17/05/2018

Dica da Semana: Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo revela a África contemporânea em gigantesca exposição

by on 16:00
Foto:Ayo Akinwande

Em cartaz de 28 de abril a 16 de julho, com entrada gratuita, Ex Africa, maior mostra de arte contemporânea africana realizada no Brasil, reúne mais de 90 obras dos principais nomes das artes visuais do continente


São Paulo, abril de 2018 – A partir do dia 28, passado e presente de um povo que ajudou a moldar a cultura brasileira serão destaque no Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo (CCBB SP). Maior exposição de arte contemporânea africana realizada no país, a Ex Africa traz à capital paulista nomes que são destaque na cena artística atual, cujas obras revelam, como nenhuma outra, a história e o novo momento do continente que, ao mesmo tempo em que tenta se reconstruir da ferida causada por séculos de tráfico negreiro e de colonização, volta a expandir as suas cores e cultura para outras fronteiras. O patrocínio é do Banco do Brasil, com apoio da BB DTVM e Ourocap.

Vinte artistas assinam as mais de 90 obras que estarão expostas pelos andares do CCBB SP até 16 de julho. São esculturas, fotografias, instalações, performances, pinturas e vídeos que traçam um microcosmo da África de ontem e de hoje, por meio de quatro eixos distintos: Ecos da História, Corpos e Retratos, O Drama Urbano e Explosões Musicais.

Binelde Hyrcan | Crédito: Video Stills Atelier Binelde Hyrcan


“A interseção desses eixos mostra que o continente africano vive um contínuo e efervescente processo de renovação criativa e artística”, sublinha o curador da exposição, Alfons Hug, que foi diretor do Instituto Goethe em Lagos, na Nigéria, e possui um extenso trabalho de pesquisa sobre a arte desse continente.


Ele conta ainda que o raciocínio por trás do conceito e do nome da exposição partiu da frase Ex Africa semper aliquid novi (da África sempre há novidades a reportar), cunhada há mais de 2 mil anos pelo escritor romano Caio Plínio.


África e Brasil


Nomes como os do ganês Ibrahim Mahama – que montará uma gigantesca instalação na entrada do CCBB –; do provocativo retratista senegalês Omar Victor Diop, do fotógrafo e ativista zimbabueano Kudzanai Chiurai e de outros 15 artistas de oito países africanos se juntam aos de dois brasileiros: Arjan Martins e Dalton Paula. Afrodescendentes, Arjan e Dalton possuem obras dedicadas à herança africana na cultura brasileira. Para isso, realizaram estudos no Brazilian Quarter, bairro localizado na capital nigeriana construído por brasileiros que retornaram ao continente após a abolição da escravatura, no final do século XIX.
Untitled Triptych (Code Noir) – Leonce Raphael Agbodjelou | Crédito: Jack Bell Gallery

"A exposição acontece num momento em que a herança africana volta a estar em evidência. Existe uma maior valorização da arte africana e afro-brasileira, porque a presença negra nessa cultura vem aumentando em quase todas as áreas. Além disso, os artistas africanos consideram o Brasil um país irmão e o intercâmbio cultural vem se intensificando aos poucos", destaca Hug.


Tradição e modernidade


Uma crítica ácida ao colonialismo e ao tráfico de escravos estão em Ecos da História, primeira parte da exposição. Nela, destaca-se uma instalação formada por objetos do tempo do comércio de escravos (algemas, ferros de marcar, moedas, mandados de captura). Assinada pela artista nigeriana Ndidi Dike, a obra propõe uma obscura viagem no tempo, época impiedosa, marcada pelo sofrimento humano e pela cobiça.


As obras sugerem ainda uma reflexão amarga sobre a relação entre a pobreza, o desemprego, as recentes migrações e aspectos relacionados aos tempos dos navios negreiros. Não deixam de lembrar as imposições de uma cultura religiosa ocidental e herança colonial, evidenciada na série de fotografias de Leonce Raphael Agbodjelou, artista do Benim. Em parte de sua obra, ele evoca o Code Noir, decreto em que a administração colonial francesa da África Ocidental regulava a escravatura.


