[CRÍTICA] "O Gênio e o Louco’’ (The Professor and the Madman) – 125 min






 O delírio das grandezas e o delírio de perseguição. 

‘’Seria preciso que o pai [...] representasse, em toda a sua plenitude, o valor simbólico cristalizado em sua função’’
(Jacques Lacan)
O filme é uma adaptação do livro The Surgeon of Crowthorne: A Tale of Murder, Madness and the Love of Words, de Simon Winchester, publicado em 1998, que se tornou sua obra mais lida. O roteiro conta a história de dois homens obcecados: um pela obra de sua vida e o outro por seus fantasmas.
O primeiro é o Professor James Murray (Mel Gibson), da Sociedade Filológica de Londres, editor do Oxford English Dictionary, filólogo autodidata, irlandês de origem humilde, que dedicou 40 anos de sua vida a esse trabalho gigantesco. Ele sonha com o absurdo de coletas todas as palavras, sem que nenhuma falte, presentes na língua inglesa em todos os países e regiões onde ela fosse praticada. No entanto, a língua é uma coisa viva, e novas palavras sempre irão surgir, furando esse delírio de grandeza.
O outro é Dr. William Chester Minor (Sean Penn), paciente há mais de 20 anos, em um asilo para criminosos dementes, em Crowthorne. Ele é de nacionalidade americana, médico, e se tornou o mais produtivo dentre os milhares de colaboradores voluntários que se tornaram essenciais para a criação do dicionário.
Para se ter ideia da importância do Dr. Minor, basta saber que ele enviou mais de 10 mil inscrições, e que foi quem encontrou a chave (‘’um dicionário dentro do dicionário’’) para deslanchar a obra que se encontrava um tanto paralisada em meio a milhares de palavras desconectadas e desarticuladas.
O Professor Murray desconhecia que o seu maior colaborador estava ‘’preso’’ por ter assassinado um rapaz que ele confundira com outro, personagem de seus delírios alucinatórios. Em seu julgamento, o Dr. Minor se mostra firme em dizer que não estava louco, mas, sim, que era efetivamente perseguido por alguém que teria uma marca na face esquerda. Sua convicção mostra-se absolutamente inabalável. Seus delírios e seu sofrimento cedem apenas quando, no asilo, ele começa a colaborar com o dicionário.
O médico do Asylum o apoiava por acreditar que a cura de seu paciente poderia revelar algo que contribuísse para a sua própria cura. Mas quando ele regride, em função do insuportável do amor de uma mulher, a mesma que fora esposa de sua vítima e o perdoara, o médico se vinga com um tratamento invasivo brutal que leva o Dr. Minor à um estado de demência.
A palavra paranoia é um termo de origem grega que significa loucura, desregramento do espírito, e o seu uso em psiquiatria é muito antigo. O Dr. Sigmund Freud, por exemplo, inclui na paranoia o delírio de perseguição e o delírio das grandezas. Ele a define pelo seu caráter de defesa contra a homossexualidade. Para Melanie Klein, um ego muito pouco integrado possui uma condição limitada para suportar uma angústia intensa de natureza persecutória devida ao mau objeto internalizado. Já Jacques Lacan considera a ausência no sujeito da função paterna simbólica, que devido a isso perde-se num estado confusional. As alucinações operam em decorrência do que lhe está faltando no nível simbólico.
Ao se entreter com a vastidão do universo das palavras, o Dr. Minor encontra um restabelecimento parcial e provisório. Ao lidar em profusão com os significantes algo põe em ação um processo em que o sujeito pôde significar minimamente e que antes lhe escapava de forma avassaladora. Porém, ante a impossibilidade de lidar com o desejo sexual pela mulher, ele se feminiza numa cena de forte impacto cinematográfico.
Na construção do filme há rigor na reconstituição de época, a excelente fotografia tem momentos de brilho na construção plástica, a exemplo da cena que mostra a dor da mulher que perdera o marido. Todos os atores atuam muito bem conferindo a necessária dramaticidade a seus personagens, mas Sean Penn é um caso à parte, pois está magnífico na pele do sofrido Dr. Minor.
Ao fim de tudo, permanece a curiosidade de o dicionário máster da língua inglesa ter sido feito por um irlandês em colaboração com um americano. O que o império britânico outrora exportou como cultura e dominação colonial acabou retornando como um tesouro de sua língua pátria.

’O Gênio e o Louco’’ (The Professor and the Madman) – 125 min
Direção: Farhad Safinia
Com: Mel Gibson – Sean Penn – Natalie Dormer – Ioan Gruffudd – Jennifer Ehle – Jeremy Irvine – Aidan McArdie – Adam Fergus – David Crowley – Brian Fortune – Bryan Murray – Kieran O’Reilly – Christopher Maleki – Sean Dugan – Bryan Quinn – Steve Gunn – Olivia McKevitt – Joe McKinney – Malcolm Freeman – Shane Noone
Marco Guayba
Ator, diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras 





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