[Crítica] Arritmia (Arrythimia) – 2017 – 1h 56min

 

Pequenos dramas urbanos.

 

“Hoje de novo sigo a senda  /  Para a vida, o varejo, a venda, / E guio as hostes da poesia / Contra  maré da mercancia.”

Vielimir Khlébnikov




 

Um filme russo, sim senhor. Mas um filme naturalista-realista como muitos que são feitos em Hollywood ou em qualquer outra parte do mundo – fiel ao protocolo deste estilo: um drama burguês clássico, filmado com as normas protocolares dessa estética. São personagens e vivências similares às que acontecem com yankees, argentinos, finlandeses, brasileiros, porém com um certo colorido eslavo.

Oleg é um jovem paramédico impulsivo, sem muito verniz, dedicado aos seus pacientes, sabe improvisar na frente de trabalho e contornar os piores impasses. É extremamente apaixonado por sua esposa. Katya é uma médica sob pressão, que tem que lidar com muitos problemas no hospital e com os conflitos suscitados por seu jovem parceiro amoroso em casa.

O novo chefe de Oleg tenta implantar uma medicina de “resultados”, visando números e uma suposta eficácia de sua gestão. O bem-estar dos pacientes é algo bastante secundário para ele. A “reforma” dos serviços de saúde só obedece à lógica de burocratas insensíveis na nova e moderna Rússia. Capitalismo de resultados, poderia se dizer.

Os atendimentos médicos dos socorristas das ambulâncias entreteem o espectador pela dimensão de sofrimento humano que apresentam, pelos empecilhos de uma burocracia impotente e pelo inusitado que essas vidas e seus tormentos acabam apresentando como desafio aos profissionais de saúde como, por exemplo, ter que fazer uma transfusão de sangue em uma renitente Testemunha de Jeová.  São os chamados pequenos dramas urbanos.

O casamento em crise - as constantes DRs, a diferença de formação, as tentativas de aproximação que só distanciam mais, as dúvidas e incertezas dos cônjuges numa possível separação – é também outra forma de drama humano moderno. Tudo isso embalado pela música que diz: “As poças de água estão congelando. Lembra como nos beijávamos todas as noites, ouvindo o barulho do mar? Não podemos voltar no tempo. Eu sei. Mas quando eu estou triste, eu me lembro de tudo. Estávamos num iate, embaixo da vela, e nada mais existia nesse mundo. Era em Yalta, agosto, e nós estávamos apaixonados.”

A cena final do filme mostra a ambulância parada num engarrafamento num dia de neve. Um dos socorristas desce a vai de carro em carro abrindo passagem para que o carro com os paramédicos e o paciente possa avançar. Simboliza, talvez, a idéia de que a solidariedade ainda é possível, e que a vida pode ser humanizada na nova Rússia. Essa sensibilidade pode ser a causa do porque esse belo e singelo filme tenha atingido um grande público nos países em que foi veiculado.

O filme Arritmia recebeu vários prêmios cinematográficos tais como o de melhor ator para Alexander Yatsenko no 52º Festival de Cinema de Karlovy Vary e no Kinotavr Open Russian Film Festival, o de melhor atriz para Irina Gorbachova no Festival de Cinema de Minsk e o de melhor filme no Festival de Cinema de Trieste (2018).

 

Arritmia” (Rússia, Finlândia, Alemanha) – 1h 56min

Direção:  Boris Khlébnikov

Com: Alexander Yatsenko (Oleg) - Irina Gorbacheva (Katya) – Nicolay Shraiber – Sergey Nasedkin

 

Marco Guayba

Ator, diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras

 

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