24/04/2018

O imortal : um monólogo do conto de Jorge Luis Borges



Espetáculo Baseado no conto de homônimo de Jorge Luiz Borges.

Nesse seu primeiro monólogo a atriz Gisele Fróes resolveu levar para o palco o conto "O imortal" do escritor argentino Jorge Luis Borges. Em um cenário todo feito de caixas de papelão e livros, narra a história do tribuno militar do Império Romano Marco Flamínio Rufo. Este busca o improvável rio das águas que dão a imortalidade e a incrível e inacreditável Cidade dos Imortais. A história do conto começa em Junho de  1929, em Londres, com o antiquário Joseph Cartaphilus oferecendo à princesa de Lucinge os seis volumes em quarto- menor da Illíada de Homero traduzida por Alexander Pope. Em Outubro, a princesa ouviu de um dos passageiros de Zeus que o antiquário havia morrido no mar. No último tomo de Illíada, ela encontra um estranho manuscrito com o relato de peregrinação do tribuno romano.

Mas a peça não começa assim. A peça tem seu início - ou não - com Gisele, vestida toda de preto, conversando naturalmente com a plateia. Ela bebe um pouco d'água, oferece aos presentes , brinca sobre os celulares estarem ligados e faz ainda algumas outras interações. Depois senta-se numa cadeira preta( ou um raríssimo trono) em frente ao imenso cenário e começa a narrar. Em alguns outros momentos do espetáculo ela volta ao bate-papo com o povo, sem que fique claro até onde é a pessoa atriz se soltando ou a personagem agindo.

O texto de Borges é belíssimo e bastante impactante do ponto de vista intelectual. Os fãs do autor devem ter esse conto, provavelmente, como um de seus preferidos. Seus temas recorrentes estão presentes: o tempo como presença inalcansável, a infinitude do texto, a imortalidade da carne como inutilidade para o homem,  a literatura como um labirinto no qual nos perdemos e nos achamos, a metáfora da biblioteca com seus significados extraordinários, inefáveis ao mesmo tempo que prosaicos.

Em o "Livro de Areia", outro conto de Borges, um homem solitário recebe de um vendedor de bíblias um antigo livro sagrado, encadernado em pano, escrito em caracteres estranhos, desconhecidos. Era um livro de infinitas páginas. Cada vez que a personagem abria o tal livro, encontrava sempre outra coisa: outra página, outra ilustração ou outro traço qualquer que usualmente um livro possua. O vendedor de bíblias lhe diz:
Não pode ser mas é. O número de páginas deste livro é exatamente infinito. Nenhuma é a primeira; nenhuma, a última.  
Trata-se aqui de uma literatura conhecida como realismo fantástico na qual se pretende seduzir o leitor para conduzi-lo a uma sensação de "irrealidade da realidade". As experiências da vida comum são transformadas em coisas incomuns, em contextos inusitados e paradoxais. Tudo isso sem que se perceba, ou melhor, que se distinga o que é da ordem da ficção ou da realidade. Mistura personagens existentes (reais ou de outros livros) com personagens criados para a história que está em foco.Inventa livros para deles fazer uma crítica ou um prólogo. Afirma Pierre Menard, em pleno século XX, o autor do Quixote, que ele reproduz por inteiro sem nunca antes ter lido a obra Cervantes.



No cenário da peça, espalhados pela estrutura de papelão que vai do chão até quase o teto, como se fosse uma arquitetura irregular, vemos livros abertos, fechados, deitados, em pé, jogados, espalhados pelo cenário sem nenhuma ordem específica. A História do Teatro, de Margot Bertold, obras de William Shakespeare, Samuel Beckett, Joseph Conrad e, imaginamos, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Julio Cortázar e todos os grandes autores, mesmo que concretamente lá não estejam.

Gisele Fróes se interrompe, bebe água:
- Eu não quero mais falar dela, daquela Arquitetura sem finalidade.
Mas retorna ao seu posto e, com gestos suaves e inflexões minimalistas, continua a entretercontando para nós uma história sem fim nem início, a história de Homero hoje ou de Proust nos primórdios da humanidade. Em certos momentos pode se ver que ela se emociona sem que haja propriamente uma ação que desencadeie tal coisa. Uma emoção estética? Uma reação à revelação da beleza que o texto tem? À comunhão com aquelas palavras tão díspares e tão íntegras? Talvez reaja à palavra e sua potência anímica, ou a uma lembrança arquetípica ou a um símbolo que retrate ou reflita a impossibilidade do homem de viver para sempre com ou sem literatura.

É uma peça intimista, para ser vista com bastante proximidade, os espectadores atentos, como se fossem pessoas sentadas à volta da fogueira para ouvir as histórias que o griot vai contar. Infelizmente assisti de longe, lá no alto, na penúltima fileira (embora o espaço seja pequeno) e isso fez toda a diferença: o cenário não se impôs em sua grandiosidade absurda, irracional, a atriz não pôde ser vista e apreciada totalmente nas sutilezas das intenções de quem narra um texto e no refinamentos das emoções que a palavras, na literatura de Borges, provoca.

A peça deve ser vista de perto, com o espectador quase podendo tocar a atriz - contadora de histórias - e receber, cerimoniosamente, das mãos dela, o pouco de água que lhe é ofertado.


"O imortal"

Dramaturgia: Adriano Guimarães e Patrick Pessoa
Direção: Irmãos Guimarães
Atuação: Gisele Fróes
Direção de Movimento: Marcia  Rubin
Cenografia: Adriana Guimarães e Ismael Monticelli
Figurino: Gisele Fróes

CCBB - Centro Cultural do Banco do Brasil
Teatro III: de 06 de abril a 27 de maio de 2018 - Quarta a domingo, às 19:30



Marco Guayba

Ator, diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras


Postar um comentário

Mais visitadas

Obrigada pela visita volte sempre!

Outras Postagens