[Crítica] “O Francês” (The Frenchman)

 

Na Arte o que se ouve é sempre a Outra Voz.




 

“Deixa a palavra escorregar, / Como um jardim o âmbar e a cidra, / Magnânimo e distraído, / Devagar, devagar, devagar.

(Boris Pasternak)

 

A história recente da Rússia passada a limpo. Talvez, não. Talvez sejam apenas alguns conceitos sendo revisitados e revisados. O filme é dedicado a Alexander Ginsburg, jornalista, poeta, ativista dos direitos humanos e dissidente russo durante o período soviético.

A revisão de História recente de um povo tem se mostrado um trabalho fértil, pois permite ao ser humano confrontar-se com um passado próximo que deixou marcas profundas em sua sociedade. O que era antes regra para um determinado sistema, pode ser também regra, guardadas as devidas proporções, para o sistema atual.

Pierre Durand é um jovem estudante francês, membro do Partido Comunista, que viaja até Moscou para um programa de intercâmbio estudantil. Seu objetivo acadêmico é pesquisar a vida de Marius Petipa, considerado o criador da escola russa de ballet. No Bolshoi conhece Kira, uma bailarina de talento, com quem irá se envolver amorosamente. Pelas mãos do cinegrafista Valera, fará uma jornada pela cultura viva, subterrânea, avançada de Moscou: editores independentes, artistas modernos, músicos de Jazz.

Pierre transita entre os dois mundos:  o oficial, burocrático, estagnado e repressivo dos órgãos oficiais, principalmente os de segurança, que só se preocupam em manter o controle social e com todo tipo de supostas contra-revoluções. Uma teoria da conspiração pra cada cidadão. Uma medida para cada ação. É dose.

O outro mundo: é o dos jovens, dos artistas, poetas, escritores e toda sorte de gente que quer viver e criar com liberdade e fraternidade, que quer a igualdade também nos direitos de cidadania e expressão, que quer beber vodka e comer salsichas com entusiasmo sem ter que dar conta de vigiar amigos e controlar a vida do Outro.

O jovem francês, porém, tem outra meta bastante pessoal: quer saber sobre seu pai, um aristocrata russo que lutou ao lado do exército branco e foi preso por volta de 1930. Sua procura esbarra o mais das vezes com normas sem sentido, mas depois de muito vasculhar descobre que seu pai está vivo. O encontro dos dois é tocante: diferenças de expectativas e de experiências de vida, do estado de espírito de um jovem que quer saber sobre como é seu pai e de um senhor que é uma degradação humana e já não tem mais esperanças.

Mas o que é um pai? Para M. Claudel, em nossa estrutura social moderna, um pai sempre é discordante em relação à sua função, pois é um pai carente e/ou um pai humilhado. Esta referência é em relação àquele pai da história familiar – ou ausente dela em sua concretude (engodo de todo ser humano preso aos laços imaginários). Não é o pai simbólico (estruturante) ao qual a Lei remete.

Para Octavio Paz: “a poesia é a memória feita imagem e esta convertida em voz.” O final do filme é emblemático: o fotógrafo Valera Uspensky é preso, e enquanto o carro que o leva se afasta, a bailarina do teatro Bolshoi, Kira Galkina, faz o sinal de V com os dedos.  A personagem (ou o cineasta) protesta contra a opressão do passado, mas também protesta contra a opressão do presente. Afirmação de que a luta da arte é sempre um aqui e agora.

 


 

O Francês” (A Frenchman) – 2019 – Rússia – 128min

Direção: Andrey Smirnov

Cinematografia: Yuriy Shaygardanov

Edição: Anna Krutiy

Com: Aleksandr Baluev – Evgenia Obraztsova – Mikhail Efremov – Roman Madyanov - Anton Rival – Evgeni Tkachuk – Nina Drobisheva – Natalia Teniakova – Lucy Aron – Jérémie Duval – Alexander Anisimov – Vera Lashkova

 

Marco Guayba

Ator, diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras

 

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