[Critica] “AmarElo – É Tudo Pra Ontem”


“Às casas, às nossas lavras / às praias, aos nossos campos / havemos de voltar (...) À frescura da mulemba / às nossas tradições / aos ritmos e às fogueiras / havemos de voltar / À marimba e ao quissange / ao nosso carnaval / havemos de voltar”

Agostinho Neto

“Crescer na esperança do aquém e do além / Do continente e da pele de alguém / Lutar é crescer no além e no aquém / Afirmando a liberdade da raça amém”

Abdias Nascimento

 

AmarElo. A obra tem como eixo a gravação do show do rapper Emicida no Teatro Municipal de São Paulo em novembro de 2019. O diretor Fred Ouro Preto fez circular em torno desse eixo documentos referentes à história da luta do povo negro no Brasil; registros sobre a evolução do samba e suas relações com o rap e com as diversas formas contemporâneas de manifestação artística advindas da africanidade; vídeos de hip-hop e sobre músicos negros importantes; depoimentos de militantes da luta pela liberdade e pela dignidade; e muitas coisas mais.

Ocupar espaços. A realização do show no Teatro Municipal não foi um acaso ou uma jogada comercial. Mas pretendeu simbolicamente dizer que os afrodescendentes de todos os matizes e de todas as tendências podem e devem ocupar todo e qualquer espaço na sociedade brasileira. Nenhum lugar lhes é alheio, nenhuma porta pode estar fechada, pois há “a necessidade de converter tragédias em potências.”

Um desfile com estilo. Pelo filme passam coisas como o essencial Movimento Negro Unificado, a histórica e aguerrida Frente Negra Brasileira, o Teatro Experimental do Negro, criado por Abdias Nascimento e que nos legou Ruth de Souza, a Primeira Dama Negra do Teatro Brasileiro e que se tornou também a Primeira Dama Negra do Cinema Brasileiro. E mais, Machado de Assis, o nosso patrono da Academia Brasileira de Letras, Luiz Gama, poeta e advogado de pessoas escravizadas, Mário de Andrade, um dos ícones do Modernismo em nossa terra, os irmãos Rebouças que realizaram obras urbanas de grande relevo. A lista é grande e não dá para citar todos.

O personagem consciente. Emicida faz as vezes de personagem, entrevistador, cantor, narrador, filósofo, estilista tudo isso em prol da busca da afirmação da negritude entrelaçada com a busca da afirmação da brasilidade, resguardando a autonomia de cada registro. Tudo isso integrado e paralelo. Todos os brasis arteiros e militantes do Brasil para o mundo. De Marcos Valle e Fernanda Montenegro a Cartola e Wilson das Neves. E a luta nos anos de chumbo: “Pra haver uma efetiva democracia racial há que haver democracia.”

É Tudo Pra Ontem. Mais que um documentário é um ensaio documental, um poema coletivo, uma música que se ouve, e se vê, com prazer, com sabor de felicidade libertária nos lábios e no coração. Uma verdadeira celebração. Urge que a arte seja cada vez mais “uma ferramenta política muito potente.”

Imperdível. “AmarElo” é uma notável contribuição do cinema à estrutura de nossa nação. É muito mais que um filme. É um libelo pela liberdade e pela dignidade. Um testemunho de africanidade. Um manifesto cheio de vida e poesia. É principalmente um relato particular da contribuição da comunidade negra na cultura brasileira. Um grito de Amor.

 

“Além deste cansaço em outros continentes / a África viva / sinto-a nas mãos esculturais dos fortes que são povo / e rosas e pão / e futuro.”

Agostinho Neto

 

 

AmarElo – É Tudo Pra Ontem” – Brasil – 2020 – 89min

Um filme de Leandro Roque de Oliveira

Direção: Fred Ouro Preto

Roteiro: Toni C

Trilha sonora original: Janecy Nascimento, Guilherme Garbato e Gustavo Garbato

Direção de arte:  André Juventil

Direção de animações: Felipe Macedo

Direção de ilustrações: Alexandre de Maio

Edição de som:  Gustavo Garbato

Pesquisa: Felipe Campos (Choco)

Realização: Laboratório Fantasma

Produção executiva:  Raissa Fumagalli e Joelma Oliveira Gonzaga

Produção: Evandro Fióti

Um documentário original Netflix

Marco Guayba

Ator, diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras

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