Cosmópoles


Paisagens desoladoras, ordem e caos, modernidade e ruínas. Esses e tantos outros contrates das metrópoles africanas estão nas obras de O Drama Urbano. Um dos destaques vai para a videoinstalação Ponte City, nome de um arranha-céu no centro de Joanesburgo. Assinada pelos artistas Mikhael Subotsky e Patrick Waterhouse, a obra é composta por 12 janelas digitais que simulam a vista do edifício marcado por histórias de decadência e gentrificação.


Karo Akpokiere, nascido em Lagos (maior cidade da Nigéria e uma das maiores do mundo) assina ilustrações, com fortes elementos da cultura pop, que fazem uma sátira à miríade de anúncios publicitários que invadem diariamente a megalópole e refletem modismos, o mercado e suas desigualdades, a política e negociatas de toda natureza.


Expressões do corpo

Cabelos trançados que lembram delicadas esculturas; retratos com ares ironicamente pomposos remetem a notáveis africanos que atuaram na Europa entre os séculos XVI e XIX. A força expressiva da estética corporal está nas fotografias, vídeos e instalações de Corpos e Retratos, recorte que traz os famigerados autorretratos do senegalês Omar Victor Diop e a série Hairdo Revolution (revolução do penteado), com fotografias em preto e branco do nigeriano J. D. Okhai Ojeikere.

Outro destaque do eixo Corpos e Retratos é a arte multifacetada do angolano Nástio Mosquito. Por meio de vídeos, performances, música experimental, instalações e poesia, o artista levanta questões em torno da fé, identidade, herança colonial, entre outros temas. “Para onde queremos ir? O que queremos construir?”, ele pergunta. “Não seja cool, seja relevante. E se conseguir ser cool de maneira relevante, melhor ainda”, diz. Na mostra ele apresenta uma videoinstalação da música Hilário.
Galerias musicais


Do afrobeat de Fela Kuti, ao pop nigeriano, Explosões Musicais transforma uma das galerias de “Ex Africa” no “Clube Lagos”. Poder, sexo, riqueza e religião são temas habituais da música africana e ganham relevância nesta sala onde os clichês da world music dão lugar à autenticidade do Naija Pop. O New Afrika Shrine, de Femi Kuti, muito popular na cena nigeriana, também está entre os destaques.





Ex Africa
De 28 de abril a 16 de julho de 2018 | quarta a segunda-feira, 9h às 21h.
Entrada gratuita
Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo
Rua Álvares Penteado, 112 – Centro. São Paulo-SP
(Acesso ao calçadão pelas estações Sé e São Bento do Metrô)
(11) 3113-3651/3652 | Quarta a segunda, das 9h às 21h

Acesso e facilidades para pessoas com deficiência | Ar-condicionado | Cafeteria e Restaurante | Loja
Estacionamento conveniado: Estapar - Rua Santo Amaro, 272.
Traslado gratuito até o CCBB. No trajeto de volta, a van tem parada na estação República do Metrô.
Informações pelo telefone (11) 3113-3651/3652
Valor: R$ 15 pelo período de 5 horas.

É necessário validar o ticket na bilheteria do CCBB.

Crítica: Paris 8 - Um filme de Jean-Paul Civeyrac

by on 14:40

Um filme sobre um filme

Etienne Tinam, um jovem de província, dirige-se a Paris para realizar o seu sonho de fazer filmes. No curso de cinema da Sorbonne conhece Mathias um aguerrido esteta e livre pensador, e Jean-Noël, cujo entusiasmo com a sétima arte é sua marca registrada. Em sua primeira aula, a professora fala da grande fase do cinema italiano logo após a derrocada dessa nação no fim da Segunda Guerra  Mundial. Diz que muitos consideram-na como um segundo Renascimento tal a grandeza de suas realizações: Fellini, Pasolini, De Sica, Visconti, Rosselini, Antonioni. Mas, também, gente como Dino Risi, Luigi Zampa e Dario Argento. Uma multiplicidade rica em estilos e gêneros.

