09/06/2018

Crítica:O Amante Duplo de François Ozon


O que acontece quando o espelho se parte?

Obra-prima. O exibicionismo de um cinema como espetáculo de si mesmo François Ozon tenta com seu filme, entre outras coisas, tornar patente que a sua arte - além de fazer coisas como contar uma história, reproduzir uma hipotética realidade e de dizer algo que seja culturalmente importante é capaz de mostrar que o plano estético de sua construção pode ter um peso também decisivo. E o que temos é um maravilhoso banquete de cinema, um incrível banho de linguagem a serviço de algo essencial para o ser humano. Ozon sabe como nos comprar com o prazer puramente estético para nos conduzir para algo mais profundo. 

Há um plus no valor da imagem através de uma contribuição considerável da arte do ator. Marine Vacth (Chloé) e Jérémie Renier (Paul e Louis) estão soberbos, defendem suas personagens com impressionante dignidade, entregues à ação dramática com verdade e despojamento, vivendo cenas fortes e, por vezes, bizarras. O filme ainda conta com a participação de luxo desse saudoso e elegantemente glorioso mito das telas que é Jacqueline Bisset no papel de uma mãe duplamente problematizada.

A carpintaria fílmica de Ozon se organiza de uma forma sutil e eventualmente imperceptível. A câmara e os cenários (mas também há uma contribuição inestimável da montagem) participam da cena e, de um modo geral, da narração da história como agentes ativos da produção de sentido presente na obra. Não é por acaso que, ao ser comparado a Hitchcock por causa de seu suspense inquietante, o esteta Ozon declara que "o desejo me interessa mais que o medo". O seu modo de construir a narrativa cinematográfica não é percebido de imediato e, provavelmente, não é compreendido conscientemente por boa parte da massa de espectadores que assistem a seu filme. Mas mesmo assim cumpre sua função no impacto da recepção dessa obra. 

O drama de Chloe Fortin é muito mais subjetivo que objetivo. Em boa parte da projeção não somos capazes de discriminar se o que estamos vendo está acontecendo de fato na realidade suposta do filme ou se acontece tão-somente na rica imaginação da personagem. Há sobremaneira uma utilização criativa de simbolismos que extraem a cena do real e a trazem para um campo de representações próprias à arte. Um exemplo disso é quando a moça se dirige ao consultório de um psicólogo para tentar entender a razão das dores que sente na barriga e que não são explicadas pelos médicos nem pelos inúmeros exames que ela já fez. 

Chloé sobe por uma escadaria em espiral que aparentemente se infinitiza para o alto e para baixo (ascese e descenso) e, em algum ponto de seu percurso nesse prédio ao estilo de uma catedral interior, ela encontra a sala do senhor de seus enigmas, o terapeuta Paul Meyer, depois rebatizado, para e por ela, como Paul Delord Essa escadaria impossível - que lembra as obras do artista Mauritius Cornelius Escher em que ao se subir por elas chega -se paradoxalmente ao seu princípio - sinaliza a saída do mundo que conhecemos como realidade em direção à um universo, que é pura linguagem, de representação plástica característica do mundo onírico e da fantasia, coisa, aliás, muito adequada para a narrativa cinematográfica. A jornada de Chloé começa. Não por nada, ela vai trabalhar num museu e está sempre cercada por obras que compõem alguma exposição de arte. Tais obras sempre dialogam, de alguma maneira, com o desenvolvimento de sua aventura desejante, pois, como afirma o diretor do filme, trata-se "antes de tudo de uma história de autodescoberta.” 


Certos elementos são Isolados da dita realidade, pois funcionam como fragmentos excluídos do contexto. O gato de Chloé, por exemplo, a observa quando ela está fazendo amor. A moça olha com fascínio para o seu bichano olhando-a fazer amor. Trata-se de um ver-se sendo vista. O "olhar" é um elemento de destaque presente do início ao fim do filme, e essa relação se reduplica em relação ao espectador, que se vê envolvido numa trama de olhares e de espelhos em que o que vale é o símbolo mais que a ação em si que está sendo mostrada. Para Ozon o "cinema é lugar de mitos" e na mitologia grega, Chloé é o mito das primeiras vezes, das descobertas da sexualidade, do aprendizado atento dos insuspeitos prazeres. 

Para o mestre vienense Sigmund Freud “A verdadeira ars poético está na técnica de superar esse nosso sentimento de repulsa”. Pois não é que durante a projeção assistimos a cenas quentes de uma sensualidade extraordinária que vão do esplendor do holocausto interior ao furor sexual. Desejos arcanos, infames, bizarros. Masculinidade profanada. Amores insanos. Libido em ebulição. A vagina-olho de Chloe. Fantasia ou realidade? Os gêmeos-espelhos Paul Meyer e Louis Delord. A musa e seus dois amantes. Ou terapeutas. Mas tudo isso são bagatelas, o que conta é a travessia. A arte como lugar da travessia. 


“O Amante Duplo” (L’ Amant Double) – love story/suspense erótico -2017 - lh 50 

Direção: François Ozon 

Outros Filmes de François Ozon: Jovem e Bela (2013), Dentro de Casa (2012), O Refúgio (2009), 8 Mulheres (2002) 

Música: Philippe Rombi 

Com: Marone Vacth (Chloé Fortin),Jérémie Renier (Paul e Louis Delord), Jacqueline Bisset (a mãe de Chloé), Myriam Boyer (Rose). Dominique Reymond (Dra. Agnès Wexler), Fanny Sage (Sandra Schenker) 





Marco Guayba 
Ator, diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras



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