20/07/2018

Teatro:TCHEKHOV É UM COGUMELO


 O que fazer para libertar o instante?







"As Três Irmãs" como você nunca viram. Uma montagem que mistura diversas linguagens artísticas destacando mais o que há de poético nessa peça de Anton Tchekhov que a dramaturgia explicita da obra ou a composição naturalista das personagens. A vida de três mulheres pulsando Intensivamente entre memórias, fragmentos de cena, colagens ao estilo dadaísta, projeção de imagens de vídeo, formas que falam, que dançam, que transformam o passado numa experiência lisérgica e mística.

Um voo livre em que imaginação, sentimento, percepção e intuição participam de um jogo das cadeiras em que a busca de imagens para Tchekhov gira como os ponteiros de um relógio invisível produzindo a estética de uma exposição viva da alma profunda de cada uma das três personagens e da peça-texto como um todo. Olga, Macha e lrina. Teatralidade da inquietude paradoxalmente construída a partir da quietude de personas em êxtase. Um ritual profano-sagrado em que a dimensão do feminino se mostra evanescente e em processo de eterna ressurreição.

Um vídeo entrevista de 1995 com Zé Celso pontua o espetáculo e aponta para possíveis formas de se ler o que se passa no palco. Possíveis origens, prováveis estruturas, intangíveis melodias e o enigma da expansão anímica das infinitas sonoridades. No depoimento de Zé Celso ficamos sabendo que ele, em certo momento, tentou montar "As Três Irmãs", mas o mergulho na peça, a partir de experiências alucinógenas, levou a uma implosão do Oficina. Crise é oportunidade e algo de essencial sofreu poderosa transformação. Para ele o teatro não é para ser representado, mas para ser vivido. Segundo sua fala não se faz verdadeiramente a montagem de uma peça de um grande autor sem se transformar Teatro é mergulho num abismo hamletiano. Ou o que vier como tempestade, fúria, êxtase, paz ou contemplação.

O espetáculo é composto por três movimentos. Tem o seu início na "casa de memórias" seguida pelo "amanhecer no vazio" e após passear pela variedade de músicas e de musas de cada personagem encontra o seu desfecho no "voo dos pássaros migrantes".  As três irmãs encadeiam as ondas do mar dos desejos, repartem os mistérios pelos diversos sentidos de suas vidas e reinam como vozes a fiar a vida pretérita e o frescor das coisas antigas, tão remotas como o próprio tempo como mito de uma origem mágica e potencialmente insondável.

Está lógica trinitária também está presente na concepção de espaço cênico. O palco foi dividido em três partes. A ação no proscênio comenta a peça. A encenação no palco fornece o museu vivo das intempéries do feminino, lugar em que cada uma encontra em si a obra de arte que não foi buscar.  Ao fundo a ação relança uma musicalidade que questiona e integra a cena desintegrando as modalidades petrificadas dos sentidos e dos sentimentos adormecidos.

Trata-se de um espetáculo para ser fruído como um verdadeiro ritual. Não há a história, essa ficou repousando no livro de Tchecov. Não há personagens no sentido do drama clássico, mas vozes que desfiam o sentido íntimo de cada uma das três mulheres que nunca vão para Moscou, pois a meta delas é bem outra coisa. Não há o roteiro clássico do romance, não é da conta de ninguém a vitória ou derrota desses seres abismais. Não há o triângulo dramático cláss1to - ação, conflito e imitação - como fundamento do teatro convencional burguês. Há, pois, a suspensão fenomenológica da dita totalidade como ilusão da reprodução do mundo.

Neste teatro da experimentação importa que a cena possa refletir sobre suas próprias capacidades expressivas sem se escravizar ao texto que está sendo encenado. A linguagem cênica adquire certa autonomia em relação ao conjunto do que se convencionou chamar de teatro profissional. A realidade da representação teatral mostra-se em seu vigor próprio e independe de uma hipotética fotografia do que a realidade fenomênica seja. Essa é a via da estética da forma artística conhecida como pós-dramático   Estamos diante de um teatro-concerto, que como tal deve ser apreciado em sua musicalidade, em suas cores e formas, em seus movimentos sensíveis e suas "aparições" significantes. Ato poético: cabe ao espectador inventar-se nesse universo expandido de estéticas criativas - e (re)inventar a dramaturgia que está lá como pura possibilidade.


Texto : Extratos de "As Três lrmàs" de Anton Tchekhov

Concepção e Adaptação:   André Guerreiro Lopes

Direção: André Guerreiro Lopes

Elenco: Djin Sganzerla, Helena Ignez, Michele Matalon, Roberto Moura (cantor), Samuel Kavalerski e Fernando Rocha (dançarinos) e André Guerreiro Lopes

Cenário e Figurinos: Simone Mina

Direção Musical e Instalação Sonora: Gregory Slivar

Assistente de Direção e Direção de Cena: Rafael Bicudo

Preparação Vocal e Músicas Tradicionais: Roberto Moura

Participação Especial: Grupo Embatucadores
Cia de Teatro Lusco-Fusco

  
CCBB-RJ - Centro Cultural do Banco do Brasil 
  
Teatro 1: 20 de junho a 22 de julho de 2018 - quarta a domingo às 19h 
  
  
  
  
  
Marco Guayba 
  
Ator, diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras 
  

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