[Teatro]: As Crianças




Teatro é vida no palco.

‘’A tarefa cenográfica deve ser fundida com a tarefa da ação dramática, movida pelo jogo do ator; além disso, deve haver uma correspondência escancarada entre a ideia fundamental e a música interna da obra, entre as sutilezas da psicologia e o estilo, o decoro da encenação. ’’
(Vsévolod Meyerhold)

Cenário. Uma mesa de madeira em posição diagonal à esquerda do palco, seis cadeiras também de madeira, um cavalinho de pau, uma imensa canequinha de ágata com uma planta, o espaço rescende a madeira, uma cena seca, ascética, holofotes em trapézios complementam a iluminação, os atores narram as ações e objetos imaginários, fisicalizados pelas palavras, passam a existir na imaginação do espectador, misturam-se com objetos físicos efetivamente manipulados pelos personagens.
Tudo é teatro. A peça começa, os atores entram no palco e introduzem algo ao encarar o público pedindo, quem sabe, cumplicidade, pensamento crítico, trocas imperceptíveis, pathos volitivo. É o início de um ritual de vida e morte, de glórias e perdas, de amor e dor, de ira e desespero, de amizade e desagregação, de reflexões sobre a vida e emoções incompreensíveis. O ator interpreta usando o texto da rubrica: ‘’flores em garrafas de leite, velas em garrafas de vinho...’’. Devemos ver isso que ele diz, queremos ver isso, podemos ver isso. Sim, nesse teatro, palavra é cena.
Um triângulo incongruente. Rose (Andrea Dantas), após 40 anos, aparece na casa de Dayse (Analu Prestes) e Robin (Mário Borges). Os três são cientistas que lidam com energia nuclear. Rose chega com uma proposta que irá perturbar a vida do casal. Mas ela só será revelada mais adiante, depois que muita água suja rolar pelos corredores das palavras trocadas com esmero – ou confusão. O casal teve quatro filhos, Rose diz que está velha e morrendo de medo, mas não está velha e nem tem medo, Laura é a filha complicada, não se ajeita no mundo, o acidente nuclear comparece na conversa, os ovos trepidam, a estrada racha-se ao meio. Presenciamos tudo isso através da criação artística da atriz que sustenta Dayse como personagem.
Teatro é linguagem. Algo de avassalador entra em ação através das palavras. Em alguns momentos a narração cria uma espécie de simultaneidade de cenas. Aquilo que Gerald Thomas gostava de fazer efetivamente em suas peças fazendo-nos presenciar cenas que aconteciam ao mesmo tempo, em diversas camadas, integradas e disjuntas, aqui é, muitas vezes, realizado de forma abstrata pelo recurso da fala. E mais, em outro plano, há construções cênicas plenas do encanto caraterístico do teatro: o mar é trazido ao palco pela sonorização feita pelos atores, um mar de verdade, um mar fictício, real, concretizado por aquilo que é validado no palco. Enfim, um naturalismo não naturalista.
Abyssus abyssum invocat. Seres humanos são seres humanos. O casal se entretém com picuinhas de casal. A intrusa cumpre seu papel de perturbar a serenidade da rotina, a beatitude dos relacionamentos longos e desgastantes, a falsa solidez que só a falta de vida exalta. Os tempos mortos da peça ocultam um simbolismo que está sendo engendrado, aplainam o caminho para sentimentos que explodem feito girândulas em noite de festa. Há, então, momentos fortuitos de grande teatralidade.

Cabe ao espectador decidir que crianças são essas do título. Os adultos quando os pirulitos entram na dança, parecendo doces brincadeiras de crianças lambendo um cadinho de nada com sabor de delícia? Os filhos do casal – e, por extensão, os filhos de todos nós – que herdarão esse mundo com acidentes nucleares, aquecimento global e agrotóxico como tempero de nossa comida do dia a dia? Na peça as vacas da fazenda de Robin e Dayse estão mortas. Poluição mata. Radioatividade mata. As crianças seríamos nós, o público, ingenuamente alheios ao processo de degradação da vida?
Confissões de lado a lado. Confrontações incongruentes. A revolta de Dayse: ‘’Eu devo estar lembrando da minha vida inteira de um modo errado’’. Yoga. Alimentação natural. Ecologia. A degradação da vida devido ao acidente nuclear parece se fundir com a lenta desintegração do corpo conforme a idade vai se tornando cada vez mais longa e, portanto, mais próxima do seu fim. A radioatividade polui como um agrotóxico universal. Semelha a um país qualquer saído da lata do latim na América das bananas. A tarefa mais difícil é morrer.
Os atores do espetáculo. Andrea Dantas faz uma bela estreia (substituindo Stela Freitas) como a mensageira do caos (ou da esperança). Mário Borges compõe um Robin em êxtases poéticos no acaso da vida. Analu Prestes – uma atriz na plenitude de sua arte – sustenta os tempos fortes de dramaticidade. Sua Dayse é uma espécie de vórtice por onde rios de sentidos e emoções se esvaem para o mar das incoerências humanas.
Ars longa, vita brevis. Tudo se passa como se Meyerhold visitasse Stanislavski na companhia de Brecht. O simbolismo em certas ações e nos cenários narrados, o foco na pessoa viva, ou seja, a ênfase na humanidade do ser e os efeitos de distanciamento/estranhamento dão a esse espetáculo um clima e um desenho profundamente contemporâneos. Suspeitamos que a tão decantada síntese esperada por Serguei Eisenstein se insinue por ali. A presteza dos atores quanto às técnicas que eles lançam mão torna cada cena algo belo de se testemunha. Trata-se de uma comemoração da teatralidade como tal. A cena final é pura celebração dessa arte tão sofrida e de tanto encanto.

‘’Na mise em scène e no jogo dos atores são produzidos novas recursos de imagens intencionalmente convencionados. Às formas da arte teatral se comunicam linhas de condensação premeditada- em cena nada deve ser casual. ’’
(Vsévolod Meyerhold)

Direção: Rodrigo Portella
Texto: Lucy Kirkwood (tradução Diego Teza)
Trilha sonora: Marcelo H e Frederico Puppi
Cenário: Rodrigo Portella e Julia Deccache
Figurino: Rita Murtinho
Iluminação: Paulo Cesar Medeiros
Preparação corporal: Marcelo Aquino
Assistente de direção: Mariah Valeiras
Elenco: Analu Prestes – Mario Borges – Andrea Dantas ()
Teatro Firjan SESI – quinta a sábado às 19h – dom às 18h – 02 de maio a 02 de junho
Av. Graça Aranha, 01 – Centro
 Marco Guayba
Ator, diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras 

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