[Crítica] Hellboy





2019 – 2h 01min.





O muchacho del infierno está no ringue outra vez.








Esta é exatamente a reação que podemos observar entre nós: exteriormente um homem é culto e, internamente, um primitivo [...]. Uma vez que a sombra individual é um componente nunca ausente da personalidade, a figura coletiva é gerada sempre de novo a partir dela. ’’






(Carl Gustav Jung)








HellBoy! A nova película do filho bastardo de satã é um filme leve, preferencialmente, para jovens e adolescentes apaixonados por histórias em quadrinhos. Leve? Não é bem o caso, pois trata-se de uma espécie de ‘’horror’’ pop. É mais um filme que tenta beber no filão dos supostos herdeiros ou sobreviventes alucinados do nazismo, que tentam de um modo ou de outro trazer de volta o terror do III Reich – ou coisa pior. Como se vê, é algo bastante atual.






Ab absurd. Perto de se encarrar a Segunda Guerra Mundial, os nazistas – enlouquecidos com o misticismo do FÜhrer e com a franca possibilidade de derrota dos exércitos germânicos – tentam criar uma arma mortal através de um ritual de magia negra conduzido pelo mago Rasputin. No entanto, os aliados surgem no último momento e ferram com o projeto do doido maior. Um saldo fica dessa ação: é um simpático garoto todo vermelho e com um punho forte. Ele é adotado pelo professor Trevor Bruttenhoim, um incansável lutador contra as forças das trevas, membro do Bureau de Pesquisa e Defesa Paranormal (BPDF). O fofinho do inferno logo é chamado de Hell Boy. Algumas décadas depois, o garoto escarlate passa a lutar contra as forças do Mal.






Bum! Pract! Crash! Trang! Esta é a terceira versão para o cinema deste personagem da Dark Horse Comics criado por Mike Mignola. As duas primeiras tiveram a boa sorte de contar com Guillermo del Toro na direção, fato que permitiu uma maior leveza na condução da história e uma criatividade maior. Nesta de agora, Neil Marshal (direção) e Andrew Cosby (roteiro) pegam pesado no acúmulo de cenas com violência extrema, jorro de sangue e esquartejamentos para dar a vender – o açougueiro agradece. Jack the Ripper deve estar morrendo de inveja. Só para registro: fique-se sabendo que o filme não foi bem nas bilheterias americanas.






A torto e a direito. Como diria Sartre ‘’nada é mais monótono do que uma catástrofe’’, a mente se acostuma a uma pancadaria sem sentido e esquece de pensar, sentir e fruir o que de artístico possa haver na obra. Tudo se resume e apreciar, ou não, a longa sequência de luta livre que se apresenta no início e se repete reiteradamente ao longo do filme. Ainda haverá a adição de uma ‘’pantera negra’’ branca, ou melhor, amarela (na verdade uma espécie de onça pintada) e uma verdadeira ‘’garota dos infernos’’, pelo menos no que diz respeito a combater no muque os celerados do demo.






Mito e ficção pulp. A verdade é que parece haver nas tretas do roteiro uma espécie de tributo à ‘’jornada do herói’’ conforme preconizada por Joseph Campbell. Em primeiro lugar, há o hieros gamos, o ‘’casamento sagrado’’, no caso o matrimônio com Nimue, a Rainha de Sangue. Se ele ocorre o mundo humano será destruído e o poder do Demônio reinará absoluto. É o que dá encarar de frente a anima na qualidade de pura negatividade. Em segundo lugar, o nosso querido Vermelhinho se reconcilia com o pai com quem ele antes tratava várias batalhas verbais ao modo de qualquer adolescente que se sente o ‘’patinho feio’’ da história. Então, vem a apoteose que propicia o ordenamento do ‘’Eu’’ (o reconhecimento de si mesmo): o filho aceita sua derradeira herança, o legado do pai, e se torna assertivo e pronto para mais pancadaria, toda a que vier pela frente. E, por fim, a possa da dádiva da vida e da morte. Ele renunciará a ela? Ou se tornará a besta que tantos temem seja seu destino e sua verdade oculta?






Fun or disgusting? Há que se fazer uma menção honrosa à impressionante caracterização de vários personagens como Baba Yaga e o próprio Hell Boy. Aliás, o ator David Harbour dá conta do recado bonitinho. E a bela Milla Jovovich convence como a bruxa-mor que tenta fechar o ciclo da raça humana sobre a Terra. Tem também a mensagem política enunciada pelo peregrino dos chifres rapados: tem que haver um mundo em que monstros e humanos possam viver juntos. Ah, não podemos esquecer a ironia (ou vingancinha) yankee de colocar uma criatura de Satanás como o rei de toda a Bretanha. Enfim, para quem gosta, é um belo ensopado. Enjoy your movie! Ou não.












‘’Hell Boy’’ -  Fantasia de horror – 2019 – 2h 01min




Direção: Neil Marshall




Roteiro: Andrew Cosby (baseado em personagem de Mike Mignola)




Música: Benjamin Wallfisch




Com:  David Harbour – Milla Jovovich – Ian McShane – Sasha Lane – Terry Kinney – Penelope Mitchel – Daniel Dae Kim – Brian Gleeson – Sophie Okonedo – Alistair Petrie – Mario de la Rosa – Atanas Srebrev – Kristina Klebe – Thomas Haden Church






Marco Guayba

Ator, diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras 



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