18/02/2019

Teatro: Alethea Dreams




Uma espécie de ficção científica crítico-existencial.




‘’Já era vender sua alma o fato de não saber desfrutar dela.’’
(Albert Camus)

Logo de início, o impacto: a cena é não realista, o cenário é pura forma plástica, o figurino de todas as atrizes é como se fosse um uniforme futurista todo vermelho, a atuação dos atores nada tem a ver com o naturalismo, são gestos que falam e falas que gesticulam, num criativo e vibrante jogo de formas. Tudo tende a criar uma imagem de um universo à parte, um outro lugar muito estranho materializado pelas performances brilhantemente executadas pelo eficiente elenco da peça. Mas, o espectador não deve ser enganar, o que está em foco é o ser humano do século XXI com suas contradições e conflitos. A história, curiosamente, se passa no Rio de Janeiro e parte dela acontece em Jacarepaguá.

Teresa B é uma vitoriosa empresária de aviação, impõe-se a todos em qualquer tempo e lugar. Seu marido é fútil e superficial, quase um bibelô, mas a adora. Ou melhor, adora a sua imagem poderosa e deslumbrante, seu poder de decisão e de ação sob quaisquer circunstâncias. Porém, esse portento de mulher decide mudar de vida: a que ela está vivendo está gasta e não serve mais, embora ela não saiba ao certo porque. Teresa procura a Dra. Betina na Alethea Dreams na esperança que o outro lhe construa um novo caminho.

Sim, ela não quer mais coincidir com a própria imagem. Imagem criada e sacramentada, em tese, no fazer diário de decidida empresária do ramo da aviação. Ela sente que tentar coincidir com essa imagem a faz colidir com a viragem em suas potências de vida. O desfrute do que não é visível, imediato ou material? Na verdade, ela não sabe definir o problema. Só percebe que a fútil consolidação das exigências de estereótipos programados pela cultura da Era da Imagem não a satisfazem. Entretanto, não coincidir a faria mergulhar no caos ou na servidão involuntária, na alienação outra que é estar á mercê dos que só a veem como um  instrumento útil para suas pretensões de lucro ou gozo – lugar que ela conhece bem. Presa à dialética do amo e do escravo, falta-lhe o lugar terceiro.

Aí começa o impasse da personagem, ou melhor, o duro caminho para sua verdade. Sair do lugar de amo a coloca dramaticamente na posição do escravo. A palavra grega Alethea remete à verdade como aquilo que se revela. Para o filósofo Hegel, a verdade não é uma coletânea de teses dogmáticas. A verdade reside no próprio processo do conhecimento, sem que o indivíduo possa ter a pretensão de receber de seus semelhantes, numa bandeja de prata, a solução para sua vida ou a de todos. Para tal filosofia nada há que seja definitivo, absoluto, consagrado
; o que se mantém é apenas o ininterrupto processo do devir e do perecer, um infindável ascender de um nível a outro.

A sociedade precisa dos estereótipos para manter o jogo de imagens sob controle do poder vigente; a vitória do estereótipo, a glória do padrão a ser seguido, o escamoteamento da falta são necessários para que o sistema possa funcionar. Teresa B quis romper com o ideal para ser melhor o ideal. Mas qual? Por qual caminho? O certo é que alienar a decisão sobre sua vida não lhe permite, para usar um termo muito corrente, navegar. A tecnologia do empreendimento Alethea Dreams coloca outra pessoa em seu lugar. Um simulacro de grande poder, pois ninguém percebe a troca, muito menos o marido de Teresa, imagem fiel do cidadão dessa sociedade repleta de pseudo imagens fiéis. Um paradoxo notável.

Essa singular criação cênica de Rafael Souza-Ribeiro – que  enuncia de forma inteligente a contradição entre felicidade e liberdade – nos alerta que na arte trata-se de retirar o sujeito do senso comum e mergulhá-lo na reflexão, no pensamento em seu estatuto de maior potência.




‘’Alethea Dreams’’



Direção: Rafael Souza-Ribeiro

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