Mathias para os outros alunos, aparece como antipático e arrogante, pois questiona-os o tempo todo sobre a postura que eles têm frente ao cinema como arte e realização humana mais profunda. Sua fome é a de criar obras originais e de qualidade. Ele, Etienne e Jean-Noël formam um trio que se ocupa com as premissas necessárias para se realizar um cinema verdadeiro. Assistem filmes antigos e deslumbram-se com coisas como tomadas impecáveis enquadramentos criativos ou roteiros potentes.

Etienne está descobrindo Paris, mas também seu próprio desejo. Mahler, Bach e Erik Satie estão presentes na trilha sonora e nas preferências musicais do jovem artista. Baudelaire, Pascal e Novalis, entre outros, alimentam sua necessidade orgânica de Literatura e pensamento estético. Lucie, Solange, Valentina, Annabelle e Barbara atravessam a sua vida amorosa e sexual, presenteando-o com perdas e descobertas. Como diz Novalis: “Até mesmo o acaso não é impenetrável tem as suas próprias regras.”






Os jovens que Etienne conhece na capital são, predominantemente, oriundos de alguma província da França, e estão ali para construir suas vidas profissionais ou artísticas. Paris, curiosamente, nunca aparece em sua grandeza e esplendor, é algo apenas pressentido, tal como o filme de Etienne. O que vemos em cena são debates sobre a sétima arte: O que é cinema? Como fazer cinema? O que fazer do cinema? Como fazer um cinema de invenção e crítico nos dias de hoje em que a indústria cinematográfico domina quase que absolutamente, a paisagem?

O filme foi realizado quase todo enquadramentos em primeiro plano ou em plano americano com corte na altura da barriga - mesmo numa festa, ou na sala de aula, o que vemos são, quase sempre, cabeças conversando. Os atores são precisos em suas interpretações o mais das vezes, minimalistas, contidas mas que deixam vazar a emoção de forma cirúrgica e pontual. A bela fotografia em preto e branco destaca de forma sutil a vivência das personagens. São tomadas simples e luminosas, mostrando apenas o que o diretor pretende que seja visto. Um exemplo disso é a cena do beijo de Valentina e Etienne: as personagens estão face a face e se aproximam pouco a pouco, falando coisas em torno do próprio ato que estariam prestes a realizar.

O romântico Alexandre Dumas poderia estar presente com os seus três mosqueteiros, que não seriam Porthos, Athos e Aramis mas imagem, luz e movimentos de câmera, ou, quem sabe, Pascal, Novalis e Satie. Já o quarto Mosqueteiro não se chamaria D’ Artagnan, mas Cinema ou talvez a moça-musa da vez, pois há sempre uma mulher zanzando pela área e arrastando para si uma cota de sensualidade tímida de Etienne. A cumplicidade desses bravos rapazes, entretanto não dura para sempre, pois Etienne perde seus dois amigos e parceiros: um para o cinema-indústria e outro para o fascínio da morte.





Há uma espécie de lucidez da imagem: o diretor Jean-Paul Civeyrac fez o filme que pretendeu fazer. Tudo nele é pensado para atingir o efeito da dignidade do preto e branco de um filme antigo - tal como na época de ouro de Hollywood ou da fase do neo-realismo na Itália ou da nouvelle vague na França - como, por exemplo, os conflitos políticos, as aventuras fracassadas e o tema da solidão do artista em seu processo de criação.

Mes Provinciales lembra-nos que Georg Philipp Friedrich Von Hardenberg - mais conhecido pelo nome poético que adotou, ou seja Novalis - foi um dos mais importantes poetas do romantismo alemão, e deixou-nos, em sua fortuna de escritos filosófico-literários, a potência da ideia de que “Seja em que poesia for, o caos deve transparecer sob o véu cerrado da ordem.”

