[Teatro] Crítica Espetáculo Dentro




A estreia do espetáculo teatral Dentro do dramaturgo Diogo Liberano, com a direção de Natássia Vello e atuação de Laura Nielsen teve início na sala de teatro mais intimista do Centro Cultural do Banco do Brasil no Rio de Janeiro no dia 24 de abril de 2019. A escolha do espaço que conta com apenas 86 cadeiras, e onde o palco é somente a demarcação feita no chão, e o cenário é simples, mas eficaz para os fins da peça já diz muito sobre a intencionalidade da personagem, que é tomar um café ­­–literalmente- com a plateia, nos puxando e levando-nos a refletir ainda mais intimamente sobre as diversas questões ali propostas. 
  
Questões interessantes são trazidas à tona, tanto temas atuais quanto alguns que já vem sendo desconstruídos e questionados ao longo do tempo. Fazemos uma viagem lúdica em que a atriz Laura Nielsen interpreta Leonor e todos os outros flashbacks de suas antepassadas e dos momentos que levantarão essas questões. Esta transição de uma para outra fora um pouco confusa e não muito clara sobre quando Leonor era Leonor ou uma outra mulher de sua família, porém entendo também que talvez isso fizesse parte da construção dessa personagem tão complexa e perdida na falta e no excesso de memória que aquele momento traz. A evidência dessa confusão organizada que deixa o expectador participante sem fôlego é afirmada pela própria Leonor quando ela critica seu querer saber de tudo e suas perguntas infinitas serem taxadas como loucura ou desequilíbrio, assim como a maioria das mulheres são vistas ao não se comportarem da maneira padronizada que a sociedade espera e exige. Sociedade essa que nos faz fiscais umas das outras e que faz de nossas mães, principalmente, as percussoras desses pensamentos através de nós para que façamos o mesmo com nossas filhas e assim por diante em uma corrente infinita de padronização normatizada.  
  
Através de Leonor é possível ver como padrões sociais se repetem e como de pouco em pouco as mulheres de sua família foram quebrando-os de sua maneira e dentro do possível, ganhando reconhecimento só ao final da peça quando a personagem principal percebe que por mais que elas não tivessem quebrado todas as convenções e paradigmas em seu tempo, elas merecem sim o crédito pelo que fizeram para contribuir. Leonor também lamenta que diversas situações apenas se repetiram por repetir, como por exemplo: casar, ter filhos, cuidar da casa, coisas estas que aquelas mulheres fizeram sem talvez questionar ou se perguntar se era mesmo somente aquele o papel feminino. Até que, como disse, com o coração mais leve ela compreende que a multiplicidade feminina deve ser valorizada seja ela qual for, mas antes de tudo ela afirma que felicidade e amor devem ser os motivos primordiais para qualquer um destes. 
  
A problemática da desvalorização da memória, da não valorização do passado é trazida também fora deste contexto feminino quando a personagem faz uma referência inteligente e indireta a dois museus que pegaram fogo no Brasil- há quarenta anos atrás o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e tão recentemente o Museu Nacional – e sobre a população brasileira que assiste sua história sendo apagada, apenas chorando após o ocorrido poucas lágrimas de quem não vê que o futuro só existe porque previamente houve um passado, e como o reconhecimento deste fato nos ajudaria a não repetir os mesmos erros que nossos antepassados. 
  
Em uma jornada curta de uma peça foi possível ver e sentir o turbilhão de emoções e momentos de tantas mulheres de épocas tão diferentes, o que é sem dúvida de uma complexidade enorme. Mas principalmente mais do que histórias do passado, a peça instiga o autoconhecimento por meio do estudo deste, nos lembrando que não é necessário ser o que ninguém deseja além daquilo que você deseja para si mesmo. Leonor encerra sua jornada dizendo que entende como todas são parte dela, assim como ela também é apenas ela própria ao fazer suas escolhas. Fazendo-nos sentir que temos uma amiga que compartilha e deixar fluir nossas chamadas loucuras e nos incentiva a usufruir desta para uma manutenção mais saudável do que é existir e se conhecer, do que é ser mulher. 
  

Lívia Winter
Graduanda em Produção Cultural

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