[CRÍTICA]: Guerra Fria



Por que é tão difícil para o homem ser feliz?
(Schlomo)

Oba, um filme em branco & preto! Sinal, quem sabe, de um digno cinema no ar. homenagem a uma das fases mais interessantes e potentes do, então, jovem cinema de Hollywood? Ou à nova onda do cruel cinema francês? Ou, talvez, ao inventivo e cáustico neorrealismo italiano? Tudo isso é história do cinema. Uma história que, entre outras coisas, muito falou, às vezes por via indireta, de novo momento que o ser humano enfrentava. Tudo isso passou. E a Guerra Fria também.
O ringue do globo. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, com a derrota das potências do Eixo, o mundo viu-se numa situação de confronto permanente entre as duas superpotências que emergiram daquele holocausto bélico como as virtuais donas do planeta: EUA e URSS. As pessoas viviam sob a angústia da ameaça de que as armas nucleares fossem usadas, o que resultaria possivelmente na destruição da humanidade. Porém, o medo da destruição mútua inevitável funcionava como um freio ao obsessivo espírito militar-imperial de ambos ao lados. Na prática, houve muito mais um retórica apocalíptica dos contendores do que embates diretos reais, No acordo de distribuição de territórios e de forças, a Polônia caberia aos soviéticos. O país mais católico do mundo ficaria sob o manto de um comunismo ateu e profundamente racional.
Os tentáculos do Estado. No início do filme um mastro e uma professora de dança, em 1949, vagam pelos campos gravando músicos e cantores locais para formar um grupo de música e dança nacional baseado nas tradições rurais. O trabalho mostra-se muito bem feito, um sucesso notável, então, o Partido mostra suas garras: quer que se faça propaganda política sobre a reforma agrária, a paz entre os povos e que se enalteça a pequena figura do ''maravilhoso'' Stalin. Claro que os artistas responsáveis pelo projeto sentem como isso um mal - estar.
O pacto com Hamlet. Nesse meio tempo, Wiktor, o maestro e pianista, tinha se envolvido com Zula, cantora e dançarina. Num encontro no campo, ele diz que quer ficar com ele para sempre e conta-lhe que a pressionavam para vigia-lo. Brigam. Ela se joga no rio com roupa e tudo e desliza sob as àguas, com o rosto exposto, cantando sua música favorita que fala sobre o ''coração'', como se fora Ofélia no lago, imagem que evoca o quadro do pintor Sir John Everett Millais sobre essa personagem do bardo inglês.


Rock around the clock. Os amantes combinam fugir na Berlim antes do muro, antes que os trens, reais e metafóricos, se tornassem estreitamente vigiados. Entretanto, Wiktor atravessa sozinho e vai viver em Paris tocando em Cafés e participando das gravações da trilha musical de filmes. Jazz. Música moderna. Zula aparece no café, mas apenas um beijo acontece. Some nas brumas da Polônia. Reaparece. Retomam o romance. Amam-se loucamente. Zula canta no Café Eclipse enquanto Wiktor toca o piano. Os excessos da paixão saciada. O tédio. Ela tem ciúmes de uma poetisa que fora amante dele. Se amam e se arranham afetivamente.

Nem Romeu nem Julieta. Se bem que o Estado comunista invasivo e o Estado capitalista devasso fazem as vezes de Montéquios e Capuletos. Não há lugar para o amor numa guerra – e a Guerra Fria era de fato uma guerra, embora sem obuses e canhões. No filme ela aparece apenas, de forma sutil, como um pano de fundo invisível, mas devorador, por trás da história dessas personagens sem lar. Zula, em certa noite, dança o rock com uma sofrida alegria, uma desesperada exaltação de um gozo inalcançável. A felicidade do casal fora fugaz como um balão de gás sem fecho. O amor deles não cabe nesse mundo sem prumo. Juntos a loucura da paixão dos devora, separados a dor da amputação emocional é insuportável.




Rapsódia ou adágio do coração. A música dos sentimentos é difícil de ser bem tocada. Talvez impossível em seu limite extremo. A história desse casal de artistas não precisaria necessariamente estar relacionada aos impasses sociais e políticos. Mas, de qualquer sorte, eles estão sempre lá como metáforas recíprocas da ingovernabilidade do destino humano. Some-se a isso o que dizia o mestre de Viena: ‘’os juízos de valor do homem acompanham diretamente os seus desejos de felicidade, e que, por conseguinte, constituem uma tentativa de apoiar com argumentos as suas ilusões.’’

Filme impecável. Direção orquestral do premiado Pawel Pawlikowski. Atores-fulgures esplêndidos, os maravilhosos Tomasz Kot  e Joanna Kulig. Fotografia primorosa. Capta a aura cinematográfica de um tempo em que fazer um filme era invenção e compromisso com o destino de uma ideia-sentimento. Uma grande obra sobre como o amor pode exaurir duas vidas. E o que sobra é o brilho e o luxo de um afeto ter sido vivido de maneira tão intensa.

A força da ‘’Kultur’’. Zula volta para a Polônia. Wiktor é rejeitado. Acaba preso. Ela move céus e terras para libertá-lo. Porém o instrumento musical natural dele está destruído. Wiktor Warski e Zuzanna Lichorn casam-se, num ritual privado, numa igreja em ruínas, provavelmente bombardeada na guerra real, a mesma do início do filme. O amor que não cabe no mundo é trágico. A dívida cristã polonesa cobra seu preço: a pulsão devida é a pulsão de morte.



‘’Guerra Fria’’ – 2018 – 1h 28 min – França/Polônia/ Reino Unido

Direção: Pawel Pawlikowski

Roteiro:  Pawel Pawlikowski, Janusz Glowacki, Piotr Borkowski

Com: Tomasz Kot – Joanna Kulig – Jeanne Balibar – Agata Kuleska – Borys Szyc – Cédric Kahn  - Aloise Sauvage – Adam Woronowicz



Marco Guayba



Ator, diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras

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