19/07/2018

Crítica: Orgulho





"E me inventei neste gosto, de especular ideias.”  (Guimarães Rosa) 
  
Na França de hoje os imigrantes e filhos de imigrantes ainda vivem uma situação de incerteza. Na recente Copa do Mundo de Futebol, por exemplo, deram uma contribuição decisiva para a conquista do título de campeão para o escrete francês. Mas, de fato, pra valer, há muita oposição e muitas resistências dos setores mais conservadores da sociedade francesa. Para Zygmunt Bauman, sociólogo de origem polonesa que discute em seus livros os conflitos e contradições da contemporaneidade, "todas as sociedades produzem estranhos" Essa situação social de assimilação ou rejeição do outro que é o diferente é o pano de fundo de "Le Brio". 

No Início do filme a jovem de origem árabe Neila Salah (Camélia Jordana) se atrasa para participar de sua primeira aula na faculdade de direito. O professor Pierre Mazard (Daniel Auteuil) pega no pé dela e daí se inicia um conflito verbal do qual a turma participa. O professor reaça "machista ',"misógino", "racista" e "xenófobo" brinca com o nome dela,  exemplos constrangedores e usa argumentos um tanto fortes para critica-la.  Trava-se uma verdadeira guerra de intolerâncias na qual a verdade pode sair arranhada. O Grande Irmão entra em cena e dezenas de celulares filmam o acontecido. 
O "fascista" de plantão, é claro, vai ter que enfrentar o conselho disciplinar. A solução que lhe é sugerida por um colega é que ele prepare Neila para o concurso de retórica demonstrando assim que não é aquilo que ele parece ser. 

iniciação da moça, oriunda de um mundo não conforme ao padrão europeu tradicional, é um processo doloroso e cômico. Idas e vindas, conflitos com seu mestre provocador e de caráter aristocrático e a insegurança quanto ao seu futuro profissional atormentam a vida dela. O excelente Daniel Autell está impagável na pele do mestre ranzinza, um eterno insatisfeito com o que a vida se tornou, que se insurge contra as pequenas coisas que as pessoas costumam fazer para seguir a ordem social ou para confrontá-la. O carismático ator, pleno na utilização dos instrumentos de sua arte, fornece ao filme os melhores momentos de humor e picardia.  A intensa Camélia Jordana sustenta esse diálogo com qualidade e brio. Esse papel lhe permitiu conquistar o Cezar 2018 de atriz revelação. Com essa linha de passe entre Mazard e Neila é como se a lógica do diretor de "O Orgulhodissesse que é preciso endurecer, mas sem perder o riso jamais. Ora, o humor educa, pois não! Como diria o arlequim Domenico: Castigat ridendo mores. 


À 
duras penas o professor ensina à impulsiva e inteligente Neila a arte da dialética e seus estratagemas de persuasão e raciocínio. arte da oratória lhe cai bem, é parte de sua formação como advogada e é algo que ela vai precisar muito quando se formar e passar a exercer sua profissão. lia precisa aprender o papel de logos, pathos e ethos no debate com seu opositor e na comunicação de um modo geral. Para isso terá que saber organizar suas ideias e argumentos e como expressá-los de maneira adequada. No meio dessa conturbada agitação  envolve-se afetivamente com Munir (Yasin Houicha), um motorista de Uber que ela conhece desde que eram crianças. 


Nesse simpático Pigmalião pós-moderno, a educação da voz e do bem dizer a palavra, leva a uma aproximação entre os contrários. O Lobo Mau não quer devorar a Chapeuzinho Moura, a exótica estranha não quer roubar a alma de Rabelais e de Racine e a vida não se resume a estereótipos e rótulos à direita ou à esquerda. Um nutre o outro com parcelas elementares de humanidade. No início de sua instrução Pierre diz para Neila que o que importa é estar certo, a verdade não importa. É essa a mensagem do filme? Lógica cínica e mesquinha que visa apenas a vitória sobre seu oponente? Armas de combate em um tribunal para serem usadas sem pudor ou constrangimento? E assim ê. 


Quer dizer: mais ou menos. Ou melhor, não é nada disso em absoluto. Mazard encontra no prazer de ensinar seu tesão pela vida. Ele necessita de um opositor à altura para que seu cérebro agitado possa funcionar a contento. Encontra sua My Fair Lady na sede de viver de Neila Salah. O "racista" e outros "istas" é tão-somente um cínico que não acredita em nada, um chato que usa o outro como tela para suas provocações mentais e tira um imenso prazer de seus desafios aparentemente descabidos.  Para ele é preciso não ser politicamente correto para que as tensões mobilizem um pensamento mais potente. As linhas de fronteira entre o mestre e a aprendiz mostram-se bem mais tênues do que pareciam à primeira vista. É vero. 
  
  
''O Orgulho" (Le Brio) 2017- 1h 37 

DireçãoYvan Attal 
  
Com: Daniel Auteuíl, Camélia Jordana, Yasi n HouichaNozha KhouadraZohra Benali e Jean-Baptiste Lafarge 
  
Estreia hoje no Brasil

TrailerLink
  
  
  
  

Marco Guayba  

Ator,diretor,preparador de elenco e Mestre em Letra

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