02/05/2018

INSETOS - 30 anos de Cia. dos Atores




A comemoração dos 30 anos de existência da Cia. dos Atores nos brinda com o mais novo espectáculo dessa insistente e inventiva trupe de teatro. Suas montagens anteriores marcaram a cena com suas provocações, seus achados e sua ousadia.

Em Ensaio. Hamlet, por exemplo, o  foco estava em utilizar um clássico (Hamlet, de Shakespeare) para desenvolver a linguagem do teatro, aprofundar as conquistas do modernismo nas artes cénicas e espelhar o espelho dos humanos e com isso montar um espectáculo atual, instigante e perturbador. A pesquisa atingia,  entre outras coisas, a forma de interpretar, a expressão cénica criativa de imagens verbais, o contato direto com o espectador e a relação com a mídia e a vida atual.

Em Gaivota - Tema para um conto Curto (recriação de A Gaivota, peça de Tchecov que fracossou em sua estreia, mas depois foi um sucesso com Stanislavski e o Teatro de Arte de Moscou) havia um questionamento filosófico em torno da relação do intérprete com a peça que ele estava apresentando. Através do ator no palco o teatro era posto em questão e por extensão a relação do público com a arte dramática também o era. Nesse trabalho foi feita uma desconstrução audaciosa do texto de modo que em cada cena era possível vislumbrar um sem número de outras opções dramáticas.

Em "Insetos" a peça mais atual da Cia. -  que estreou recentemente no CCBB -   é como se ligássemos o rádio, a TV, lendo um jornal ao mesmo tempo em que estivéssemos navegando pelo facebook e ouvindo um podcast. Os elementos (noticias ou dados) aparecem por todos os lados, explodem em nossas cabeças, cortam nosso pensamento, embaralham nossas emoções. Tudo é fragmento. Tudo é desrazão. Já era. Ou, então, como diz um dos personagens: "É complexo!" Há uma guerra lá fora, há uma guerra cá dentro. Nenhum Resort vai nos proteger do mal.

Trata-se de uma peça contemporânea em que quatro atores e uma atriz se revezam em diferentes papéis por 12 cenas independentes, ligadas apenas pelo fato de se tem todos insetos em uma guerra entre si, mas que, ao mesmo tempo, observam com um olhar crítico o mundo dos seres humanos e suas guerras particulares e globais. Insetos funciona como uma alegoria para falar do mundo tal como eleé hoje, tal como ele atingiu essa dimensão eletrônica, midiática, informatizada em que tudo se sabe, mas nada se compreende. O dinheiro manda. O capital comanda. O capitalismo e sua voraz fome de lucro.

A disputa pelo poder. A disputa por território. E por petróleo.



Os insetos da peça falam da sociedade humana, enquanto paralelamente vivem seus próprios conflitos e suas conflagrações . O êxodo e o extermínio progressivo das abelhas (seres essenciais para a produção de alimentos vegetais) gera um novo status quo no qual o louva-a-deus torna-se o novo tirano tentando estabelecer ditatorialmente uns nova ordem que só beneficia a si mesmo. Os atores são pessoas se fingindo de insetos para falar de pessoas que vivem como insetos? O paralelismo estabelece um outro mundo para representar este mundo mesmo? Morte, destruição, ganância, poder facismo. Guerra. Trump e a Coréia do Norte. Fraudes. Globalização. As crianças sírias. Os holofotes sobre as autoridades. O topete laranja. O topete do coxo. A china vai dominar o mundo. Ecologia amaldiçoada. Terra ameaçada.

Um espatáculo-metamorfose. Gregor Samsa acordou e é um besouro-titã (Titanus giganteus), insetos sem cabeça reclamam, cabeças sem o resto do inseto "esperneiam", uma joaninha trans tenta ser um frágil samurai, baratas viciadas em Baygon promovem uma overdose de "irritar" os olhos mais sensíveis dos mais alérgicos a atitudes críticas. Um certo cheiro de Beckett no ar. Um sabor doce-amargo de lonesco espalhado sobre os pneus ( os módulos que são usados para criar o cenário em cada um dos quadros). Restos não sedimentados de Plínio Marcos. Pelejas de chacinas. Game Over, Brecht!
Uma fênix. Ou vórtice. Na cena final há algo distinto do resto do espetáculo - como se a esperança pudesse devorar a peste e reformar os ratos. Ethos, pathos aesthetica: Teatro. No âmago do mistério há um gênio-clown segurando um pote de pétalas de ouro de não se sabe o quê.

Nos 30 anos da Cia. dos Atores o teatro tinha que ser , de certa forma, homenageado, desdobrando-se em algo novo e inusitado (numa metafórica borracharia-teatro), trazendo à cena, de forma original, direta ou indiretamente, os ecos de muito do que foi intensa e profusamente realizado, nas últimas décadas do século passado e nos primórdios deste, nos palcos mais explosivos de várias revoluções cénicas.

Texto original: Jô Bilac
Adaptação: Cia. dos Atores e Rodrigo Portella
Direção: Rodrigo Portella
Elenco: Cesar Augusto, Marcelo Olinto, Marcelo Valle, Susana Ribeiro e Tairone Valle

CCBB - salas  C e  D
Quartas, quintas, sextas e domingos às 19 h
Sábados às 17h e 19h
Até 06/05/2018

Marco Guayba
Ator , diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras

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