06/03/2019

Crítica: O Último Trago




‘’Os filmes procuravam expressar não situações dramáticas, mas sentimentos, estados de espírito, ambientes, aspirações, nostalgias, associações de ideias…’’


(Jean-Claude Bernadet, a respeito da ‘’
Avant-Garde’’ francesa dos anos 20)



Roteiro sem guia. Na abertura do filme, um mapa antigo é queimado na tela, ouve-se sons de mar e depois vê-se a imagem do mar. Um homem vem nadando, sai da água, tira suas roupas, entra num carro e resgata uma mulher que cai á beira da estrada. Num quarto de hotel, ou do bar que é cenário central do filme, ela acorda, encontra uma foto velha, amassada, lê o que está acredito atrás dela, e é a primeira vez que se ouve uma voz neste filme. Um nome é pronunciado: Valéria.

Road movie. O cenário da maioria das cenas do filme é um bar bem no meio do nada - talvez a representação de uma cidadezinha atravessada por uma estrada. Os personagens, de um modo geral, chegam, ou aparecem, nesse bar, participam de certas ações e se vão, ou desaparecem simplesmente.

O filme como linguagem das artes plásticas. Vídeo clip no capricho. Marlene canta e serve cachaça. A iluminação é precisa, dando ao ambiente um clima de claro-escuro de um quadro clássico de Rembrandt ou quem sabe de Caravaggio. Tudo isso reinventado, porque preservando o ambiente rural nordestino.



O feminino vingador. Todos os personagens centrais dos diversos segmentos são mulheres. Valérie, Marlene, Maria…. Aparentemente elas têm uma missão, embora possam não saber disso. Algumas são claramente guerreiras, outras são figuras místicas fortes, participam de rituais, fazem revelações. Os mortos clamam vingança. É hora de lutar, de protesto, de brandir palavras de ordem, de despertar para a questão indígena, de um acerto de contas com as feridas de colonização e com o silêncio que mutila o coração de um país.

Pesquisa de linguagem cinematográfica. Não há a história propriamente dita. Há um tema central e os diversos segmentos de obra dialogam, de alguma forma, com esse enclave fílmico. Há um processo que se move entre uma aparência realista e a articulação de alegorias. São personas solitárias, desterradas, que atravessam a cidade-bar, mexem com arquétipos diversos, memórias de uma nação, traços das raízes de uma regionalidade aturdida, mortes, destruição, perda de sentido, memórias fragmentárias que desaparecem na obscuridade do além do filme. A sensação que fica é a de um sentido que não fecha, que é sempre retomado como um joyceano ‘’riocorrente’’ - são fluxos de sentidos que batem nas pedras em ondas e retornam para a imensidão do mar.  

Cinema Novo do novo. Símbolos em movimento corrompendo as formas clássicas de se fazer cinema. A busca de uma nova maneira de dizer. Uma ideia na cabeça e uma proposta de se reinventar a forma de se fazer arte - como em Godard ou em Glauber Rocha, mas sem imitar um ou outro. Personagens e  ações funcionando como linhas de força. A explosão na tela de violentas metáforas. Filme-poesia, tropicalismo tardio, capinando Capinan, ‘’o mar não para de se masturbar’’. Um bom petisco para quem aprecia este tipo de refeição estética.



Cinema experimental. Marlene diz: ‘’Eu nunca vi um bar tão silencioso’’. Ela o explode com sua musicalidade. Nesse sertão feminino o sentido não nasce, renasce. Não forma,performa. Não se coagula, vira gula. Construção de imagens-cenas, aparatos para se experimentar a forma estética, cabendo ao espectador apreender o que puder de sua linguagem. Imagens tecidas, vento e sons, naus de traços, mapa antigo, luz, fogo, queima como a alma de um poeta: os diretores Luiz Pretti, Pedro Diógenes e Ricardo Pretti dão voz aos seus uivos anteriores: o que ainda pode ser arte hoje no cinema?



''O Último Trago'' - Brasil - 2016 - 1h 33min

Direção: Luiz Pretti, Pedro Diógenes e Ricardo Pretti

Com: Rodrigo Fischer - Samya De Lavor - Rômulo Braga - Mariana Nunes - Demick Lopes - Ana Luiza Rios - Stephane Brodt - Larissa Siqueira - Elisa Porto - Fernando Piancó




Marco Guayba


Ator, diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras

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