“Paris 8”( Mes Provinciales ) - 2017 - 2h 17min
Direção  e Roteiro: Jean-Paul Civeyrac
Com: Andranic Manet - Gonzaga Van Bervesseles - Corentin Fila - Jenna Thiam - Sophie Verbeeck - Nicholas Bouchaud - Diane Rouxel - Charlotte Van Bervesseles - Valentine Catzéflis - Christine Brücher

Trailer: link aqui

Marco Guayba
Ator, diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras



Crítica: 7 Cordas - de Thaís de Campos

by on 00:45




Nesta segunda-feira no Complexo Lagoon, área cultural da zona sul do Rio de Janeiro  tivemos a estreia do curta metragem nacional, 7 Cordas; protagonizado por Rafael Zulu e Jeniffer Setti, em evento fechado e o Desconexão Leitura foi conferir de perto. O evento contou com a presença do elenco Rafael Zulu, Jeniffer Setti, Anderson Tomazini, Felipe Salarolli e Carlos Vereza, faltando apenas Simone Soares por não estar no Brasil. Também estavam presentes a diretora Thaís de Campos, o roteirista Fausto Galvão, o co-roteirista Homero Mendes e os produtores da Barroso Pires Produções Artística. Além disso, marcaram presença famosos como Oscar Magrini, Joaquim Lopes e Adriana Bombom.

O curta envolve romance, música e traz uma mensagem profunda através da reflexão de como decidimos aproveitar e seguir  nossa vida como um todo e a sincronicidade, elemento central da narrativa. Conceito disseminado por Carl Jung, a sincronicidade é um fenômeno que não tem associação a uma causa específica, e se explica somente como uma coincidência significativa.

Rafael Zulu em entrevista
Com essa breve introdução, a trama é centrada no casal musicista Fátima e Domingos, ambos usuários de violões de 7 cordas, vivendo uma relação conturbada por conta do processo de criação meticuloso e perfeccionista de Fátima. Enquanto em Portugal temos Solange, também musicista e usuária de violão de 7 cordas, ousa e se esbanja da vida para dar forma às suas criações, aproveitando de todas as possibilidades. De forma improvável, a música entrelaça as personagens formando uma relação inconsciente sincronística.

O conflito vivenciado por Domingos (Dó) é realçado pela fotografia e as expressões de Rafael Zulu que marcam a angústia e sofrimento do personagem tais, causadas por Fátima (Fá), retratada por Jennifer Setti. A busca  de Fátima por perfeccionismo, originalidade e sua meticulosidade em sua criação musical, quase que obsessivos, a direciona a fechar seus olhos para seu companheiro, gerando a angústia e tristeza de Domingos com o afastamento. E nessa dissonância entre Fá e Dó acometem de causalidade o casal musicista, e enriquecem a trama pela ressonância entre os atores. Em contraponto somos levados por Solange (Sol), retratada por Simone Soares, em que a fotografia e gestual mostram um tom mais suave e alegre a personagem, mostrando-se como um Sol a dissonância de Fá e Dó.







Grande honra conhecer este ator de
tamanho gabarito e história tão rica
O conceito de sincronicidade permeia diferentes momentos na trama, contudo pede maior atenção do espectador para reconhecê-la. Além disso a trama evoca diferentes sentimentos a cada take, tornando mais verossímil a emoções de Domingos levando ao espectador os sentimentos de tristeza e desespero que ele enfrenta como também a sua alegria momentânea ao se deparar com a Sol em meio  tormento gerado por Fá.
Essa interpretação pode ser um tanto equivocada devido a diretora partilhar que o curta teve de ser cortado para 15 minutos, para aumentar sua divulgação, perdendo assim algumas cenas que poderiam para aumentar a experiência do espectador e até mesmo dá outras interpretações a obra. Mesmo assim 7 cordas traz uma ideia interessante e enredo intrigante,  sendo divulgado por meio de festivais no Brasil e mundo.

11/05/2018

Resenha: A Rainha do Fogo - Anthony Ryan

by on 16:00

ATENÇÃO: Como esse é o desfecho da trilogia, alguns spoilers são inevitáveis, então se você ainda não leu os dois primeiros livros e não gosta de estragar a surpresa, é melhor parar aqui e ler os dois primeiros livros antes de prosseguir.

"O Senhor da Torre" começará mais uma vez com o relato de Verniers que, impressionado com a narrativa do Matador do Esperança, resolveu partir para seu reino, apenas para ser capturado e virar escavo dentro de um navio, no cerco a um dos feudos do Reino.

