[CRÍTICA] A esposa


Ambientado em Connecticut em 1992. Quarenta anos de um casamento feliz e harmônico. Esposa abre mão de uma fertil carreira de escritora e vive a sombra do marido? Uma aparente relação desigual de devoção ao seu presunçoso Castleman? Viagem à Estocolmo para o "Marido" receber o Prêmio Nobel de Literatura. Mas há mais nesta história e nesta personagem que o mero machismo tradicional presente na sociedade dita moderna.

Quando o Sr. Castleman recebe uma ligação comunicando que ele ganhara o Nobel, ele e a mulher estão emocionados, mas é o olhar intenso e enigmático dela que é ressaltado pelo jogo da câmera. Joan está exultante e feliz, e demonstra felicidade e muita ternura pela conquista de Joe. Os dois comemoraram pulando como dois adolescentes em cima da cama de casal.

O escritor agraciado e agradecido sempre enaltece sua esposa por seu apoio essencial e sua presença firme e amorosa em sua vida: sem ela, ele nada seria. Jonathan Pryce está brilhante no papel deste autor potente-impotente (ele tem as ideias, ela tem as palavras). O ator encontra o tom adequado e confere à sua personagem a desejada dignidade e a necessária veracidade, tão essencial à está trama doméstica ae intelectual ao mesmo tempo. Um pouco mais e ficaria ridículo, um pouco menos e seria desastres de fragilidade melodramática.

De Joe e Joan há um pequeno (e significativo) deslizamento significante. Ela, no início de sua promissora atividade de escritora, foi desestimulada por uma autora já editada que lhe disse que não seria lida, pois o mundo literário (autores, editores, críticos, livreiros, etc) era composto por homens que desejavam ler homens. Seu livro ficará eternamente ornando à prateleira.

Joan é quem propõe o pacto ao homem de seu castelo. Casam-se, têm dois filhos - o rapaz almeja ser escritor e a moça está para agraciá-los com um neto -, vivem um para o outro e para a literatura "dele". Ela fez sua escolha e teve muitos generosos ganhos com ela. E também uma dor, ou um sentimento inexprimível, que seus olhos revelam em cada etapa de sua via crucis até a crucificação na cerimônia de entrega do Nobel.Pode-se tentar ler, através da expressão de seus olhos, o significado mais profundo da personagem através de uma trilha de emoções, sentimentos, indagações, aturdimentos e vazios plenos de significado que a magistral atriz empresta à sua partner de cena, sua encarnação e sua diferença.

O filme foi lançado no Festival Internacional de Toronto em 2017. Tem uma linguagem estética discreta, mas de grande beleza e eficiência. É como se tudo tivesse sido construído para ficar ausente da percepção imediata do espectador enquanto Glen Close e Jonathan Pryce fazem seu pas de deux sob holofotes de uma plateia concentrada no drama e nos conflitos internos desses dois personagens intensos.

Glen Close, aos 71 anos, coleciona três Tonys e três Emmys, e a indicação frustada para seis Oscar de melhor atriz. Mas agora, ao que tudo indica, é considerada pule de 10 para a próxima noite de premiação. Será esta a vez desta esplêndida atriz? O jeito é conferir.



"A Esposa" (The Wife)

Direção: Björn Runge

Roteiro: Jane Anderson (baseado no livro homônimo de Meg Wolitzer)

Prêmios: cotada ao Oscar de melhor atriz, indicada ao Globo de Ouro de 2019 e ao 8th AACTA International Awards

Com: Glen Close (Joan Castleman) - Jonathan Pryce (Joe Castleman) - Christian Slater (Nathaniel Bone) - Max Irons (David Castleman) - Annie Starke (Joan jovem) - Harry Lloyd (Joe jovem) - Alix Wilton Regan (Susannah Castleman) - Karin Franz Korlof (Linnea)



Marco Guayba
Ator, diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras









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