana) para ir à balada num lugar chamado Paraíso. Acabou vivendo um Inferno de sete anos em uma prisão por ter sido condenado por tráfico de drogas. Depois de sua jornada infeliz fica uma pergunta: a vingança vale a pena?

Na verdade, os sofrimentos por que passa em sua temporada na prisão não são mostrados. Seu Inferno mais terrível virá depois que ele é solto. Ilya descobre que sua mãe morreu de um ataque cardíaco pouco antes de sua libertação, sua antiga namorada, Vera, não quer mais saber dele, e o jovem policial corrupto que o prendeu sem um motivo concreto vive uma vida de nababo com uma moça linda.

Ilya, na tentativa de entender suas desgraças, procura confrontar Piotr, o policial responsável por sua degradação humana. Ele se apodera do celular de seu inimigo e fica teclando com a mãe dele, com Nina, a namorada grávida do rapaz e com, digamos assim, traficantes de drogas bem barra pesada. Esse é o significado do título: a conversa por meio de textos digitados no celular.

Tudo o que Ilya faz após sair da cadeia só o faz atravessar o caminho do Inferno. O ressentimento mostra-se danoso para o ressentido. A injustiça que ele sofreu em nada serve de justificativa para seu ódio e sua vingança, muito pelo contrário.  Em alguns momentos, quando não está fascinado pela vida do Outro (os registros de fotos e vídeos no celular de Petya), o rapaz faz desenhos de figuras humanas, mas cobre-as com riscos como se quisesse apagá-las. E nesse faz e desfaz, que sua vida se torna, acabará encontrando um destino assaz torpe?

Quando o jovem sai da prisão, encontra-se com um amigo que lhe pergunta por que ele, o policial, o escolheu. Ilya responde: “Escolheu porque podia.” Denúncia de que na Rússia, apesar de todas as transformações, ainda vigora o autoritarismo e a prepotência dos que se acham maiores que as leis que juraram defender. 

“O Texto” e bem filmado, tem um colorido muito bonito, um interessante  trabalho com a luz e os movimentos de câmera, que permitem em certos momentos ver o personagem sempre se deslocando, como que para acentuar que se trata de uma jornada. Uma jornada trágica, mas uma jornada. Tudo isso fornece uma dinâmica ágil ao filme e mostra uma preocupação com certos conceitos muito presentes nos filmes mais contemporâneos do mesmo gênero. Aparentemente, vincula-se também a uma certa tradição russa de crime e castigo.

O presente Festival de Cinema Russo que está ocorrendo no Brasil permite observar o estágio do atual cinema russo (ou uma parte dele), muito antenado com a filmografia internacional , mas, ao mesmo tempo, voltado para as circunstâncias de sua sociedade e para as raízes de sua cultura.

 






O Texto” (Text) 2019 – 132min

Direção: Klim Shipenko

Roteiro: Dmitry Glukhovsky

Fotografia:  Andrei Ivanov

Música: Nikolay Rostov

Com: Alexander Petrov – Kristina Asmus – Ivan Yankovskiy – Sofia Ozerova – Sonya Karpunina – Maksim Vinogradov – Kirill Nagiev – Vitaly Khaev

 

Marco Guayba

Ator, diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras 

My Instagram

Copyright © Desconexão Leitura. Designed by OddThemes