Vamos encontrar um Vaelin mais velho, mais sábio, desiludido de sua Fé e relutante em aceitar o cargo que lhe oferecem, como Senhor da Torre dos confins do Norte, mas se dirigindo para lá mesmo assim pois é o que a canção do sangue lhe diz para fazer. Lyrna também parece ter mudado consideravelmente nos últimos cinco anos. Assim, quando o Aliado usa um de seus fantoches para matar Malcius, seu irmão, ela finalmente ascende como Rainha - mesmo que terrivelmente desfigurada, tanto física quanto emocionalmente.

Ao Final de "O Senhor da Torre", Lyrna consegue fugir dos Volarianos, começar a retomada de seu reino e seu reconhecimento como rainha. Reva vira a senhora de seu Feudo, quando seu tio por fim falece. E Vaelin forçou sua canção a tal ponto que acaba morrendo e, em seu retorno dramático da terra dos mortos, perde sua canção. E - claro - numa reviravolta emocionante, um dos dotados dos confins do norte encontra a agora Rainha Lyrna. Apesar de ficar subentedido, entendemos ao final do livro que ela é curada das terríveis deformidades causadas pelo fogo. Um final emocionante, um desfecho eletrizante para um livro se igual.

Mas agora vamos ao "A Rainha do fogo". Não vou mentir e deixar para o final. Me decepcionei muito com o desfecho dessa trilogia, assim como muitos dos outros leitores que procurei pela internet para descobrir como se sentiram e o sentimento é um só: frustração.

Neste último livro, vemos a retomada por Lyrna da capital de seu império e sua organização para enfrentar os Volarianos em suas próprias terras, antes de que tenham tempo de se reorganizar para atacar o Reino novamente. Já Vaelin, irá partir para as terras do gelo, agora com uma Ionak que o orienta com sua canção, já que a dele foi perdida.

A guerra contra Volar será brutal, sangrenta, desumana. Muitos morrerão. Muitas batalhas serão traçadas. Eles são os vilões? Talvez. Mas há mulheres e crianças em meio ao povo massacrado,e por mais que haja alguma misericórdia, não há como nos depararmos com uma guerra sem que hajam baixas civis.

Vaelin também terá que lidar com batalhas, sangue e ossos partidos, perdas irreparáveis, enquanto busca pelas respostas que todos nós esperamos desde o primeiro livro: quem é o Aliado, quais são seus objetivos, o que é história, onde começam os mitos, e o que há de verdade travestida em adoração ao longo da passagem dos séculos.

Mas o final ... ah! O grande final! É como um grande rojão que não estoura, só solta fumaça. Entendam, tudo é resolvido, ou encaminhado de forma satisfatória. Todas as respostas foram dadas. Pelo que me lembro, todas as pontas soltas foram amarradas. Mas não foi grandioso. Não foi épico. Não foi arrebatador.

Recomendo a trilogia em si. os dois primeiros livros são simplesmente magníficos, o dois sendo, em minha opinião, o melhor! Mas o desfecho sinceramente me deixou com um gosto de cinzas na boca.

Até a próxima!

10/05/2018

Crítica: Neville 'Almeida - Cronista da Beleza e do Caos

by on 16:00



Neville 'Almeida - Cronista da Beleza e do caos (Neville d'Almeida - Choronicler of beauty and Chaos) 106 min

um filme de Mario Abadde

O documentário mostra a trajetória conturbada da cinematografia desse que é um dos ícones da fase mais rebelde e criativa de nosso querido cineasta brasileiro - sempre gerando ruidosas polêmicas e criando estrondosos impactos na moral vigente. Ao longo de décadas seus filmes foram censurados, proibidos ou mutilados com cortes em várias de sua parte.

O filme começa com a ilha da Jigoia, que é onde o cineasta mora. Durante a projeção são mostrados depoimentos do artista, trechos de vários dos principais filmes desse autor, depoimentos de colegas, parceiros de trabalho, atores e amigos. Tudo acontece como se ele metaforicamente recebesse, para uma confraternização, nem sempre amena, em sua residência - a arte  cinematográfica  - aqueles que de alguma forma estiveram presentes em suas aventuras na sétima arte.

