24/07/2018

Teatro: Lugar nenhum






"Que medo podem dar as árvores quando se sacodem na tormenta!" (Anton Tchecov) 
    
  
Ecomemoração aos 20 anos da Cia do Latão foi realizada essa montagem qualificada pelo grupo como peça ensaio. Não é propriamente uma peça de Tchecov, mas um híbrido que utiliza como base o texto do autor russo para poder falar de nossa realidade tupiniquim. Atores e músicos-atores fazem no palco uma celebração - melancólica, por um lado, e esfuziante, por outro - da trajetória da Cia e uma espécie de revisão crítica, no sentido potico, do que foi feito no palco e nas telas no Brasil desde o século passado até agora. A ética como ação do ser humano no meio social também é posta em questão. Mesmo se passando na transição do regime militar para a democracia, a peça e extremamente atual. E põe em cheque o que somos, o que estamos fazendo nesse impasse chamado Brasil. 

Uma família, de pais separados, reúne-se para comemorar o aniversário do filho estudante de medicina. O pai (Jonas) é um cineasta brilhante, mas incapaz de se adaptar à vida burguesa. A mãe (Teresa) é uma atriz famosa que vive os horrores de se perder entre o que é drama no palco e o que é o fogo da vida. O tio (Pio) é um hippie já com certa idade que só se interessa em fazer música. O filho (Antônio) tem espírito de artista, quer a liberdade de escolher o seu destino e arriscar-se em seus sucessos e seus fracassos. A amante do cineasta (Ivone), trinta anos mais jovem que ele, tem dificuldade de situar-se nesse ambiente conturbado pelo emaranhado de desejos e frustrações que envolve todo aquele grupo. O namorado da atriz (Afonso) é um jornalista que acredita que a sua verdade de jovem de classe média, que supostamente se fez por si mesmo, explica tudo no mundo. A caseira (Maria) é uma mulher tímida, descendente de índios, que descobre uma sexualidade ardente e a violência sórdida que há na sociedade dita civilizada. 

Teresa ao referir-se ao seu trabalho no teatro, compara-o com a vida e conclui que "ainda me assombra a estranheza dos lugares do mundo". Esse é um dos pontos-chave da peça; o lugar vazio, aberto, carente de significação. O "lugar nenhum" está presente nos dramas e conflitos de cada personagem e na dimensão trágica e bizarra que atualmente marca nossa jovem democracia. E como se cada um deles se perguntasse “para onde ir. Mesmo as pessoas mais definidas em seus interesses e ideologias, como o voraz cineasta Jonas e o arrogante jornalista Afonso, encontram essa vacância no embate com o outroTeresa e Antônio, mãe e filho, expõem essa chaga como uma ferida aberta, que sangra sentimentos e jorra ímpetos incontornáveis que não permitem nenhuma certeza sobre o resultado de seus atos. Helena Albergaria compõe um duo magistral com João Filho. Ney Piacentini é um show à parte, sua cena solo é um dos melhores momentos do espetáculo, uma devastação cirúrgica do senso comum através da forma cênica. 

A peça fala do que a peça é. Jonas quer escrever um roteiro sobre a irrealização brasileira e proclama que sua doença chama-se Brasil. O humor como roteiro das situações mais descabidas. Teresa quer proteger seu filho da Via Crucis, coisa tão difícil de ser concretizada quanto uma salamandra conceder a felicidade a uma nação. Antônio busca o reconhecimento, o aplauso, antes do trabalho, antes da jornada, com todos os seus méritos e enganos, ser posta em cena em sua plenitude artística. Maria canta a música dos Guarani Mbya. E nossa intimidade é que nos parece estrangeira. 
  
Ao fim do espetáculo percebemos um teatro em crise, um cinema preso em suas armadilhas comerciais, um país que ainda não descobriu como olhar-se no espelho. A presente encenação da Companhia do Latão resgata, com suas armações ferinas e suas armas cénicas, algo que era presente no teatro grego em seus inícios, ou seja, lançar uma questão para a cidade. 
  
  
Teatro: criação livre a partir de Anton Tchecov 
Dramaturgia e Direção: Sérgio de Carvalho 
Assistente de direção:Maria Livia Goes  
Cenografia· Valdeniro Paes e Sérgio de Carvalho 
Figurinos e colaboração na cenografia: Carlos Escher  
Iluminação:  Sérgio de Carvalho 
Elenco: Helena Albergaria, Ney Piacentini, João Filho, Érika Rocha, Beatriz Bittencourt, Ricardo Teodoro e os músicos Cau Karam e Nina Hotimsky 
  
  
CCBB-RJ - Teatro lll 
Quanta a domingo às 19h30 
A 06/08/2018 
  

Marco Guayba  


Ator,diretor,preparador de elenco e Mestre em Letra

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