28/03/2018

Crítica: Górgona - um documentário estreito em seus laços



“Górgona” é um documentário sobre a renomada artista Maria Alice Vergueiro em sua trajetória no espetáculo “As Três Velhas”. Ela, já idosa, se endivida para realizar a montagem de Alejandro Jodorowsky e prolongar sua satisfação em fazer teatro.
No auge de sua experiência, a atriz se encontra diante de um desafio: superar suas dificuldades neurológicas causadas pelo Parkinson e dirigir o espetáculo contracenando com grandes figuras da dramaturgia nacional. Divide o camarim com Luciano Chirolli e Danilo Grangheia e divide histórias das primeiras temporadas em outros formatos. Então quatro anos antes, como em um flash de memória, Maria Alice com Luciano Chirolli e Pascoal da Conceição trocam vivências e pessoalidades em suas preparações, deixando nítida a sincronia entre os três.
  

As limitações de Maria se tornam uma mostra de amor ao teatro. A cooperação de sua principal assistente, a atriz Carolina Splendore, mostra um pouco do que é esse envolvimento com o tablado, quando, por trás do cenário, canta as falas para Maria Alice através de um ponto de áudio. As duas dividem muitos momentos de camarim que ficam marcadas na visão da audiência como duas amigas e cúmplices.
Nesse caminho de 5 anos, o espetáculo passa uma série de dificuldades e decepções. A maior delas é a dificuldade em sustentar financeiramente as apresentações que contam com pouco faturamento. Apesar de oferecer uma enérgica experiência ao espectador e ser elogiada pela crítica, o espetáculo não contou com grandes públicos. A atriz pragueja, também, por falta de apoio dos colegas de profissão.
O primeiro elenco, Vergueiro, Chirolli e da Conceição, tem a média de idade mais alta. Este elemento é trabalhado no filme, quando fala-se sobre virilidade, bem no linguajar desbundado d’As Três Velhas.
No filme, a fotografia de Fábio Furtado é elemento de destaque na obra. Seja dentro do camarim, onde há uma trucagem com o reflexo dos espelhos que amplia o campo de visão enquadrado, lugar onde a maioria das revelações e interações ocorrem; ou nos palcos onde a peça passou, onde a iluminação contribui muito para a associação das cenas ao ambiente do teatro.
A direção de Pedro Jezler e Fábio Furtado tem papel crucial para a construção de elementos presentes também na peça. O maior deles a intimidade com o público ao acessar memórias e reflexões de artistas tão renomados na dramaturgia nacional.
O resultado final reflete muitos aspectos da produção de teatro no Brasil, o maior deles: a dificuldade em levantar, seja por braços públicos ou privados, a política não tem nos ajudado. Também expõe uma sensibilidade destacável dos artistas através das lentes. Dando a impressão de, realmente, tornar-nos íntimos destes personagens da vida real. Com as mesmas inseguranças e desgastes que não imaginaríamos se não fosse essa documentação.

Górgona, Documentário
Direção: Fábio Furtado e Pedro Jezler
Elenco: Maria Alice Vergueiro, Luciano Chirolli, Danilo Grangheia, Pascoal da Conceição, Carolina Splendore, Marco Luz, Elisete Jeremias, Lui Seixas, Monique Salustiano, Pedro Cameron
Duração: 77 min
Data de estréia: 29 de Março /2018
Classificação etária: 14 anos






Escrito por Sandro Demarco. Produtor graduando em Produção Cultural, cineasta, assistente técnico de iluminação e ator.


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