21/03/2018

Crítica: A Odisseia - Jérôme Salle




A família Cousteau - Jacques, sua mulher Simone e os filhos Philippe e Jean-Michel - fez do mar a sua moradia. O navio oceanográfico Calypso leva-os por todos os mares do globo. Utilizando invenções próprias que facilitam o mergulho submarino e a filmagem embaixo d'água transformam suas viagens em uma série de filmes para TV e em oportunidades para descobertas científicas e possibilidades comerciais.
Philippe (Pierre Niney) e Jean-Michel (Benjamin Lavernhe) desde crianças mergulhavam com os pais e tinham experiências incomuns, de um prazer todo especial, com a beleza daquelas paisagens marinhas. As filmagens dessas cenas mostram o que vêem o olhar deslumbrado dos pequeninos. São momentos de grande poesia e de um maravilhamento que irá marcá-los por toda vida.
Simone (a excelente Audrey Tautou) é a esposa dedicada e apaixonada pelo mar. O barco é sua residência e sua vida. A nota negativa fica com as aventuras amorosas de seu marido que a deixam extremamente enciumada e com um temperamento cada vez mais fechado em si mesmo. O trabalho de maquiagem que vai passo a passo mostrando as marcas do tempo em seu corpo é de grande qualidade e eficiência.
Jacques Yves Cousteau (Lambert Wilson), o comandante do gorro vermelho, teve que abandonar a aviação por causa de um acidente. Da imensidão do espaço aéreo à grandeza submarina sua vida torna-se uma inédita aventura. Ele é determinado em seus empreendimentos, obcecado pela meta de conhecer os oceanos e um showman diante das câmeras. A história de sua odisseia é filmada o tempo todo: à mesa com os parceiros de trabalho e a família ou no fundo do mar com os habitantes do mundo abissal. Sua vida social é intensa: entrevistas para TV ou rádio, mulheres e prazeres diversos. Transforma-se um uma espécie de queridinho da mídia: galã, superstar, e, por fim, militante em prol do lar de Netuno.
O drama humano surge, principalmente, no relacionamento com seu filho Philippe. Este é impulsivo, destemido (arrisca-se muitas vezes para obter boas filmagens com tubarões ou outras espécies) e demanda intensamente um reconhecimento e uma aceitação por parte do pai. O jovem afasta-se da trupe científica dos Cousteau e parte para uma empreitada própria. Descobre a ecologia e a necessidade de preservar o tesouro marinho. A cena em que Jacques e Philippe tem uma DR de pai e filho é crucial para a compreensão do filme e da destino dos Cousteau.
Após uma viagem às terras geladas da Antarctica, Jacques Cousteau chega a conclusão que ele pensou - até aquele momento - em conquistar o mar, quando se tratava de o defender. Espécies ameaçadas, outras já extintas, o mar cada vez mais poluído. Tudo isso é uma história real. Há toda uma geração que assistiu os filmes na TV (ou em vídeos e DVD) e agora pode conhecer a história por trás da história seguindo a mão segura do diretor e a visão da ficção documental do artista Jérôme Salle.
Há um aspecto do filme que merece ser tocado: as imagens da natureza marinha são de um esplendor majestoso. O azul predomina na tela: em ondas, em uma imensidão infinita e em tomadas submarinas. A música de Alexandre Desplat sinestesicamente nos faz sentir mais de perto esse incrível universo. Saímos do cinema banhados por essas imagens extraordinárias. E refletimos sobre quão fantástica foi a vida dessa família.
Dizem que todo homem (ou mulher) procura o seu infinito - ao menos os que tem o espírito da aventura e a marca de um certo tipo de herói. Jacques Yves Cousteau, como um Ulisses moderno, buscou o seu infinito, primeiramente, no ar, mas não pôde prosseguir devido a um acidente, encontrou-o, então, nessa magnífica maravilha que é a imensidão mar.
Para não encerrar essa apreciação crítica, pois o embalo das ondas é sem fim, a citação de um trecho do poema "Mar Portuguez", de Fernando Pessoa: "Valeu a pena? Tudo vale a pena / Se a alma não é pequena. / Quem quere passar além do bojador / Tem que passar além da dor / Deus ao mar o perigo e o abysmo deu, / Mas nelle é que espelhou o céu.""
"A Odisseia" (L'Odyssée) - 2016 - 2h 3mim
Direção: Jérôme Salle
Escrito por: Marco Guayba
Ator, diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras
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