[Crítica Musical] Track By Track: "Ladrão", Djonga lança seu terceiro álbum de estúdio


Hey hey, desconexão Leitura, eu sou João Victor e hoje trago aqui uma crítica ao mais novo álbum de Djonga, o "Ladrão", e esta é uma matéria diferente, sim! É um Track-by-Track (faixa por faixa, pros não fluentes kkk) vou explorar cada faixa do CD e no final trazer a conclusão pra vocês. Dito isso, abram alas pro rei e boa leitura!



1- Hat Trick
Djonga começa como faz em todos os álbuns, um rap 300 palavras por minuto. Hat trick dá a ideia de como vai ser o álbum porém não necessariamente na letra, que é um pouco distante do que o álbum apresenta. Djonga retrata o racismo, um prefácio do nome do álbum: Ladrão, e se intitula o rei do rap. Me lembra Atípico, faixa do segundo álbum e acredito que tenha sido um meio de chamar a atenção pro cd com uma rima mais pesada mesmo não sendo a vibe do álbum - Prova disso é que a música ficou várias horas em alta no youtube e teve diversos reacts, o verdadeiro truque do chapéu.

Paráfrase: "Cê vai ser mais um preto que passou a vida em branco?"

2-Bené
Nessa faixa, Djonga fala do pertencimento a favela e a importância de não se perder pros crimes e luxúria, com o próprio refrão: "Pega a visão, não vai se perder, não". Djonga retrata a vida do jovem negro que vêm de baixo e não deve se encantar com a vida criminosa já que quase todos são vistos como ladrões mesmo sem ter cometido algum crime, e que é importante contrariar as estatísticas. A batida me lembrou um pouco Racionais Mc's, a letra muito forte retratada de forma branda, talvez para ficar bem claro o que ele quer dizer. Além disso, Djonga tem uma ótima desenvoltura vocal nessa música, coisa que a gente vê bastante nesse álbum e que eu achei muito bom.

Paráfrase: "Playground de gente adulta é trampo"

3- Leal
Devo admitir que assim que ouvi essa música, associei logo a '10/10' música de Djonga do segundo álbum, pois é uma música de amor para sua amada que achei que seria a única ou uma das únicas do álbum nessa vibe e fui completamente surpreendido e vocês vão ver isso nas próximas faixas haha. Como parafraseei o mesmo aí em baixo, Djonga costuma fazer muita citação sobre deus e diabo e como ele mesmo já fez no clipe de 'Junho de 94', trazendo a figura da mulher como deus. O rapper também nos dá um spoiler do Filipe Ret (que é o feat da próxima faixa) em uma citação.

Paráfrase:"Ela deitada é a criação do mundo no sétimo dia, Deus descansando. Ela de pé estátua da liberdade me faz crer que eu posso tudo, Deus me testando".

4- Deus e o Diabo na terra do sol
Chegamos em uma das minhas músicas preferidas do álbum, e eu sei que de vocês também kkk. Essa música é muito única e artística, a batida te submerge imediatamente à lúdica terra do sol e a letra é muito linda; Na minha opinião Djonga e Felipe fazem alusão majoritariamente as mulheres, representadas por deus e ao diabo, representado por eles mesmos. Essa composição é muito identitária de ambos os artistas, uma vez que Djonga e Ret falam sobre si, suas questões e também sobre mulheres. Os dois têm letras muito artísticas para se referir a elas. O que me impressiona é como eles conseguiram falar de dois assuntos completamente diferentes em tempos diferentes na música sem que fique muito perceptível. Amei o coral ao fundo no final reforçando a ideia do paraíso e assim que terminei de ouvir pela primeira vez quase chorei de tão artístico que foi isso.

Paráfrase: "O amor é o mais alto grau da inteligência humana."

5- Tipo
Fiquei muito impressionado com a batida inicial da música junto com a voz do Mc Kaio pois é muito diferente do que Djonga costuma fazer, é meio dançante e gostoso. Lembra que eu falei lá em cima que o álbum contava com várias músicas de amor e apaixonantes? A saga acaba aqui kkk. E pra finalizar Djonga nesse feat quer ressaltar o tipo de mulher que é descrito na música, de um jeito dele fala o quanto está apaixonado pela citada e de novo faz associação da mulher com Deus. A desenvoltura vocal do Djonga está muito boa nessa música também.

Paráfrase: "São noites em claro só pensando em você, mina essa bunda é uma benção, pique um episódio que eu não posso perder."

6- Ladrão
Nesta faixa, é concretizado o nome do álbum, Djonga em Hat-trick havia nos dado uma breve explicação do porquê do nome do álbum e nessa música ele deixa mais explícito a causa disso, Djonga fala em roubar o que foi lhe roubado antes, tudo dele que foi apropriado por alguém e tomar o que é seu de volta. Acredito que ele também ressignifique o ladrão da história pra uma visão dele, ele se diz ladrão por conta do estigma criado do preto-ladrão e por estar ganhando muito dinheiro e fazendo sucesso. Djonga aceita este adjetivo como algo bom, um ladrão que não divide mas sim multiplica. Na minha opinião é uma faixa bem complexa do álbum, daquelas faixas que não é para todos entenderem e gosto muito disso, Karol Conka tem muito de falar entre códigos e isso é raro vindo de Djonga, mas acho bom ousar e transcrever o que de fato serve pra quem entende e só pra quem entende vai servir kkk.

Paráfrase: "arte é pra incomodar, causar indigestão antes de tu engolir te trago um prato cheio."

