[Teatro] – ‘’Por Favor Venha Voando’’


‘’Quando nada acontece há um milagre que não estamos vendo. ’’
(Guimarães Rosa)

A peça fala de Debora e Inez. Duas atrizes que decidiram, em algum lugar da estrada, compartilhar suas vidas e agora apresentam no palco a ficção delas mesmas e de suas experiências nisso que se chama uma relação amorosa. Explicitam a questão: ‘’Que movimento é esse de ficar em uma relação?’’
Do início ao fim só as duas atrizes em cena, black-out, sons inconclusos, uma mesa no canto, black-out, o palco é uma cama, uma imensa cama, do tamanho do sonho dessas criaturas que se amam. ‘’O que fez você ficar?’’ A pergunta explode em pleno espaço cênico aturdindo palco e plateia, repercutindo nos espelhos-ouvidos de cada um dos convidados desse banquete a dois no qual cabem todos os demais. A plateia está ali para compartilhar.
‘’Você tem que contar a história direito’’. Elas brincam com as memórias uma da outra, memória afetivas, dessas que só lembram do que marcou aquele encontro feito de paixão. A forma como cada uma vivenciou a cena não é a mesma, embora um laço afetivo de grande ternura as tenha apanhado no mesmo ato. A experiência viva do primeiro toque da outra. Ali algo se fez eterno. Namoro. ‘’Que movimento é esse?’’
Arroz. Vamos casar. Taça de vinho. Vamos casar. Entrega. Coragem de enfrentar o desafio de viver uma vida a dois. Eu quero. Coragem de enunciar seu desejo. Memórias de um encontro delicado. E intenso. Voraz. Tão fugaz quanto um beijo. Por isso renova-se constantemente com humor e amor, com furor e rumor. Tudo foi feito. Tudo ainda está por se fazer. Somos Yoko e John. Cuba Libre em Havana. Frida Kahlo na arte da vida. Um brinde para celebrar esse fracasso. Para comemorar a insistência do afeto. Filosofia-vida. Reflexões sobre uma história vivida na mesma cama. A cama como metáfora daquilo que no amor não se pode nomear.

No segundo ato, se é que há um segundo ato, muitas vidas precipitam-se sobre uma única vida, sobre o que talvez se possa chamar de destino, desatino, um jogo de vozes, uma sonatina. Ei! Fala comigo! Um urro animal. Um sussurro no ventre do vazio, da solidão, da angústia peregrina. Ei, ‘’agora o seu rosto começa a mudar pelas bordas, seu rosto está perdendo o contorno, é um animal... ‘’Momento de recriar o contrato, o pacto, de dois não fazer um, mas fazer dois.
O  canto de Lorelei de si. O vago, a falta, o casamento e logo ali, o sexo é um dizer do corpo, a voz é um dizer de algo que está mais além, um gozo, uma irrupção verbal abissal, um jorro que se quer não interdito, um infinito com seus contornos imprecisos, estelares, ‘’o que é isso que eu vejo em você?’’ Atravessar as delícias e as agruras de uma relação é para deuses humanos, demasiadamente humanos, imperfeitamente humanos.",
A atriz-personagem enuncia uma declaração de princípio sobre o amor que as une: ‘’é bela essa certeza, mas é mais bela a incerteza.’’ Ao fim de tudo, ou início de um novo ciclo, a regeneradora menção a Wislawa Szimborska: ‘’Cada começo, é só continuação, e o livro dos eventos está sempre aberto no meio’’.



‘’Por favor Venha Voando’’
Texto: Pedro Kosovski
Direção: Georgettte Fadel
Direção de arte: Simone Mina
Luz:  Ana Luzia  de Simoni
Direção sonora: Xád Chalhoub
Com: Debora Lamm e Inez Viana

CCBB Teatro II
14 de mar a 29 de abr – quinta segunda as 19h30

Marco Guayba
Ator, diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras




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