[Crítica]: O mau exemplo de Cameron Post




Quando o feminino se interessa pelo feminino.

Enfim, cara vieste – e bem. Com ânsia te esperava – e muito. Que saibas: em minha alma acendeste um fogo que o devora.
(Safo)
Premiações e notas. O filme, com roteiro adaptado do livro homônimo de Emily M. Danforth, participou do Festival de Sundance onde foi aureolado com o Grande Prêmio do Júri. Depois foi finalista no Troféu Bandeira Paulista na mostra de Cinema Internacional de São Paulo. Também foi premiado no Festival de Cinema Gay de Madrid, o LesGaiCineMad, e abocanhou dois troféus no Festival Internacional de Valladolid, ambos na Espanha. Recebeu entusiasmados elogios do The Hollywood Reporter, do The Guardian e daVariety, que ressaltaram a importância dessa obra para o público gay, principalmente os adolescentes que ainda estão tentando resolver seus conflitos quanto ao seu desejo e a sua identidade num mundo ainda geralmente avesso a estas opções.

‘’As estrelas ao redor da lua bela longe o brilho escondem quando, plena de fulgor, mais ela se entorna cheia pela terra.’’
 (Safo)
O tema temido. O que lhe resta se a pessoa é tomada por um desejo que não é aceito pela comunidade? No caso de Cam, Cameron Post, uma adolescente que estava descobrindo sua própria sexualidade, ela vai parar no centro Promessas de Deus, uma instituição que se dedica á cura gay. Mas como não há cura para o que não é doença, a doce menina passa a odiar-se ao tentar passivamente seguir as orientações do ‘’processo’’ e anular a si mesma.



A família-Estado. Os pais de Cam haviam morrido bem cedo e ela fora criada por uma tia, que ela adora, mas que tem valores, supostamente cristãos, sólidos demais. Ela é quem tem a esperança de que a adolescente possa se tornar aquilo que ela não é, uma heterossexual modelo, uma persona de ‘’cidadã de Bem’’ em uma família aceita, humilde e comportada. A mestra de cerimônias das Promessas de Deus, em absoluta ignorância dos arquétipos em jogo, identificada a um superego extremamente rígido, especializou-se em uma espécie de malabarismo mental aversivo que acaba por levar um dos internos a um ato extremo.
Fuga para a verdade. A vida tem seus próprios caminhos e Cameron forma sua comunidade, dentro da comunidade terapêutica, com alguns de seus colegas de dúvidas e infortúnios – uma moça negra que usa uma prótese na perna esquerda e um ambíguo descendente de índios -, podendo  assim viver um outro processo dentro do ‘’processo’’ demandado pela repressiva política institucional. Seus amigos ajudam-na a compreender – ao menos em parte – o seu lugar no mundo e suas opções na vida possível na sociedade em plena década de 1990. Sua jornada implica em camaradagem e perdas, opressão e ousadia para enfrentar de peito aberto os riscos e as adversidades presentes mundo.
O fulcro. Praticamente todas as cenas do filme são em torno de Cam ou contam com a presença dela. Quando isso acontece significa que a personagem é a guia da história e suas benesses e sofrimentos, assim como suas questões de vida, são o foco, o cursor, que captura o espectador e o levam a uma reflexão mais premente e a experienciar esteticamente a obra pelos olhos dessa figura narrativa.
Não se trata de ciência. Nenhuma hipótese ou teoria é apresentada pela personagem pra justificar suas tentações de AMS (amor pelo mesmo sexo). Também não são apresentadas pela líder do Promessas de Deus, apenas é dito que é mais um pecado que, como tal, deve ser energicamente combatido. Há um simulacro de terapia, pois seu fim não é o bem estar – ou a cura – do sujeito, mas garantir certa regra moral.

Sessão pipoca. A estrutura do filme é relativamente simples, não oferece dificuldades á apreensão feita pelo espectador, e repete o que já foi feito em inúmeros filmes em que o tema é a exclusão  ou domesticação de um indivíduo devido a alguma afronta ao establishment. Fora por algumas cenas mais quentes, qualquer dia, no futuro, poderia até passar na sessão da tarde.
‘’Com brandos pés dançavam, certa vez, as raparigas de Creta. Lentas rodavam ao redor da ara, macias pela erva, delicadas, mal pisavam as flores campestres. Assim dançavam certa vez, raparigas de Creta, com brandos pés... ’’
 (Safo)
‘’O Mau Exemplo de Cameron Post’’
Direção: Desiree Akhavan 
Com: Chloe Grace Moretz – Sasha Lane – Forrest Goodluck – Jennifer Ehle – John Gallagher Jr. – Emily Skeggs
Marco Guayba
Ator, diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras.

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