26/03/2018

Crítica: Madame, filme de Amanda Sthers

Um casal rico e sofisticado, Bob e Anne Fredericks, oferece um jantar para a sociedade parisiense. Eram 12 os convidados, mas uma presença não prevista faz com que se tornem 13 os que estarão à mesa. A supersticiosa Anne (Toni Collette) considera isso um prenúncio de muito azar. Resolve, então, de improviso, transformar sua empregada Maria (Rossy de Palma) em uma misteriosa aristocrata espanhola para evitar o número maldito e seu mau agouro. Bob (Harvey Keitel) está passando por apuros financeiros e espera aproveitar a ocasião e vender seu quadro da Santa Ceia pintado por Caravaggio. Na parede, Cristo e os apóstolos comungam a presença do filho de Deus. À mesa do divertido casal, uma ceia nada sagrada e uma romaria de tentações e delícias profanas. Mas algo inesperado acontece: David Morgan (Michael Smiley), um britânico comerciante de arte, se vê seduzido pela graça e encanto da convidada especial.
Maria (Rossy de Palmas) e  David (Michael Smiley) a mesa no jantar de Anne Fredericks.
A magia do amor é esse enigma que ninguém explica, pois o improvável acontece: Maria e David vivem um amor caliente sob os olhares perplexos e enciumados da humilhada Anne, que, mesmo sendo bela, elegante e refinada, sente-se preterida pelo amor dos homens enquanto a humilde empregada, desprovida de cultura e da beleza padrão que a sociedade impõe, vive uma paixão dos sonhos digna das melhores comédias do cinema italiano.
Insatisfeita com tal situação, Anne procura falar com Maria de mulher para mulher, mas só consegue manifestar seus conceitos de classe privilegiada e, de forma nada sutil, mas sem brutalidade, tenta colocar a serviçal em seu devido lugar. A loura linda e sexy perua moderna e "igualitária" não hesita em mostrar quem é a patroa e deixar claro para a outra que ela é que dá as cartas no pedaço.
 Atriz Toni Collette como Anne Fredericks
Madame é um veículo para o talento de Rossy de Palma, um presente que a diretora Amanda Sthers dá e essa majestosa revelação almodovariana. A atriz esbanja todos os seus dotes artísticos, instilando beleza, em cada cena de que participa, com sua capacidade de interpretar, de emocionar e fazer brotar um humor ao mesmo tempo simples e profundamente humano. O filme é uma deliciosa comedia de costumes e ao mesmo tempo uma terna comédia romântica. Expõe a hipocrisia social dos mais favorecidos ao mesmo tempo que mostra que o amor não tem parâmetros que o definam ou o limitem.

Maria, a humilde e ingênua empregada católica, ao ser colocada numa situação que a leva a outro patamar de existência descobre prazeres e desejos que a inclinam err favor de uma paixão que vale a pena ser vivida com os melhores temperos e vinhos que o paladar humano pode provar. Faz isso sem abrir mão de seus valores e seu sentido ético.
Steven Fredericks, o filho de Bob, escritor em ascensão, irônico e sagaz, um jovem revoltado com a hipocrisia social, funciona como uma uma espécie de consciência crítica da narrativa. Escreve The Maid, uma novela que é, supostamente, a história do filme a que estamos assistindo. Ele é quem acende a chama do plot central ao segredar para o comerciante de obras de arte uma Maria inventada nas asas de sua imaginação poética. Através dele, o final do filme fica para o espectador decidir - numa sensível e inteligente operação de metalinguagem.

MADAME
Direção: Amanda Sthers
Outros filmes de Amanda Sthers: You’ll Miss Me (2009) - Un Vrai Bonheur, le Film (2005)
Roteiro: Amanda Sthers (roteiro, história e adaptação) e Matthew Robbins (adaptação)
Música: Matthieu Gonet
Com: Harvey Keitel (Bob Fredericks) - Toni Collette (Anne Fredericks) - Rossy de Palma (Maria) - Tom Hughes (Steven Fredericks) - Michael Smiley (David Morgan) - Violaine Gillibert (Hélène Bernard) - Joséphine de La Baume (Fanny) - Stanislas Merhar (Antoine Bemard)
Trailler legendado: aqui
Marco Guayba
Ator, diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras






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