[Resenha] Quarto de Despejo - Diário de uma favelada

"(...)A vida é igual um livro. Só depois de ter lido é que sabemos o que encerra. E nós quando estamos no fim da vida é que sabemos como a nossa vida decorreu. A minha, até aqui, tem sido preta. Preta é a minha pele. Preto é o lugar onde eu moro.(...)"
Carolina Maria de Jesus
Quarto de despejo - Diário  de uma favelada


Este livro escrito por uma favelada que mora em São paulo nos anos 50 do século XX, onde ela sonha ser uma escritora e escreve o seu dia a dia dentro da favela Canindé. Carolina Maria de Jesus, era uma mulher migrante de Minas Gerais, catadora de papel e mãe solteira. O livro não conta somente o seu dia a dia mas também dos moradores e comportamentos dos moradores da favela Canindé.
O Livro mostra a precariedade que existia naquela época, o acesso a um emprego, ensino e as outras coisas básicas para vida. Quem vivia/vive na favela são marginalizados e visto pelo Estado como forma de compra de voto e não de forma como um ser humano com direitos como qualquer morador da cidade. 
O personagem principal do livro é a fome que está em constantes diálogos entre carolina e seus filhos e também seus vizinhos. Este assunto pode parecer irritante, mas é a linha que leva toda historia, pois todo dia Carolina sai para catar papel para conseguir dinheiro para colocar comida em casa - uma situação que nem sempre acontece. Existe a guerra da fome de forma constante em seu dia a dia.

A condição de ser mulher e mãe solteiro nos anos 50 numa sociedade desumana também aparece no livro. Mesmo num ambiente em que todos sofrem, a mulher se encontram num patama em ter que lidar com assédio, abuso, estupro, violência domestica, o julgamento alheio desde novas. Carolina ela relata o "desgosto de ser mulher", diante das disputas e rivalidades entre as mulheres da favela (incluindo a autora), ela afirma que gostaria de ter nascido homem que seria mais fácil sua vida. Mas seus filhos são os a move, já que ela pensou em suicídio, mas se sente aterrorizada com a perspectiva de morrer e deixar seus filhos sozinhos no mundo.É somente por eles que ela suporta e faz tudo.
A sua frustração muitas vezes fez com que ela tivesse fé, entrasse em contato com a religiosidade. Diversas  vezes no livro percebe-se o quanto ela busca a ajuda do divino para conseguir conquistar a comida de cada dia.
Seus filhos, que são três, por ela passar o dia trabalhando, muitas das vezes quando ela volta para favela ela ouve reclamação de seus filhos por brincarem. Embora ela não diga com todas as palavras , a autora atribui a reação de repudio aos seus filhos pelo fato dela não ser casada "Elas alude que eu não sou casa. Mas eu sou feliz do que elas. Elas tem marido" - Carolina Maria de Jesus.

Quarto de Despejo é uma leitura dura e difícil de digerir de uma realidade dolorida e marginalizada, que expõe situações críticas de quem não teve a sorte de ter acesso a uma minima qualidade de vida. O livro é extremamente honesto e transparente, a autora a personificação de uma série de fala de possíveis de outras mulheres negras que se encontram em igual situação social de abandono.
Carolina Maria de Jesus era uma anônima até o lançamento de seu primeiro livro, "Quarto de Despejo". Publicado em agosto de 1960, a obra é uma reunião de cerca de 20 diários escritos pela mulher negra, mãe solteira, pouco instruída e moradora de favela. O Livro foi e é um sucesso de vendas e de público porque lançou  o olhar original da favela e sobre a favela. Com o sucesso, ele foi traduzido em treze idiomas. carolina ganhou o mundo e foi comentada por grandes nomes da literatura brasileira como Manuel Bandeira, Raquel de Queiroz e Sérgio Milliet. No Brasil, os exemplares do livro alcançaram uma tiragem de mais de cem mil livros vendido em um ano.
Carolina mostrou a desigualdade racial e social em seu livro, com simplicidade e honestidade...mas isso não mudou muito hoje! O seu livro ainda é contemporâneo, muitas das histórias contadas em seu livro ainda se repete. É como se o Estado não tivesse nada em suas politicas públicas para moradores de comunidade, que anda na marginalização. Carolina com sua honestidade em suas palavras no seu livro mostrou a verdade de como é ser favelado no Brasil.
Tatá Boeta
Bacharel em Produção Cultural, Roteirista,
Ator, Diretor de teatro/performance, Compositor,
Poeta e Bailarino.
Instagram: @tataboeta



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