08/05/2018

Crítica: Frágil Equilíbrio - Um filme de Guillermo Garcia López


"O mundo é uma coisa frágil e bela, navegando no meio da solidão
do Universo, do silêncio mineral, das leis da física."
(José Mujica)
Esse filme foi o vencedor do Prêmio Goya na qualidade de melhor documentário, também foi laureado no Festival SEMINCI ( Semana de Cinema de Valladolid) e participou do IDFA (o Cannes do documenrtário) como convidado. Além disso obteve prêmios de audiência em Protugal, Itália, EUA (Estado do Texas) e em outros lugares. No Brasil,  poderá ser visto em uma plataforma digital, a "Vimeo On Demand", sem excluir a possibilidade de projeções especiais e de futuramente chegar às salas de cinema.

O núcleo do filme é composto por três histórias que ocorrem em três diferentes países: Espanha Japão e Marrocos. Mas a coisa não fica só aí, inúmeras cenas (vista, paisagens) se passam no México, Qatar, Hong Kong, Inglaterra e Chile, numa montagem cuja dinâmica cria tensão e colabora com o entendimento dramático da obra. Todas essas histórias são costuradas pela palavra de José Mujica, ex-presidente do Uruguai, que discorre sobre os problemas do mundo contemporâneo, seus fundamentos e seus riscos.

Na Espanha temos vidas que são destruídas pelo poder econômico, pela crise do sistema, pela corrupção política e a especulação imobiliária. Famílias inteiras são despejadas de suas moradias, pagam por um rombo que elas não provocaram, por erros que não cometeram. A polícia cumpre seu "dever" arrombando portas e dando uma hora para os moradores se retirarem levando tudo o que puderem. A personagem central desse núcleo é um homem devido a doença, seus três apartamentos em Madrid, seu trabalho, foi morador de rua e continua tentando se reerguer.

Na segunda história, acompanhamos uma comunidade subsariana no Monte Gurugú, próximo à fronteira entre a África e Melilha, que diariamente tenta atravessar uma cerca para poder entrar na Europa em busca de uma vida melhor. São jovens e adultos que têm de escapar a uma repressão violenta e absurda para conseguir realizar o sonho de levar um pouco de riqueza e dignidade para suas famílias. Os que não conseguem são agredidos de forma brutal, mas procuram curar suas feridas para tentar novamente. São muitos africanos que dessa maneira procuram escapar da fome e da miséria de seus países.

Em Tóquio , dois executivos, que trabalham arduamente de sol e depois do sol, tentam fazer uma reflexão sobre suas existências, seus desejos de consumo e a roda viva que os aprisiona e massacra subjetivamente. Ganham um bom dinheiro, porém não amealham uma qualidade de vida que permita dizer que usufruem de bem estar e felicidade. Estamos numa cidade super populosa, como muitas em muitos outros países, com residências-pombal, com um trânsito intenso de pessoas, quase como um formigueiro absoluto. Nas ruas há sempre uma multidão indo e vindo, e um número impressionante de pessoas que saem de  suas casas usando máscaras cirúrgicas.



Essas três histórias centrais exemplificam muitas das questões mais problemáticas do mundo hoje: a luta desesperada pela sobrevivência, a imigração desenfreada, a exploração econômica sem limites éticos, a alienação e a estupidificação, a ideologia de um consumo não racional, a crise de identidade, o sonho eterno de liberdade, a solidão do indivíduo numa sociedade norteada pelo egoísmo, a necessidade de amor e o tema universal da morte.

Para onde vamos? Que respostas queremos? Como  transformar uma história com raízes tão fortes em elementos não humanitariamente progressistas?

O sistema econômico desde o pré-Renascimento tem crescido, tomando conta cada vez mais da vida, criando maravilhas tecnológicas, gerando riquezas inimagináveis e por muito tempo especializou-se em produzir postos de trabalho e desenvolvimento para a sociedade. Mas hoje cada vez menos trabalhadores nas fábricas automatizadas, nos campos mecanizados, nas agências bancárias com seus caixas eletrônicos, nas lojas de departamento e nos super ou mega mercados. Em razão disso tudo há uma crescente massa de desempregados que, em muitos lugares, povoa as ruas com suas famílias e seus poucos bens. Acresce-se a isso a explosão demográfica, a fome o descaso de governos de países ainda pouco desenvolvidos.

Na mitologia antiga, o Freixo, a árvore da vida, tinha imenso poder mágico: era um poderoso antídoto contra todos os venenos, em seus galhos amparavam todos os seres vivos. Nas grandes catástrofes, a árvore sagrada sobrevivia e protegia os que ficavam à sua sombra para que pudessem reconstruir a harmonia do mundo. Ela representava, sobretudo, a perenidade da vida. O que seria hoje o equivalente a esse símbolo?

O discurso do presidente José Mujica, que pontua todo o filme, ressalta que " O valor maior é a vida e não o negócio (...) As possibilidades são infinitas (...) A vida é uma causa em si mesma, é a causa de todas as causas."

Frágil Equilíbrio - 83 min.
Roteiro e direção: Guillermo Garcia López
Produtores: Guillermo Garcia López, Pedro González Khun, Pablo Godoy-Estel
Produtor executivo:  David Casas Riesco
Produtores associados:  Marina Garcia López, David Guerrero
Lançamento no Brasil: 18 de abril no Instituto Cervantes  - RJ


Marco Guayba
Ator, diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras

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