06/03/2019

Crítica: O Rei de Roma (Io Sono Tempesta)


Um conto de fadas capitalista entre o carnaval e a loteria.

''Ao contrário, o riso popular ambivalente expressa uma opinião sobre um mundo em plena evolução no qual estão incluídos os que riem.'' 
(Mikhail Bakhtion)

Numa Tempesta (Marco Giallini) é um empresário bastante ativo, mas solitário, que mora nos hotéis que adquire. Ele não se furta a gastar dinheiro desde que obtenha alguma vantagem com isso. Este senhor só sabe se relacionar baseado no valor de compra ou de venda do que quer que seja (ou de quem quer que seja). Com Numa tudo é motivo de lucro e folia, e - o que é decisivo na narrativa - uma oportunidade de riso e ironia. Quando se trata de fazer negócios ele é um verdadeiro furor pulsional, nada o detém, a não ser a lei, é claro: essa bufão folclórico - ousado e tolo ao mesmo tempo - é condenado por realizar transações nada convencionais, e vai cumprir uma pena alternativa no serviço social onde terá que dedicar-se a tarefas humildes com pessoas humildes. 

Lá ele estabelece uma relação que se poderia dizer ''carnavalesca'' com uma população que se situa às margens do sistema: indigentes, desempregados, moradores de rua e desajustados de todo tipo. Para Bakhtin o conceito de ''carnaval'' remete ao que ''era o triunfo de uma espécie de liberação temporária da verdade dominante e do regime vigente, de abolição provisória de todas as relações hierárquicas, privilégios, regras e tabus.'' Entre idas e vindas, desajustes e acordos maliciosos, Numa e os indigentes participam alegremente (mas nem sempre) tanto das benesses  da vida milionária do primeiro quanto da sordidez e baixeza da existência dos desfavorecidos. As distâncias são (aparentemente) reduzidas e as diferenças são implausivelmente superadas - o que também remete, através de claras imagens de cinema, à ideia de carnaval ''em que todos eram iguais e onde reinava uma forma especial de contato livre e familiar entre indivíduos normalmente separados na vida cotidiana''. 

Numa tempesta também se confronta com a responsável pelos cuidados com esses pobres coitados, pois ela se dedica ao outro ab imo pectore (do fundo do peito). Ela é uma mulher firme, por vezes moralmente rígida, diligentemente religiosa que busca, antes de tudo, uma razão ética para o seu trabalho e para os seres humanos que pretende ajudar. É bastante refratária às investidas capitalistas deste senhor de muitas riquezas: ''Eles precisam ser ouvidos e não de lagosta''. Empatia é sua palavra-chave: para ela, é o que poderá permitir que aquelas pessoas possam de alguma maneira se reerguer. 

A figura da prostituta Radiosa ilustra muito bem a ''lógica original das coisas 'ao avesso', 'ao contrário', das permutações constantes do alto e do baixo'', e o desmoronamento promovido pelo riso através das ''diversas formas de paródias, travestis, degradações, profanações, coroamentos e destronamentos bufões.'' O diretor e roteirista Daniele Luchetti tira um sarro das relações sociais convencionais ao introduzir uma bela e generosa moça que ganha a vida com o corpo, mas que é estudante de psicologia e usa seus clientes para exercitar-se em sua futura profissão. É uma espécie de redenção da profissão mais antiga do mundo? Ou apenas mais uma tentativa de mostrar que por trás das coisas sérias há sempre tendências, mais ou menos ocultas, que visam coisas totalmente diferentes do que aparentam? Afinal de contas, tudo pode ser aproveitado, e fazer a vida não deveria ser apenas uma questão de vender prazer? Acta est fabula. 

A frase clássica do arlequim Dominico ''Castigat ridendo mores'' (rindo se corrige os costumes) cairia como uma luva nesse comédia sem pudores laicos ou clericais. A ambiguidade presente na obra é ressaltada na cena final em que um bando de indigentes sai inacreditavelmente vencedor, agraciado com as benesses do Capital, graças ao ''amigo-fada'', que faz com que o maravilhoso pareça real, e que aos novos empreendedores seja facultada uma oportunidade mágica de um grande negócio. Conformariam eles, então, a exceção que confirma a regra? Seria o ardiloso empresário, ab absurdo, uma fada madrinha rude e atípica? Ou, quem sabe, uma cretina bruxa má do leste que corrompe vidas e desejos? Seja como for, para o espectador, é uma oportunidade de riso garantida. E, oxalá, de uma alegre e profunda reflexão sobre o estágio de nossa sociedade.

''O Rei da Roma'' (Io Sono Tempesta) - 2018 - 1h 37
Direção:  Daniele Luchetti 
Roteiro: Daniele Luchetti - Giulia Calenda - Sandro Petraglia 
Com: Marco Giallini (Numa Tempesta) - Elio Germano (Bruno) - Eleonara Danco (Angela?) - Marcello Fonte - Francesco Gheghi - Franco Boccuccia - Paola da Grava - Jo Sung - Federica Santoro - Carlo Bigini - Elena Bouryka


Marco Guayba
Ator, diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras





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