A princípio, pode parecer um documentário convencional, tipo chapa-branca, com os rapapés da ocasião e a costumeira rasgação de seda para com o homenageado ilustre. Nada mais falso, Não há nada de convencional em Neville ou em sua obra fílmica. É célebre a sua obstinação em confrontar a hipocrisia, o autoritarismo e o moralismo mais empedernido.


Vemos isso no exemplo de "A Dama da Lotação". Sonia Braga está no auge de sua sensualidade e de seu talento dramático . Vive com euforia selvagem esse selvagem esse conto de Nelson Rodrigues  transformado em filme do gênero suposto erótico como drama erótico. Na história, Solange e Carlos, que se conhecem desde pequeninos, casam-se, mas na noite de nupcias o marido a força com violência. A dama deixa de fazer amor com ele, e passa a se entregar aos homens  que ela encontra no lotação. No desfecho do filme ela é um primor de descaramento e despudor em uma cena - com a cumplicidade generosa de Jorge Dória  - de explosiva volúpia e intenso espírito blasfemo.

Já "Rio Babilônia" é uma espécie de épico underground urbano onde a beleza e a generosidade da cidade contrasta com o seu lado oculto e pretensamente esquecido: a violência "invisível" de bandidos poderosos que circulam no high society. Marciano( Joel Barcellos) que vingar a morte de sua amiga Vera(Christiane Torloni), jornalista investigativa  que denuncia os crimes de um traficante internacional de ouro( Jardel Filho). Marciano passeia pelo lado menos exposto publicamente das festas picantes de políticos "respeitávies". Participa de uma confraternização erótica com um casal amigo, numa cena de "menage a trois"  na piscina, onde todas as extravagâncias libidinais são permitidas. E mostradas. Essa cena teve sérios problemas com a censura da época, e o filme quase não pode ser exibido.

Neville, em "Mangue Bangue", traça um painel de tudo que há de primitivo e animal no ser do homem em confronto com ânsia por dinheiro, poder e status  exigidos pela sociedade burguesa e pelo capital. O filme é uma obra de arte plástica em movimento.neste, e em seu outros filmes, o ator atua em êxtase e entusiasmo: sai de si para perder-se de tudo que o restringe  nesse nosso mundo de convenções inúteis e ignóbeis,.Talvez ensejando um momento de hierofania, tornando-se presa de um entusiasmo ninfoléptico, na hora de um comunhão com um mistério inabordável.


Para muito, Neville pode parecer um fauno brasileiro,voraz e libertino, mas o que ele faz, desde Jardim de Guerra, são filmes com uma pedagogia da ferocidade e do desprendimento, tentando romper a crosta da hipocrisia para revelar o que há por trás dela. Ética do desnudamento. Estética popular, mas com o refinamento da modernidade. E politica do corpo como o avesso da política oficial e cínica. Além de algo que poderíamos chamar de a poesia do mangue e do sangue.

O cinema de Neville parece a Natureza Selvagem clamando por se afirmar pela via da fúria abismal e da sexualidade. Profeta da aceitação da libido e das rupturas nos costumes. Poetas da erupções fantasma e das erupções fantasmais  e das transgressões do que ele próprio  chama de "animal cinematográfico". Escreve com imagens "sujas" e "belas" uma epifania própria ao autor. E ao filme como forma de arte.  Uma beleza, uma chama, uma chama chamada cinema, o seu cinema.

Nesse sentido, o que assistimos é mais que um mero filme sobre um cineasta, é um documento sobre os atos de um certo tipo de artista em luta aberta contra os costumes e falsidades de determinado tipo de sociedade.

Filme apresentado no Festival É tudo verdade / It's All True 2018

Sessão no Instituto Moreira Salles no dia 18 de Abril às 16 hs.

A sessão contou com as presenças do Diretor Mario Abadde e do objeto do filme, Neville d'Almeida.



Marcos Guahyba

Ator, diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras




















Crítica: A Noite do Jogo

by on 01:21


Pense só… Você está uma semana cansativa e tudo o que mais queria era uma forma de distração para esquecer todo aquele estresse do cotidiano. Vai ao cinema ver um filme, mas nenhum parece que vai te relaxar de fato, até ver A Noite do Jogo. Esse é um daqueles filmes de comédia “raiz” que trás uma temática improvável, mas verossímil, que te faz relaxar e ter ótimos momentos trazendo um tom de suspense e elementos de um típico thriller hollywoodiano que te prende na cadeira do cinema, mantendo sua a atenção a todo o momento, limpando sua mente daquela semana estressante, expulsando os problemas do cotidiano pelas situações improváveis e cômicas enfrentadas pelos personagens. 

