11/04/2018

Critica: "Quase Memória" (Oblivious Memory) - Um filme de Ruy Guerra




Quase Memória. O filme se baseia no livro homônimo de Carlos Heitor Cony, embora trace seus próprios contornos criativos. Aqui e ali há elos nítidos entre o filme e a obra original, mas em outras partes o roteiro perfaz um caminho singular Na abertura do livro de Cony há uma Teoria geral do quase em que o autor diz que após Pilatos havia prometido não mais escrever romances e acrescenta: "Daí a repugnância em considerar este Quase memória como romance. Falta-lhe, entre outras coisas, a linguagem. Ela oscila, desgovernada, entre a crônica, a reportagem e, até mesmo, ficção. Prefiro classificá-lo como 'quase-romance' - que de fato o é. Além da linguagem, os personagens reais e irreais se misturam, improvavelmente, e, para piorar, alguns deles com os próprios nomes do registro civil.

"Reflexões de um Cineasta. Ruy Guerra, neste seu mais recente trabalho, faz um cinema para saborear. A personagem central - cindida em duas vozes marcadas por tempos e humores distintos - nos faz supor que se pode brincar com a própria vida, com as memórias pessoais que cada um de nós carrega dentro de si, com as saudades e pesadelos, os amores e as perdas,as idiossincrasias e os desacertos, tudo isso, e muito mais, rodopiando num carrossel de emoções feericamente descabidas. A estética do filme torna possível poetizar os restos, as sobras, os fragmentos, os retalhos que ficam quando uma vida atinge o seu período outonal e a ruptura é a face exposta de uma memória que se ausenta de si mesma.




O inútil de Cada Um. Carlos (Tony Ramos), perdido em seus vazios, descobre um outro eu (Charles Fricks) morando em sua casa. Este é mais jovem e lembra-se,sobretudo, das histórias incríveis vividas por seu pai, Ernesto Campos (João Miguel), um jornalista sonhador, sinônimo de aventura e desconcerto. Através desta personagem vai se tecendo uma ponte entre o tudo e o nada, entre o real e a ficção, entre a memória factual e a invenção de memórias afetivas fantásticas e improváveis, entre a não-­memória do Carlos velho e a exuberância de recordações do Carlos novo. "Se for um delírio, um de nós está inventando o outro."

Esculpir o Tempo. Esse pai  "também é uma lembrança dos outros". E é precário, clownesco, um Jacques Tati com sotaque brasileiro, inadequado, histrião, um Fígaro tropical repercutindo óperas nos desastres de seus empreendimentos. Ah, um enigmático  pacote dá um tom de mistério  inefável a  história  desse pai-herói - construtor de balões que cruzam os ares e retornam muito tempo depois ninguém sabe como nem porquê.  Uma pura fantasia para olhos· meninos.




E La Nave Va. O trabalho dos atores vai do farsesco ao naturalismo ao gosto de Stanislavski, com toques de atuação brechtiana aqui e ali. Tony Ramos é um espetáculo à parte. João Miguel dá um show de histrionismo. Ele e Júlio Adrião divertem-nos se divertindo. Charles Fricks faz um contraponto sóbrio à demência epistemológica do outro Carlos e aos devaneios extravagantes de Ernesto em seus expedientes  miraculosos. Mariana  Ximenes ostenta com  honra  Maria, mãe do autor, tanto nos momentos dramáticos como em suas reações perplexas ante as "invenções" do marido. O ator Tony Ramos certamente passou a vida inteira esperando por esse Carlos  Campos. Ou não.  Mas encontrou-o  como um réquiem.  E interpretou-o  em êxtases lúdicos e profanos.



O Voo dos Anjos. "Ninguém morre quando é lembrado".Chegamos ao final do filme emocionados. Tony Ramos, ou melhor, Carlos Campos, demanda a lágrima, porque solicita de nós uma ternura pela inconsistência da vida e das pessoas nossas que a habitam como figuras inacabadas, incompletas, reluzindo a sua imperfeição como um monumento à própria existência.


Navegar é preciso, lembrar não é preciso. A perda de memória. O vácuo, o vazio, a sombra, o nada. "A ficção é apenas uma realidade que ainda não aconteceu". Quase memória, quase romance, quase cinema, ou seja, um filme espetacular que acaricia o espectador - que gosta de ver filmes distantes do modelo blockbuster bem comportado - com imagens e falas exemplares, daquelas que honram a sétima arte como cinema de invenção, desde que Lumière fez a primeira projeção cinematográfica.

"Quase Memória" (2015, drama/filme de ficção, 1h 35m) Direção: Ruy GuerraOutros filmes de Ruy Guerra: Os Cafajestes (1962), Os Fuzis (1964), Os Deuses e os Mortos (1970). Erêndira (1984), Ópera do Malandro (198S),Kuarup (1989), Estorvo (2.000) Roteiro: Ruy Guerra, Bruno Laet, Diogo Oliveira Música: Tato Taborda Com: Tony Ramos (Carlos), Charles Fricks (Carlos), João Miguel (Ernesto), Antonio Pedro (Giordano}, Júlio Adrião (Mário Flores), Flávio Bauraqui (Seu Ministro), Cândido Damm (Horácio), Augusto Madeira (Tio Alberico), Thiago Justino (Gomes), Inês Peixoto (Mãe de Maria), Ana Kutner (Sônia), Mariana Ximenes (Maria)

Estreia dia 19 de abril nas melhores salas de cinema do país. Trailler aqui





Marco Guayba

Ator, diretor, 

preparador de elenco e Mestre em Letras

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