[Teatro]: Educação Siberiana




Era uma vez na U.R.S.S. 
  
‘’Estou só. Uma vez a cada cem anos, abro a boca para falar e minha voz ressoa neste deserto tristonho, mas ninguém me escuta...’’ 
(fala de Nina interpretando um texto de Trepliov – personagens da peça A Gaivota, de Anton Tchekhov) 
  
O conflito entre o novo e o velho. Um mundo em ruínas, se fragmentando, abrindo espaço para a violência e para uma corrupção desenfreada. O fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas traz um mundo novo de possibilidades: calça jeans, McDonalds, rock’n’roll, cultura americana, deterioração americana, drogas, cigarros, bebidas, tudo americano, morte americana, corrupção americana. A caixa de Pandora foi aberta e dela escaparam todas as misérias humanas. Essa parece ser a reflexão feita por Nicolai Lilin, o autor do texto, que traça um painel bastante sombrio sobre a Mãe Rússia dos dias atuais. Não é que não houvesse crimes e corrupção antes, na antiga URSS, mas a perestroika teria aberto as portaspara a vorocidade tipicamente capitalista. Aquilo que foi reprimido em excesso retorna em profusão, como uma enxurrada excessiva, demasiadamente brutal e incontrolável. 

Doxa e Nexo. Os valores da comunidade siberiana vão sendo destruídos pelas transformações políticas e sociais. Os anciãos vão perdendo sua imponência, sua respeitabilidade, sua autoridade. Vão sendo deixados para trás em vista das engrenagens absurdamente cruéis da História. Qualquer crime se torna válido, inclusive o estupro e a agressão de uma menina ingênua e com dificuldades mentais. O assassinato se torna algo corriqueiro. Vovô Kuzia, o líder da comunidade, vai se tornando uma peça de museu, um item a ser descartado, uma peça inútil, incapaz de dar conta das necessidades humanas prementes nesse caldo de cultura de liberdade para tudo e respeito por nada. 

A vida cindida. Boris segue as tradições da comunidade, luta para ter o respeito do avô, quer garantir a estabilidade de seu mundo. Iuri segue as contradições da liberdade Yankee, todas as corrupções não lhe são estranhas, uma calça jeans é o signo de sua desesperança, ser o rei, o dono do pedaço, aquele que manda é tudo em sua  vida. Liberdade é a liberdade de corromper e de matar o inimigo – ou quem esteja simplesmente em seu caminho. 

Contradição das contradições. Vovô Kuzia impõe que as regras da comunidade devem ser devidamente seguidas, prega o amor a Deus e sua supremacia sobre os destinos humanos, mas ensina a matar em nome da liberdade e da justiça – utilizando para isso técnicas precisas e altamente eficientes. Depois se surpreende com os assassinatos em vão e a falta de respeito pela vida humana. É outro mundo, novo em suas formas de agregação e desagregação, o velho escorre pelo ralo como um torvelinho inevitável, o novo é vendido no submundo como um êxtase a ser experimentado e sorvido com ganas de vencer e sobrepujar. 

O elenco da peça é seguro e intenso. Samir Murad no papel de Vovô Kuzia dá uma demonstração viva de seu talento e de sua técnica como ator, conferindo dignidade e expressividade à personagem. Seus gestos e sua dicção permitem-nos ver a cena como puro teatro apontando para uma realidade, trazendo-a a cena, sem copiá-la ingenuamente. Os outros atores vãos pelo mesmo caminho. Cícero Ferreira sabe dosar com rigor dramaticidade e humor. Mariana Martins é uma menina apesar de não ser uma menina. Daniel Marano apresenta um jovem fiel ao avô, porém divido entre dois mundos. Thais Vaz transmite a dor seca de uma mulher sem cidadania de mulher. Alexandre Galindo, Felipe Miguel e Alvaro Bior fazem os policiais/mafiosos com a (des)necessária brutalidade e comportamento de superfície. 

Os figurinos separam bem os dois grupos, o da comunidade siberiana e o dos policiais/mafiosos, com delicada beleza e agressividade rudimentar. O jogo de luz além de gerar uma ambiência, digamos, expressionista, faz um eficiente trabalho de separar as cenas e certas ações específicas. A trilha sonora sublinha/pontua a ação, ajudando a construir o clima de cada momento do drama. O cenário é uma beleza para a inteligência do espectador, um único elemento é utilizado de diversos modos de acordo com seu valor de uso/expressão: uma mesa que se transforma em murada, em maca, em esconderijo e tudo o mais que for necessário para a construção de cada cena. E tem ainda os porcos. Ah, os porcos... A direção? É tudo isso e mais alguma coisa. 

‘’Para que ele está falando isso, para que ele está falando isso?’’ 
(fala de Nina, em A Gaivota) 

‘’Educação Siberiana’’ 
Texto: Nicolai Lilin 
Direção: Gustavo Paso 
Assistência de direção: Felipe Miguel 
Figurinos: Thaís Vaz 
Cenário: Gustavo Paso 
Direção de movimento: Reinaldo Dutra 
Iluminação: Bernardo Lorca 
Trilha sonora: André Poyart 
Com: Samir Murad- Cícero Ferreira – Alexandre Galindo – Daniel Marano – Felipe Miguel – Mariana Martins – Thaís Vaz – Alvaro Bior 
  
Teatro I – SESC Tijuca 
12 de abril a 05 de maio – sexta a domingo – às 20h
Marco Guayba
Ator, diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras

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