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O filme é centrado na relação do casal competitivo e amante de jogos Max (Jason Bateman) e Annie (Rachel McAdams) que organizam sempre “a noite de jogo”, chamando seus amigos para disputas de jogos de tabuleiro e outros, até o reencontro de Max com seu irmão mais velho, rival e muito bem-sucedido, Brooks (Kyle Chandler), que chama a todos para uma noite de jogo “especial” em sua nova casa. Lá, Brooks explica que irá fazer um jogo de investigação como em eventos de Escape Room em que em determinado momento do jogo, um dos integrantes do jogo será sequestrado e todos terão que desvendar as pistas para encontrá-lo, e, tudo parecerá tão real que não serão capazes de distinguir o que é encenado e o que é verdade.

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Inicialmente não tinha muitas expectativas, pensando ser como um filme de comédia comum como a maioria - Só que não! - A Noite do Jogo traz piadas bem construídas e inteligentes que agradam tanto público mais culto, como também os mais descompromissados, trazendo sempre um sorriso no rosto a cada piada. Se não bastasse, o suspense leve, os elementos de thriller, e plot twists inusitados que brincam com o público o fazem ficar atento e focado, tornando o filme equilibrado, sem ser uma comédia boba e genérica.

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Cada ator tem seu espaço no filme, onde sua construção melhora e desenvolve a cada cena, sendo a dupla de protagonistas Jason Bateman e Rachel McAdams a demonstrar uma ótima construção e entrosamento, tornando a relação do casal mais palpável. Em especial, Gary (JessePlemons), traz uma quebra interessante e divertida o qual ao mesmo tempo que nos choca, nos faz sorrir com sua interpretação inusitada junto aos demais personagens do núcleo. Há ainda uma grande possibilidade de crescimento dos personagens devido a trama deixar algumas “pontas soltas”, aparentemente propositais para uma possível sequência. 
Por fim recomendo a todos a ver este ótimo de filme de comédia.

A Noite de Jogo - 100 minutos
Direção: Jonathan M. Goldstein, John Francis Daley
Roteiro: Mark Perez
Produtores: Jason Bateman, Jim Garavante, John Davis, John Fox
Produtor executivo: Dave Neustadter, Dave Emmerich
Distribuidora no Brasil: Warner Bros
Lançamento no Brasil: 10 de Maio de 2018
Gênero: Comédia, Mistério, Suspense
Classificação indicativa: 14 anos
Trailer
Por Jonas Farias

08/05/2018

Crítica: Frágil Equilíbrio - Um filme de Guillermo Garcia López

by on 16:00

"O mundo é uma coisa frágil e bela, navegando no meio da solidão
do Universo, do silêncio mineral, das leis da física."
(José Mujica)
Esse filme foi o vencedor do Prêmio Goya na qualidade de melhor documentário, também foi laureado no Festival SEMINCI ( Semana de Cinema de Valladolid) e participou do IDFA (o Cannes do documenrtário) como convidado. Além disso obteve prêmios de audiência em Protugal, Itália, EUA (Estado do Texas) e em outros lugares. No Brasil,  poderá ser visto em uma plataforma digital, a "Vimeo On Demand", sem excluir a possibilidade de projeções especiais e de futuramente chegar às salas de cinema.

O núcleo do filme é composto por três histórias que ocorrem em três diferentes países: Espanha Japão e Marrocos. Mas a coisa não fica só aí, inúmeras cenas (vista, paisagens) se passam no México, Qatar, Hong Kong, Inglaterra e Chile, numa montagem cuja dinâmica cria tensão e colabora com o entendimento dramático da obra. Todas essas histórias são costuradas pela palavra de José Mujica, ex-presidente do Uruguai, que discorre sobre os problemas do mundo contemporâneo, seus fundamentos e seus riscos.