7- Bença
Chegamos na minha faixa preferida! e vou explicar os motivos do porquê. Bença é uma música de homenagem a avó de Djonga com uma letra muito foda e emocionante, ele descreve sua vó como uma pessoa muito importante em sua vida, seu porto seguro quando ele precisa, além de falar do seu pai que foi presente sempre em sua vida e do seu filho Jorge. Logo associei essa música a 'Canção pro meu filho' que também é uma música em homenagem ao filho de Djonga. Essa música significa tanto pra mim pois também consigo identificar muito minha vó e várias avós nesse brasil, além disso amei as vozes no começo do filho dele e no final, da avó achei muito bem pensado e enfim, essa música é muito emocionante, recomendo a vocês que ouçam e sintam ela bastante.

Paráfrase: "Então volte pras suas origens, é no colo de quem cê ama, será que entende do que eu to falando é nessas coisas que deixa acesa a chama."

8- Voz
Essa música é a que tem a melhor composição no álbum pra mim. Djonga, Doug Now e Chris MC contam nessa rima as dificuldades de ser um jovem negro no Brasil, e que mesmo a visão das pessoas sobre o negro não tenha mudado, é necessário permanecer na luta e continuar vivo sendo quem é. Acredito que Djonga escolheu este nome para a canção pois cá estão três jovens negros vivendo de sua arte, falando o que querem e as vozes deles, mesmo tentando ser apagadas, são potentes e fortes demais para ser minimizadas, tendo em vista que os três artistas citados hoje fazem parte de um lugar de poder e estabilidade em sua profissão. Achei muito boa a colocação do beat na música, a linha melódica de cada um estava adequada, e muito inteligente do Djonga de querer colocar uma emoção na música, mesmo não atingindo tais notas mas colocar alguém que atinja para trazer o resultado esperado.

Paráfrase: "Sua visão sobre mim ainda não mudou, não vai ser da forma que tu quer. Sempre faço questão de ser quem sou, mais honrado morrer sendo quem é e tamo aí né?"

9- Mlk 4trev1d0

Esse interlúdio é muito interessante, pois nele Djonga faz uma rima totalmente livre de beat, arranjo, auto-tune e etc., é só a voz dele ali crua dizendo o quanto ele é muleke atrevido e o quanto as pessoas devem respeitar sua história e a história de pessoas como ele que foram muito longe a partir de muito trabalho e o "atrevido" colocado na música diz muito sobre fazer o impossível acontecer: um preto chegar no topo! Eu gostei muito dessa rima porquê ela é bem direta e nos seus 1min e 25seg já é muito mais edificadora que algumas músicas com 4, 5 ou 6 minutos, cês podem perceber também que conforme o álbum vai acabando a gente vai sentindo isso nas músicas e eu gosto muito disso.

Paráfrase: "Por isso vê lá onde pisa, respeita a camisa que a gente suou respeite quem pôde chegar onde a gente chegou."

10- Falcão
Na música pra fechar esse álbum maravilhoso, Djonga faz uma retrospectiva de seu passado e sua vida atual, com uma letra muito emocionante, Djonga nos faz viajar na sua história e na nossa própria, nos mostrando que todos somos falcões e voamos alto após todas as nossas dificuldades. Eu amei essa música e toda vez que a ouço me dá vontade de chorar pois Djonga quis explorar a segunda voz nessa música e os trompetes deram de fato a emoção e a sensação de pertencimento que a música busca dar. Além disso, adianto que Djonga soube terminar muito bem seu álbum  e eu não vejo música melhor para finalizar essa era senão falcão.

Paráfrase: "Eu sigo naquela fé que talvez não mova montanhas mas arrasta multidões e esvazia camburões, preenche salas de aula e corações vazios. E ainda dizem que eu não sou deus, porra! Eu ainda faço milagre."


O álbum todo é completamente instigante desde a primeira música, que já dá a vontade de descobrir o que há nas outras, Djonga trabalha muito a poesia e a realidade nesse CD e acredito que tenha sido um processo evolutivo, pois seu primeiro álbum, o 'Heresia' é muito realidade e "soco na cara" enquanto 'O Menino Que Queria Ser Deus', seu sucessor, é um "mix" de realidade com poesia e exploração da vida pessoal do cantor. É muito importante ser citado que esse é um álbum muito pessoal de Gustavo, mais conhecido pelo alter ego Djonga, pois mostra constantemente o "Eu'' ao invés do "Nós", ele conta muitas histórias de sua vida que consequentemente se encaixa com a história de vários jovens negros e isso é o que mais me encanta no álbum.
Além disso, Djonga explora a sonoridade vocal dele com êxito em todas as faixas, segundo o próprio em uma entrevista a OneRpm isso diz muito sobre profissionalismo, e, de fato mostra uma qualidade que não se pode passar despercebida neste álbum que no primeiro, não há muita amplitude das notas. As melodias também se encaixam perfeitas a voz do rapper e traz uma vibe ao que de fato foi executado: um trabalho bem feito.
Portanto, acredito que este disco tenha uma temática muito importante e inteligente tanto nas suas idéias corporativas, quanto na estética e estrutura, com citações presentes, políticas e importantes. É importante ressaltar que, como sempre a voz e letras do Djonga é a protagonista de todo o álbum, você nem foca muito na melodia inicialmente, por isso foi necessário que eu ouvisse centenas de vezes este CD para escrever essa crítica que trago comigo que sim! Djonga é o rei do Rap brasileiro atual e se supera a cada trabalho.           


Texto: João Victor Carneiro
Compositor, escritor,digital influencer e técnico de negócios
Instagram: @joaoo.victtor13



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