Na Espanha temos vidas que são destruídas pelo poder econômico, pela crise do sistema, pela corrupção política e a especulação imobiliária. Famílias inteiras são despejadas de suas moradias, pagam por um rombo que elas não provocaram, por erros que não cometeram. A polícia cumpre seu "dever" arrombando portas e dando uma hora para os moradores se retirarem levando tudo o que puderem. A personagem central desse núcleo é um homem devido a doença, seus três apartamentos em Madrid, seu trabalho, foi morador de rua e continua tentando se reerguer.

Na segunda história, acompanhamos uma comunidade subsariana no Monte Gurugú, próximo à fronteira entre a África e Melilha, que diariamente tenta atravessar uma cerca para poder entrar na Europa em busca de uma vida melhor. São jovens e adultos que têm de escapar a uma repressão violenta e absurda para conseguir realizar o sonho de levar um pouco de riqueza e dignidade para suas famílias. Os que não conseguem são agredidos de forma brutal, mas procuram curar suas feridas para tentar novamente. São muitos africanos que dessa maneira procuram escapar da fome e da miséria de seus países.

Em Tóquio , dois executivos, que trabalham arduamente de sol e depois do sol, tentam fazer uma reflexão sobre suas existências, seus desejos de consumo e a roda viva que os aprisiona e massacra subjetivamente. Ganham um bom dinheiro, porém não amealham uma qualidade de vida que permita dizer que usufruem de bem estar e felicidade. Estamos numa cidade super populosa, como muitas em muitos outros países, com residências-pombal, com um trânsito intenso de pessoas, quase como um formigueiro absoluto. Nas ruas há sempre uma multidão indo e vindo, e um número impressionante de pessoas que saem de  suas casas usando máscaras cirúrgicas.



Essas três histórias centrais exemplificam muitas das questões mais problemáticas do mundo hoje: a luta desesperada pela sobrevivência, a imigração desenfreada, a exploração econômica sem limites éticos, a alienação e a estupidificação, a ideologia de um consumo não racional, a crise de identidade, o sonho eterno de liberdade, a solidão do indivíduo numa sociedade norteada pelo egoísmo, a necessidade de amor e o tema universal da morte.

Para onde vamos? Que respostas queremos? Como  transformar uma história com raízes tão fortes em elementos não humanitariamente progressistas?

O sistema econômico desde o pré-Renascimento tem crescido, tomando conta cada vez mais da vida, criando maravilhas tecnológicas, gerando riquezas inimagináveis e por muito tempo especializou-se em produzir postos de trabalho e desenvolvimento para a sociedade. Mas hoje cada vez menos trabalhadores nas fábricas automatizadas, nos campos mecanizados, nas agências bancárias com seus caixas eletrônicos, nas lojas de departamento e nos super ou mega mercados. Em razão disso tudo há uma crescente massa de desempregados que, em muitos lugares, povoa as ruas com suas famílias e seus poucos bens. Acresce-se a isso a explosão demográfica, a fome o descaso de governos de países ainda pouco desenvolvidos.

Na mitologia antiga, o Freixo, a árvore da vida, tinha imenso poder mágico: era um poderoso antídoto contra todos os venenos, em seus galhos amparavam todos os seres vivos. Nas grandes catástrofes, a árvore sagrada sobrevivia e protegia os que ficavam à sua sombra para que pudessem reconstruir a harmonia do mundo. Ela representava, sobretudo, a perenidade da vida. O que seria hoje o equivalente a esse símbolo?

O discurso do presidente José Mujica, que pontua todo o filme, ressalta que " O valor maior é a vida e não o negócio (...) As possibilidades são infinitas (...) A vida é uma causa em si mesma, é a causa de todas as causas."

Frágil Equilíbrio - 83 min.
Roteiro e direção: Guillermo Garcia López
Produtores: Guillermo Garcia López, Pedro González Khun, Pablo Godoy-Estel
Produtor executivo:  David Casas Riesco
Produtores associados:  Marina Garcia López, David Guerrero
Lançamento no Brasil: 18 de abril no Instituto Cervantes  - RJ


Marco Guayba
Ator, diretor, preparador de elenco e Mestre em Letras

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